Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-08-2009

SECÇÃO: Recordar é viver

Cabeceiras de Basto na obra de Camilo Castelo Branco (Conclusão)

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O FILHO NATURAL

De Camilo Castelo Branco
Com a devida vénia

Alugou e mobilou casa em Lisboa. Tomásia não mostrava desejo de voltar ao Minho. Passeavam em carruagem. A mãe gostava do arvoredo do Campo Grande. Lembrava-lhe Agilde, os castanheiros seculares da quinta de Vasco, as avenidas fechadas de álamos. Também o via a ele, no rosto do filho, quanto pode semelhar-se um moço alegre e saudável a outro de olhos mortiços orlados de manchas azuis que davam relevo aos ossos. E afastava-se de Álvaro, a fim de embeber as lágrimas.
Um dia desceram a pé a travessa dos Carros. Álvaro, no largo de Andaluz, parou defronte de um palácio. Reconhecera o pátio da casa em que vira o pai. Lá estava um coupé à porta, como onze anos antes. Estremeceu. Ia ver, segunda vez, o pai. Passados minutos, viu entrar no trem um homem baixo, sobre o redondo, com óculos de ouro, e duas grossas cadeias no colete de veludo azul-ferrete. A mãe sentara-se em um banco assombrado por uma árvore enfezada, que a Flora fantasiosa dos lisboetas chama o jardim de Andaluz.
– Não morará ele aqui já? – pensou Álvaro Afonso.
O sujeito dos óculos disse ao cocheiro:
– Vamos em casa do sr. Visconde de Gandarinha, hem? E passe você no Chiado onde comprei o guarda-lama e pede ele, hem?
Era língua de brasileiro, sem dúvida nenhuma.
Ficou à porta o guarda-portão em mangas de camisa e colete de listas amarelas e escarlates. Álvaro perguntou-lhe:
– Quem mora nesta casa?
– É o sr. comendador Barcelos.
– É dele o palácio?
– É muito dele: comprou-o ao visconde… visconde não sei de quê...
– De Agilde?
– Isso.
– Onde está esse visconde, sabe?
– O boleeiro que ali vai no nosso coupé foi dele. Acho que o visconde está lá para o Minho. Esta casa foi-lhe penhorada e vendida em praça. Deu cabo de três milhões o tal banabóia.
– Obrigado – disse Álvaro. Chamou a sege, e foi buscar a mãe pelo braço.
– Que estavas tu a conversar com aquele criado? Pareces-me mais pálido!
– Não, minha mãe; como me pareceu conhecer o homem que entrou no coupé, fui perguntar-lhe quem era.
Até aos dez anos, Álvaro lembrava-se de ter ouvido sua mãe falar-lhe de Vasco, em conversação com o abade; mas nem no Brasil nem em Lisboa lhe ouvira proferir tal nome, nem lhe ocasionava modo a que ele satisfizesse uma dolorosa curiosidade.
Tomásia lia o Jornal do Comércio e sob a epígrafe Má estrela viu a notícia da prisão de D. Telo Mascarenhas, por ter anavalhado um fadista na taberna do Dafundo. O localista acrescentava: Há fatalidades inexplicáveis. O Conde de Cabril, egrégio fidalgo dos arraiais legitimistas, teve três filhos. Um, D. Nuno, morreu há dois anos da marrada de um touro no Cartaxo; a filha, D. Leonor, que reinou nos salões do seu tempo, casou com um provinciano perdulário que esbanjou o seu e o alheio: escusamos nomeá-lo. O terceiro entrou hoje no Limoeiro, e ali esperará monção de passar à África entre matadores da sua têmpera. Os avós de D. Telo também iam para a África, mas na qualidade de governadores, como D. Fernão de Mascarenhas em 1480, D. Jorge Mascarenhas em 1622, e D. Fernando Mascarenhas em 1628.
Tomásia relia a notícia, com o rosto coberto de lágrimas.
– Que é, minha mãe? – perguntou Álvaro, curvando-se sobre o ombro dela.
– Aí tens, lê!... Deus é severo com todos os culpados... Aí verás o que o mundo pensa... de teu pai.
E, levantando-se, foi a soluçar para o seu quarto.
Passados instantes, Álvaro entrou serenamente na alcova, pôs a mão amoravelmente no ombro da mãe, e disse-lhe:
– Se houvesse um meio delicado de eu socorrer... meu pai!...
Ela apertou-o ao seio, beijou-lhe com arrebatamento as faces, e balbuciou:
– Abençoado sejas tu, meu anjo, meu adorado filho!... Vinga, vinga tua mãe
 
*
 Era abril.
O visconde de Agilde assistia aos trabalhos de jardinagem de sua filha Piedade. A viscondessa, sempre a tremer de frio com as mãos forradas em um regalo velho e esfumado, não saía do fogão. As outras meninas polcavam de chinelos em uma grande sala, cantarolando a música, muito esbofadas e vermelhas. Paravam às vezes abraçadas, e achavam-se ridículas.
O visconde e a filha viram apear de um garrano, na testada do portão, um sujeito mal entrajado.
– Quem é aquele homem? – perguntou Piedade.
O pai entalou a luneta no olho direito, e disse:
– Algum foreiro dos executados que vem pedir espera, talvez.
Aproximava-se o adventício com o velho chapéu de feltro na mão.
– Jesus! – exclamou Piedade – Que parecenças ele tem com o mano Heitor!...
– Quer alguma coisa? – perguntou Vasco Marramaque no tom usual e impertinente destes interrogatórios.
– Alguns minutos de atenção, se V. Ex.a mos concede.
– É sobre negócios de foros?
– Não, sr. visconde.
– Suba. Ficas, Piedade?,
– Fico, papá – e não desfitava os olhos do moço que tinha o rosto e o timbre de voz do mano Heitor.
O visconde subiu o escadós que levava à sala de espera. Álvaro seguia-o. Passou o fidalgo a uma segunda sala e, entrando primeiro, disse:
– Entre.
Quando entrou, já Piedade, pé ante pé, atravessava o salão, e cingia-se escutando.
– Escutar! Porquê? – pergunta a discreta e positiva leitora. – Pressentimento misterioso?
– Não, minha senhora; simplesmente curiosidade, e curiosidade na aldeia que é capaz de nos fazer andar, para encher tempo, a escutar por portas o que dizem os vizinhos.
Eis o que ela escutou:
– Devo dizer a V. Ex.a o meu nome: chamo-me Álvaro Afonso da Granja; sou filho de Tomásia Afonso, de Agilde.
O visconde não se descompôs, não esbugalhou os olhos, nem expediu os ahs aspirados dos grandes espantos.
– Bem... – disse ele. – É um pequeno que foi para o Brasil...
– Há onze anos. Tive então a honra de ser apresentado a V. Ex.a por Álvaro Ribeiro...
– Recordo-me.
– Fui infeliz. Uma doença pertinaz, resultante da constituição fraca, não me deixou trabalhar. Voltei pobre e doentíssimo. Disseram-me os médicos que talvez ares pátrios me restaurassem. Estou na pátria, mas careço de meios com que possa tratar-me. Venho, pois, pedir um favor a... meu pai... Não sei se V. Ex.a consente que eu lhe dê este nome...
– Não nego que sou seu pai – respondeu o visconde com fina e plácida naturalidade. – Que posso eu fazer em seu beneficio?
– Permitir-me que eu convalesça ou morra na sua companhia – volveu Álvaro sofreando o transporte de contentamento.
– Na minha companhia é impossível. Creio que sabe que sou casado e tenho filhos.
– Sei.
– Nesta casa não há a felicidade que chamam fortuna, nem sequer a outra que chamam paz. Sou infeliz, ter-lho-ão dito; infeliz em todos os sentidos. Desejo, porém, concorrer para o seu restabelecimento com os meios escassos de que disponho. Está em Braga?
– No Bom Jesus.
– Em hospedaria?
– Sim, senhor.
– Lembro-lhe que no hospital de S. Marcos há quartos particulares com excelentes médicos e óptimo tratamento. Eu escrevo a meu primo Magalhães, que é o provedor da Misericórdia, e responsabilizo-me pelo pagamento.
– Obrigado a V. Ex.a, mas não venço a repugnância que me fazem hospitais.
– Pois então, conserve-se onde está – volveu secamente o visconde. – Em todo o caso, se eu fizer pouco em seu auxílio, creia que não posso fazer mais.
Álvaro não sentia os raptos que nos dramas desenlaçam situações análogas. A verdade é pouco dramática. Ele queria desfigurar-se subitamente, manifestar-se rico, sem frases arredondadas de antemão.
Premeditara o que quer que fosse na hipótese de ser bem ou mal recebido; mas o gélido sossego com que o pai lhe falava impunha-lhe moderação no artifício dos arrebatamentos filiais. De mais a mais enganara-se, cuidando que o sangue dos filhos, na presença dos pais, golfava aquelas tempestades que os dramaturgos levantam nas cenas do reconhecimento. Sentia-se a falar com aquele pai como com qualquer outro visconde. Se Álvaro fosse crendeiro até à parvoíce, duvidaria se com efeito Vasco Pereira era seu progenitor, visto que a natureza não gritava.
O visconde, proferidas as últimas palavras, dera tento que era escutado. Suspeitou da viscondessa. Ergueu-se de ímpeto, e foi à porta. Viu Maria da Piedade.
– Escutei, escutei, papá; peço-lhe perdão – disse ela, entrando. – O meu papá disse ainda agora que era infeliz em todos os sentidos. Não me queixo; mas esqueceu-se de mim... Já me tem dito que eu sou a sua consciência, e a sua vontade... Pois então, se eu sou a sua vontade, deixe ficar o seu filho nesta casa...
– É impossível. Não conheces o génio de tua mãe?
– Não se diz à mãe quem este senhor é; diga-lhe que é filho de um seu caseiro da quinta de Arnosa. Conhece-se que está muito doente – dizia Piedade olhando compadecidamente para o irmão. – Quando o mano Heitor veio do Cruzeiro vinha assim. Precisa de ser tratado com desvelo. Eu encarrego-me disso, que sou sempre a enfermeira nesta casa.
Estas palavras comoveram Álvaro. Sentia agora o coração que estivera atrofiado face a face do pai. Não era a irmã: era a mulher formosa. Nestes conflitos é que a natureza costuma fazer prodígios. Borbulharam-lhe as lágrimas, e disse balbuciando:
– Minha senhora, a sua compaixão e a compaixão de minha mãe ser-me-iam um divino amparo, se eu pudesse viver.
– Tem mãe? – perguntou Maria da Piedade.
– Sim, tenho, minha senhora.
– Ah!, tem?! – e olhou para o pai, como a interrogar-lhe mudamente o coração. – E não pode estar com ela... porque são pobres?
Álvaro, abaixando os olhos, fez um gesto afirmativo.
– Deixe estar... – disse ela – tudo se há-de remediar... Está no Senhor do Monte, não está?
– Sim, minha senhora.
– Deixa-me lá ir amanhã, papá? É um passeio... Vou visitar o meu mano Álvaro... – E estendeu-lhe a mão que ele levou aos lábios. – Tem febre!... Que mão tão quente! Amanhã conversamos, sim?
– Mas que vais tu fazer ao Bom Jesus? – interveio o visconde. – Eu sei o que é; mas podes cumprir o teu desejo sem lá ir.
– Posso; mas se o papá consente, quero lá ir...
– Vai.
– Que caminho segue V. Ex.a? – perguntou Álvaro Afonso.
– Ora vossa excelência? «Que caminho segue a mana Piedade?» é como deve dizer. Vou daqui às primeiras capelas a cavalo na burrinha do caseiro; se me parece dou a volta a cavalo; senão subo as escadas.
– Eu virei esperá-la às primeiras capelas – tornou Álvaro.
– Pois sim; mas veja lá que se não fatigue.
Ouviu-se então no interior da casa uma voz áspera, gritando:
– Não se almoça hoje nesta casa? Onde está metido o sr. visconde e a Piedade?
– Lá vamos, mamã! – respondeu Maria.
Álvaro, apertando a mão do pai, beijou-lha, e disse-lhe:
– O ouro já não pode dar a felicidade a V. Ex.a. Quem tem esta filha, perdeu o direito a esperar outra riqueza.
 
*
 Quando Maria da Piedade avistou o pórtico do Santuário, viu parado um coupé com dois criados na almofada. Perguntou ao escudeiro se conhecia aquele trem.
– É de um brasileiro que está no Bom Jesus há oito dias. Ainda ontem à tarde o vi neste carro na Senhora-à-Branca. Parece-se muito com o mano de V. Ex.a.
– Com o mano Heitor?!
– Sim, minha senhora, principalmente quando veio de África há 6 anos.
Maria insensivelmente sofreou as rédeas do jumento, quedou-se a olhar para o escudeiro, e a dizer pausadamente:
– Parece-se com o mano Heitor?!
– É como um retrato. Há casos assim, minha senhora.
Ia perturbada.
A pouca distância do coupé, viu abrir-se a portinhola por dentro, e descer Álvaro.
Soltou uma exclamação, e retraiu-se dos braços que lhe ofereciam amparo para apear-se.
– Vejo que minha irmã somente aceita de bom rosto a mão dos seus irmãos pobremente vestidos! – dizia ele sorrindo. – Tem a bondade de continuar o seu passeio na minha sege?
Piedade desceu, aceitou-lhe o braço, e entrou na carruagem. Na perturbação com que entrara, deixou cair no tapete de zebelinas um lenço branco que continha cuidadosamente atado pelas pontas um voluminho pesado.
Álvaro levantou-o, e, como ela se desse pressa em o receber, negou-se a entregar- -lho.
– Que é isto? Saibamos, mana Piedade; o que aqui está parece-me que é a prova real do seu sobrenome – é a piedade fraternal – é uma esmola que vai aqui para um irmão doente e pobre, não é?...
– Eu pensei que... – balbuciou Maria.
– Pensou que já se não faziam romances, principalmente de homens ricos a fingirem-se pobres? Tem razão, mana Piedade, eu sou um desmentido a todos os costumes. Agora, dê-me licença que eu examine todas estas cousas que são minhas – e desatava as pontas do lenço.
– Não veja – acudiu ela –, não veja… peço-lhe...
– Não verei, mas guardo-as: isto é meu. Se tenho alguma riqueza que me enche a alma, é isto. Olhe, Piedade, olhe para mim... Não lhe parece que estou melhor? Veja o que é a felicidade! Não me dói o peito, não tenho febre, e até sinto – desculpe-me a prosaica franqueza –, sinto vontade de jantar... Tenho saúde! Quer que eu lhe diga tudo o que se vai formando na minha inteligência, na minha consciência e no meu coração? Entrei aqui há oito dias sem fé, achava tudo isto uma irrisão da desgraça. Sinto-me agora religioso. Preciso de orar... Hei-de ir ajoelhar-me diante da imagem de Jesus Cristo, há-de ir comigo, sim? Peço-lhe que me dê saúde, que me deixe viver para poder amá-la, minha querida irmã; peça-lho a chorar, como eu estou chorando...
E, soluçando, abafava o rosto no lenço que continha as jóias de Maria da Piedade.
Quando apearam no terraço do hotel da Boa Vista, uma senhora gravemente vestida de seda escura avizinhou-se da carruagem.
– É minha mãe – disse Álvaro; e, descendo, beijou-lhe a mão.
 
*
 As lágrimas da fé, se Deus não existisse, fariam comover o Nada.
Maria da Piedade e a mãe de Álvaro choraram prostradas à cruz de Jesus Cristo. Pediram a saúde do filho e do irmão, abraçadas aos pés do Redentor.
Álvaro restabeleceu-se.
Foi a felicidade que o salvou? Foi aquele amor de irmão, amor indefinível e santíssimo, que o distraiu da morte e o encheu das forças vitais que a ciência nega ao milagre e concede ao mistério?
Eu, espírito apoucado, tenho a audácia de me erguer até Deus, e não faço grande conta das ciências médicas quando me não dizem por que processo fisiológico se salvou o enfermo que elas me asseveraram moribundo.
Álvaro Afonso da Granja deu pelas jóias de Maria da Piedade as quintas do visconde de Agilde penhoradas pelo Banco Hipotecário. Piedade fez presente das quintas a seu pai, com a condição de a deixar viver seis meses de cada ano em Lisboa com seu mano Álvaro. Tomásia chama-lhe a sua filha; e D. Leonor de Mascarenhas, quando fala de Álvaro, chama-lhe o bastardo. O visconde de Agilde nunca mais viu a filha do boticário; mas, se um dia puder furtar-se à vigilância da esposa, há-de ir ajoelhar-lhe aos pés, a confessar a saudade, e aliviar o peso da vergonha e do remorso.
 
S. Miguel de Seide, 25 de Setembro de 1876.

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Por: Fernanda Carneiro

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