Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 10-08-2009

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (108)

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O CURSO DO RIO PEIO

Parece não haver dúvida de que muita gente tem feito, e continua a fazer, alguma confusão quanto ao curso e à extensão do rio que se julga ser o mais importante de toda a rede hidrográfica do concelho de Cabeceiras de Basto.
Eu próprio já referi, por várias vezes, nestas páginas, que o Rio Peio é aquele curso de água que, vindo do limite mais a norte, um pouco de noroeste, do concelho, recebe todo o conjunto de afluentes, sendo o mais caudaloso a Ribeira de Rio Douro, e desagua no Tâmega.
Como diz o provérbio: «nunca é tarde para aprender» e, pela mesma razão, para se corrigir um erro: «mais vale tarde do que nunca». Ora, é exactamente isso que eu pretendo fazer, corrigir o meu erro, e alertar todos os meus leitores para que façam o mesmo. Tudo sem qualquer espécie de preconceito.
Há uns dois meses atrás, tive a honra integrar o júri de selecção dos trabalhos concorrentes ao IV Concurso Literário Infanto-Juvenil, do qual faziam parte o Professor Manuel Carneiro, o Senhor Luís Jales de Oliveira, e eu próprio, muito naturalmente.
Do regulamento do referido concurso, constava que todos os trabalhos deveriam fazer, pelo menos, uma alusão às terras, ou às vivências, do concelho de Cabeceiras de Basto, o que, muito naturalmente, levara a que alguns deles se referissem ao Rio Peio. E, na tentativa de o descreverem o melhor possível, concluíam que desaguava no Rio Tâmega.
No decurso da reunião final, quando se preparava a respectiva classificação, o Professor Carneiro alertou: «há uma coisa que não se deveria deixar passar em branco, é que o Rio Peio não desagua no Tâmega…».
«Não desagua no Tâmega?», interroguei eu, não conseguindo disfarçar alguma admiração.
«Não. O Rio Peio não chega ao Tâmega, a partir de um certo ponto, passa a ser o Rio de Ouro…»
Mantive o meu espanto, e continuei mesmo a não esconder alguma desconfiança quanto à tese do Professor. Até argumentei:
«Peço desculpa, mas, também eu, sempre tenho entendido que, desde a sua nascente, lá nos limites da freguesia de Bucos, até à confluência com o Rio Tâmega, se mantém com o nome de Rio Peio, aliás, até o tenho escrito em alguns textos, e ainda, reparando-se na geografia do espaço envolvente, dá a ideia de que, de facto, em termos orográficos, será mais lógico que se entenda como curso de água principal, exactamente aquele que vem desde Bucos até ao Tâmega, recebendo de todos os outros como seus afluentes».
«Não, basta consultar as cartas militares e verá que o nome é diferente».
«Sim, sim, é o que vou fazer, logo que me seja possível», respondi, dando a discussão por encerrada.
Assim fiz. Procurei um exemplar da carta hidrográfica do município e, a partir daí, avancei para a identificação de todos os rios, ribeiras e riachos. Logo verifiquei que, e de acordo com a carta hidrográfica, o Rio Peio termina na confluência que o une com a Ribeira de Rio Douro, que desce lá das encostas de Magusteiro e das Torrinheiras.
O local da confluência, onde termina o Rio Peio e começa o que efectivamente desagua no Tâmega, o Rio de Ouro, é no lugar da Fábrica, que fica entre o lugar dos Moinhos Novos, isto para quem segue o curso da Ribeira de Rio Douro, e o lugar das Cobras, isto para quem segue o curso do Rio Peio.
Mais, analisando o mapa da rede hidrográfica, verifica-se que o Rio Peio resulta da junção de duas ribeiras, a Ribeira de Figueiró e a Ribeira de Água Talhada. A primeira, a Ribeira de Figueiró, nasce no limite do lugar de Calvos da freguesia de Rossas, concelho de Vieira do Minho, com o lugar de Figueiró do Monte, da freguesia de Aboim, concelho de Fafe. Em minha opinião, esta ribeira nasce mesmo no concelho de Fafe. Porém, tentando tirar dúvidas com um habitante do lugar de Calvos, este assegurou-me que a sua nascente é, efectivamente, dentro dos limites de Calvos, Rossas, Vieira do Minho.
A segunda, a Ribeira de Água Talhada, desce desde as encostas do lugar de Carrazedo, freguesia de Bucos. Também, quanto a esta, tenho algumas dúvidas se não virá já dos lados do lugar de Agra, igualmente da freguesia de Rossas, Vieira do Minho. Não pretendo, contudo, comprometer-me a este respeito.
Aquelas duas ribeiras juntam-se, sensivelmente a meio da veiga de Casares e de Calvos, em forma de um T, e ali começa o Rio Peio, dando seguimento à haste superior esquerda daquele T. A partir dali, o nosso Rio Peio recebe, pela margem esquerda, as águas da Ribeira da Cangada, que desce desde as Trancadas das Torrinheiras, depois o Corgo do Gorgulhão, que vem das encostas da serra do Oural, e, pela margem direita, mesmo junto à Ponte da Ranha, recebe as águas da Ribeira de Painzela.
Termina, como já se referiu, na confluência com a Ribeira de Rio Douro, dando então origem ao Rio de Ouro, este sim, que é um dos grandes, não sei se será o maior, dos afluentes da margem direita do Rio Tâmega.
Eu, que tinha relatado a avistamento de uma enorme jibóia, com mais de sete metros e meio, nas margens do Rio Peio junto da barragem da Freita, tenho que me render às evidências, deixar aqui o meu pedido de desculpas e recomendar que façam favor de proceder à devida rectificação, onde se lê: “Rio Peio”, deve ler-se: “Rio de Ouro”. Não esquecendo, todavia, que a rectificação vale apenas para o curso que se inicia naquele ponto de confluência, no lugar da Fábrica, e vai até à Barca.
Ainda a propósito do verdadeiro nome do rio, agora corrigido, será que alguma vez terá havido ouro por ali?

Por: José Costa Oliveira

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