Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-08-2009

SECÇÃO: Recordar é viver

Viagem no tempo

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Caros amigos, hoje ao levantar-me pela manhã senti a necessidade de escrever alguma crónica que me emocionasse, a mim e talvez aos leitores principalmente os cabeceirenses.
Como sabem, pelo menos aqueles que têm lido os últimos jornais do Ecos de Basto, tenho-me dedicado a escrever, divagando e divulgando as minhas opiniões sobre um autor clássico, muito conhecido pelas suas obras. Falo do Camilo Castelo Branco, que, na minha humilde opinião, sempre considerei um autor incomparável, também pelo facto de algumas obras das mais importantes estarem relacionadas com as Terras de Basto, em especial Cabeceiras. Apesar disso, a redacção deste jornal tem-me deixado escrever em paralelo alguns trabalhos de reportagem noutra página do jornal, onde falo da lavoura tradicional, do S. Pedro da Raposeira e da aventura por terras de França do Grupo dos Cavaquinhos da Raposeira.
Os textos do “Filho Natural”, que estou a transcrever e que me têm ocupado vários jornais, são da autoria de Camilo Castelo Branco e fazem parte das “Novelas do Minho”. Achei-os interessantes por falarem de lugares da nossa terra ou de concelhos vizinhos, onde é passado o enredo. Ocuparam mais espaço no jornal do que o esperado, mas espero que tenham servido para despertar a curiosidade pelo menos daqueles que pensam e sentem como eu. Foi essa a minha finalidade.
Foto 3 - Fernanda Carneiro a cantar ao centro e à direita a Sameirinho Queirós Moura
Foto 3 - Fernanda Carneiro a cantar ao centro e à direita a Sameirinho Queirós Moura
Ainda no seguimento do que vos estava a contar, acerca do meu pensamento de hoje pela manhã, ao sentir que precisava de algo que despertasse a minha vontade de escrever, eis que Deus ouve as minhas súplicas! Algo muito importante chegou para mim no correio. Vinha um envelope da parte do senhor Padre Domingos Apolinário, antigo director do Colégio de S. Miguel, entre os anos de 1959 e 1969, há muito radicado na Póvoa de Varzim.
Por coincidência 1969, o ano em que partiu de Cabeceiras de Basto, foi a data do meu casamento com o Manuel Carneiro. Nesse envelope, além da carta para mim, vinha um documento oficial do Arcebispo Primaz de Braga, dirigido ao senhor Padre Apolinário, convidando-o a assumir a direcção do Colégio de S. Miguel de Refojos. Junto a esses documentos vinham também, três fotografias que têm, seguramente, se a memória não me falha, aí uns quarenta e três a quarenta e quatro anos! Eu estaria a fazer catorze anos. Como podem ver pela fotografia que está muito bem conservada e onde estou a cantar entre a Sameirinho, filha do senhor Artur Moura, da Praça da República, infelizmente já falecido e outra menina de que, sinceramente, não me recordo mas, que segundo palavras do senhor “Director” andou neste colégio até ao quinto ano dos Liceus! Segundo a opinião de algumas pessoas eu até nem cantava muito mal. Sinceramente acho que apesar de ser mais velha, penso que canto ou domino melhor a voz nos tempos de hoje. Claro que, se o senhor Director Apolinário me escolhia, sempre devia cantar alguma coisa. Verdade seja dita que de música percebia ele! Nós, os alunos do Colégio de S. Miguel muitas vezes não estávamos para cantigas mas, a disciplina musical fazia parte da nossa educação. A nossa atenção fugia-nos mais para jogar ao ping-pong! No que também o senhor “director” era um mestre!
Foto 2 - Padre Apolinário, Arcipreste Barreto e o Coronel Pacheco, antigo Presidente da Câmara
Foto 2 - Padre Apolinário, Arcipreste Barreto e o Coronel Pacheco, antigo Presidente da Câmara
O Padre Apolinário vai-me perdoar mas, naquele tempo nós éramos um pouco “obrigados” a cantar. Fazia parte do ensino existir o grupo coral. Nesse particular o Padre Apolinário era um expert! A jeito de confidência digo-vos que nós tínhamos de dar tudo por tudo para fazermos boa figura. Muitas vezes havia lágrimas pelo meio dos ensaios. Era muito exigente na sua maneira de ensinar! Claro que era para nosso bem. Tínhamos que estudar bem o dó, ré, mi, fá, sol, lá, si…
O pior era que quando chegava tarde a casa e via o meu pai com os dentes a ranger… é que dava para o “torto”! Sabia que ia haver comédia! Bem deitava a culpa ao senhor Padre Apolinário que nos demorava nos ensaios mas, o meu pai, que até aos dias de hoje nunca foi fã de cantigas, não queria saber. Achava que as cantigas prejudicavam os estudos e que o dinheiro que ele pagava por mês no Colégio custava a ganhar em terras de França. O Senhor “castigou” o meu pai porque, de nove filhos que tem, todos cantam, tocam instrumentos e dançam, com excepção do José Luís.
E resumindo, até porque o espaço para a escrita e fotografias não é elástico e não quero abusar dos responsáveis da redacção, vou terminar com estas lembranças que em tão boa hora o senhor Padre Apolinário se preocupou em me mandar. Gostei muito das fotos todas mas, a que me fez chorar mais foi aquela onde estou a cantar no palco do Colégio entre a bonita Maria do Sameiro Queirós Moura, (Sameirinho da Praça), e outra jovem daquele tempo!
Bem haja “Senhor Director”, Padre Apolinário por me permitir este regresso à minha adolescência com a apresentação desta foto e ao mesmo tempo hoje poder ser vista pelos meus filhos e netos nos meus tempos de menina!
Termino com a transcrição do texto que acompanhava as fotografias;
Póvoa de Varzim, 3 de Agosto de 2009
Foto 1
Foto 1
Fernanda:
É com sentimento de profunda gratidão, que agradeço o envio do livro, verdadeiro retrato sócio-cultural dessas gentes de Cabeceiras de Basto.
Transcorridos todos estes anos, é normal, se reveja o passado e ao reviver encontram-se sinais e marcas da vida que já foi.
Retirei de entre muitas recordações elementos que envio para partilha e lembrança. Muito obrigada.
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Foto 1 – Visita Pastoral a Cabeceiras.
Sua Ex.cia Rev.ma foi recebido no Colégio e daí partiu para o Mosteiro. Alunos e professores, entusiasticamente e sem descanso, ornamentaram o Colégio, ainda com a fronte em azulejos.
Foto 2 – Foi movimento nacional a construção de Nichos a Nossa Senhora. O Colégio – professores e alunos, mandou erigir um no lugar do Pinheiro que foi solenemente benzido e inaugurado.
Foto 3 – Grande e saudoso momento eram as Festas do Colégio. Havia entusiasmo e euforia na preparação e apresentação das mais variadas representações.
4 – Finalmente, o histórico documento, para mim, da indigitação e convite para vir para o Colégio. Já lá vão 50 anos.
Com toda a amizade um grande abraço, extensivo ao marido.
fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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