Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-08-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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Maria Moisés (II)

Josefa da Lage, a Josefa de Santo Aleixo, que agora estamos levando ao cemitério, era uma loura mocetona, de honra impoluta. Dela nada se dizia, não lhe era conhecido namorado, não frequentava festas nem romarias. Era filha única de João da Lage, lavrador de Santo Aleixo, devoto do seu pipo de aguardente, e de sua mulher Maria, que fora buscar a Santa Maria de Covas de Barroso. A mãe vigiava a honra da filha. Era cruel com as mulheres manchadas. “ No seu serviço não entrava jornaleira de má nota. Não se ajoelhava na igreja à beira de criatura de ruim vida. Dava-lhe esse direito haver sido filha humilde e esposa honrada do homem com quem a casaram, o João da Lage, que era vesgo, cambado, lanzudo e bêbado”.
Mas um dia António de Queirós e Meneses, Morgado da Casa de Cimo de Vila, pescador e caçador, mas também estudante de retórica em Coimbra, destinado a frade fidalgo em S. Vicente de Fora, magro e pálido, contando 22 anos, “encontrou Josefa da Lage, nos moutados da sua freguesia. Coraram ambos. Este rubor era o primeiro lampejo do incêndio. Depois, à volta de poucos dias, o fogo levou de assalto aquele combustível edifício de inocência, cheio de fluidos inflamáveis. A serra tinha penhascos, bosques, cavernas, insinuando o amor selvagem”. E amaram-se nas “matas chilreadas, nos desfiladeiros dos montes, no sinceiral da Ínsua, nas alcovas de ramagens que só eles e os rouxinóis conheciam nas margens do Tâmega”.
Nas férias da Páscoa, António de Queirós viu chorar Josefa. “Não eram lágrimas de amante magoada, nem de filha malquista de seus pais: eram lágrimas de mãe”.
O morgado não era o símbolo dos fidalgotes do seu tempo a quem as moçoilas das famílias humildes sucumbiam facilmente. “O cadete, cheio de bons propósitos, jurou-lhe que viria casar com ela, antes de cinco meses”. O pai do fidalguinho tinha três meses de vida afiançada por um cirurgião que detectara uma anasarca no velho fidalgo da Casa de Cimo de Vila. Mas o fidalgo velho “Cristóvão de Queirós desinchou ao contrário da Josefa da Lage […] O estudante, quando recebeu esta nova, (…) foi à terra ; (…) expôs ao vigário o estado melindroso da rapariga, e pediu-lhe que os recebesse”. O vigário denunciou ao velho fidalgo o propósito do fidalguinho. O embate entre os dois é violento. O pai propôs-lhe casamento com meninas da alta nobreza portuguesa. “- Meu pai – respondeu António com respeitosa serenidade - pode Vª. Sª. dispor da minha vida; mas do meu coração já eu dispuz. Ou hei-de casar com uma rapariga de baixa condição a quem prometi, ou não casarei nunca”. Naquele tempo os pais eram soberanos dos destinos dos filhos. “Ao outro dia, um mandado da regência ao Intendente Geral da Polícia ordenava a prisão do cadete de cavalaria António de Queirós e Meneses no Limoeiro”.

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“Josefa esperava confiada, mas aflita. Não sabia escrever, não tinha ninguém a quem pedir a esmola de uma carta. A mãe olhava para ela com atenção, mas sem desconfiança”. Estava doente. A mãe levou-a ao “cirurgião da terra” que “lhe receitava emplastros de ervas orjavão e semprónia, fervidas em um quartilho de aguardente”. Coitado do João da Lage quando descobriu as sangrias no pipo da aguardente. Ao quinto mês o cirurgião cortou as ervas e sussurrou à moça que ela não era a primeira, nem seria a última. Ainda levaram a rapariga à romaria do São Bartolomeu de Cavez, mas “o santinho tira o cão tinhoso, mas não desfaz os bruxedos”. […] “ Um dia porém, uma mulher não conhecida de Maria da Lage, muito velha e bem agraciada de semblante devoto, perguntou-lhe no adro, ao sair da missa, como estava a Josefa”. Após uns minutos de conversa, a velha insinuou que tinha poderes para curar a Josefa, pedindo-lhe que a deixasse ver a sós. Para acentuar os seus poderes mostrou à mãe da rapariga, “dependurados de um nagalho surrado e sebáceo as seguintes, entre outras cousas cabalísticas: duas figas de azeviche, duas pontas de vaca loira, um canudinho de latão como um agulheiro, outro como um dedal, o sino-saimão aberto em placa de chumbo. Dizia ela que os canudos continham ossos das sete irmãs santas naturais de Basto, de S. Cucufate de Braga, de S. Pascácio, bracarense também, e de S. Rosende, do Porto, cidade que ainda não deu outro santo, nem promete”. Pediu ainda à Maria da Lage que lhe não cortasse o ar.
A velha entrou no quarto da Josefa. Sussurrou-lhe ao ouvido que era caseira da Casa de Cimo de Vila e que o fidalguinho, que estava preso no Limoeiro, escrevera ao seu fiel amigo, filho do sargento-mor da Temporã, contando-lhe o estado da namorada e pedindo-lhe que a acolhesse em sua casa. Combinaram então “que fugisse quanto antes de casa e fosse ter à quinta do Enxertado, que é do Sr. Antoninho, e lá seria recolhida pelo feitor até ele vir de Lisboa”. A velha saiu, despedindo-se da senhora Maria, aconselhando-a a ir ver a filha: “Vá vê-la que já não parece a mesma; tem outro doairo na cara, está com uma pele de rosto que parece uma rosa, benza-a Deus!”
Maria da Lage sobe ao quarto da filha. E a história vai agora precipitar-se. “Josefa, com o pente na mão direita descaída e inerte, e a cabeça encostada à mão esquerda, sentia-se como cansada […] E que ela nesse momento sentira uma dor física, desconhecida, não forte, mas acompanhada de um calafrio. […] Quando entrou no quarto, viu a filha fora da cama, vestindo as saias numa agitação febril, e chamando Jesus com os dentes cerrados. […] E, como levasse as mãos aos quadris no ímpeto da dor aguda, a mãe quedou-se como estupefacta a olhar para ela. Neste instante fez-se-lhe luz na alma a um clarão infernal. Aqueles gritos e contorções recordaram-lhe que havia sido mãe: viu, como nunca vira, os sinais exteriores do crime nem sonhado; os modos suplicantes da filha confessaram o crime”.
Abreviemos. A mãe gritou desalmadamente. Chamou à filha todos os nomes possíveis. “E com as mãos na cabeça, partiu a fugir escada abaixo, dando gritos com a cabeça metida no feno, para os abafar”.
João da Lage chegou pouco depois. Não vê ninguém. “- Hoje não se come? Cá vou ver o que está na panela. […] E, de feito, extraindo do pote um naco de toucinho com que fez uma enorme e pingue sanduíche entre duas talhadas de broa, foi para a adega, sentou-se ao pé da cuba, e murmurou: Aguenta-te, João, que tua mãe não faz outro”.
É neste momento trágico que Josefa dá à luz. “Ninguém lhe ouviu os últimos gritos dela nem os primeiros vagidos da criança (…) A mãe era robusta; sentia-se esvaída”. Reagiu. Pegou no berço; “era o mesmo berço em que a mãe a criara, uma canastrinha de verga urdida tão densa e sólidamente, e com o fundo fasquiado de madeira tão impermeável que poderia estancar a água sem transudar. Um saiote de baeta dobrado envolvia a criança, deitada sobre a velha enxerga de serradura”. Procurou alguma coisa de comer na cozinha: “Não o queria para si; era para o converter no leite da sua filha. […] Ouviu os brados da mãe, cuja cama era na tulha, no mesmo plano da cozinha. Estremeceu, cuidando que fora apanhada; pegou da criança, e fugiu, lançando a saia de pano azul pela cabeça, e apertando o berço contra o peito”. Estava a uma légua da quinta do Enxertado. Precisava de atravessar o rio nas “poldras do Aleixo”. “Ao avistar as poldras que alvejavam puídas e resvaladiças ao leme d’água, teve vertigens, e disse entre si: “Eu vou morrer”. Pôs o berço à cabeça, esfregou os olhos turvos de pavor. […] Quis sentar-se em uma das poldras; e na precipitação em que o fez para não cair, escorregou ao rio. A água era pouca, e a queda de nenhum perigo; mas o berço caiu na veia da corrente. […] Quando ela estendeu o braço já não o alcançou”. Atirou-se ao rio para o tentar recuperar. Já não viu o berço. Desmaiou. Minutos depois estava moribunda nos braços do Luís Moleiro.
Quando, uma ou duas horas depois, Francisco Bragadas encontrou o berço, e salvou a criança, julgando que a mesma tivesse sido atirada ao Tâmega, ninguém a ligou à Josefa de Santo Aleixo.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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