Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-07-2009

SECÇÃO: Opinião

“Crónicas de Todo o Tempo”

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Inexaurível manancial de rememoração evoca o Dr. António Augusto Leite Bastos

Trazem-me hoje aqui, a esta terra de Cabeceiras de Basto, três motivos muito fortes:
Saudar e cumprimentar o senhor Eng.º Joaquim Barreto, digníssimo Presidente deste Município; homenagear e lembrar com grande saudade, o meu melhor amigo de sempre, José Maria Barroso Martins Pacheco e finalmente, participar com o maior prazer, na festa do lançamento de mais um livro da minha amiga, Maria Fernanda Carneiro, para a qual tive a honra de ser convidado.
Há quarenta e oito anos atrás, - parece que foi ontem – vim trabalhar como empregado de balcão, para a extinta casa do senhor Abílio Gomes Pereira do Campo do Seco, pela mão do seu filho Valdemar Jorge e por indicação do meu amigo José Maria Barroso Martins Pacheco, que na altura trabalhava na Administração Florestal de Mondim de Basto.
Desde essa data, Cabeceiras de Basto, ficou a ser a minha segunda terra, como sempre digo em todas as ocasiões.
Passei aqui os melhores anos da minha vida e convivi com as melhores pessoas que conheci até hoje.
Tive a sorte de trabalhar com um magnífico grupo de colegas, com quem aprendi a arte de bem servir a clientela daquela casa, que desde o alto de Barroso, descia todas as segundas-feiras para se abastecerem, desde o calçado às fazendas, das rendas aos enxovais, das peças de pano de lençol, ao pano cru, e ao cotim para os alfaiates das aldeias trabalharem.
Nesse tempo não existia o rigor do cumprimento dos horários de trabalho.
Só se parava de trabalhar quando o último cliente fosse embora e devidamente atendido.
Por outro lado os meus patrões – verdade seja dita – nunca foram pressionados para aumentar os salários. De quando em vez, lá vinha o aumento e com as palavras sempre amigas: tomem lá, pelo trabalho a mais que realizaram.
“Ad Eternun”, ficarei sempre grato a todo o povo de Cabeceiras, que me acolheu como um filho.
Os convívios e as amizades que desfrutei de todos, jamais esquecerei.
Recordo, que por volta de 1 962 não existia nem teatro nem cinema em Cabeceiras.
A rapaziada nova e os mais adultos não tinham quaisquer tipo de diversões, com que pudessem contar.
Um belo dia, reuniu-se a rapaziada na esplanada do Café do Meio, e dessa reunião, saiu a ideia de se reformar o velho teatro que existia por baixo do edifício da Câmara Municipal.
Efectuamos um peditório pelo comércio local e não foi muito difícil arranjar o dinheiro suficiente para as obras, que começaram de imediato.
Ensaiamos uma pequena revista de sabor popular, com algumas críticas e cantares da região, que foi um verdadeiro êxito. Sábado e Domingo, casa cheia.
O pior, estava para vir depois.

GOSTARIA DE RECORDAR AQUI, COM GRANDE SAUDADE AQUELES QUE JÁ PARTIRAM E QUE EM VIDA ME TESTEMUNHARAM A MAIOR AMIZADE

Na segunda-feira logo pela manhã, o senhor Director do Colégio, foi à loja onde eu trabalhava para falar com o senhor Abílio, e dizer-lhe que o seu empregado – eu – num teatro de revista, tinha insultado a igreja e o Colégio de S. Miguel de Refojos, utilizando palavras pouco dignas, para serem ouvidas em público e muito menos numa terra, onde a educação e o respeito pela religião, foram sempre grande apanágio das gentes de Cabeceiras.
O senhor Abílio, que não tinha ido ao espectáculo, foi chamar os seus filhos e perguntar-lhes na frente do Senhor Abade, o que realmente se tinha passado e se confirmavam os insultos, que ali eram trazidos pelo senhor Director do Colégio.
Primeiro o “Toninho” e depois o “Valdemar”, afirmaram categoricamente, que assistiram a um magnífico espectáculo, onde toda a gente se riu e passou um óptimo serão.
Muito zangado, lá saiu o padre pela porta fora a resmungar, por não ter conseguido os seus intentos.
Por tudo isto a grande saudade e a minha grande amizade pelas gentes de Cabeceiras de Basto.
Gostaria de recordar aqui, aqueles que já partiram e que em vida, me testemunharam a maior amizade, a maior consideração e grande respeito. O meu patrão, senhor Abílio Gomes Pereira e o seu filho “Toninho”;o senhor Américo Bastos e o Elias do Abilinho do Talho; o Manel Barrosão e o senhor Aurélio da Cachada; o senhor Ilídio de Oliveira e o seu irmão senhor Hernâni de Oliveira; o senhor Fernando Ferreira e o senhor Teixeira do Quiosque; o senhor Gonçalves “aferidor”e o senhor Augusto Vasconcelos e o meu querido e saudoso José Maria Barroso Martins Pacheco, a quem devo a minha entrada em Cabeceiras de Basto. Que Deus a todos os guarde, esta a minha homenagem.
Felizmente, que ainda tenho com 71 anos, a possibilidade de agradecer a grande amizade que tantos Cabeceirenses me tributam.
O Valdemar, o Juiz Conselheiro Amílcar Salreta Pereira, o Manuel Carneiro e a sua esposa e minha querida amiga Maria Fernanda Carneiro, o Néca Gonçalves, o Dr. Júlio Hernâni, o Dr. Gaspar Miranda, o senhor Mário Campilho, a família Pacheco, o Zé Manel Marques, o Manuel Neiva, e o meu grande amigo Eng.º Joaquim Barreto.
Gostaria ainda de dizer ao povo de Cabeceiras, o seguinte:
Bem Aventurados os que tiveram a sorte de ter um filho a dirigir os seus destinos, como tem Cabeceiras de Basto.
A terra pacata, subdesenvolvida e monótona que conheci há quase 50 anos, transformou-se como por encanto, numa terra de progresso e modernidade, onde dá gosto viver.
Rasgaram-se novas e modernas avenidas, construíram-se novos e modernos edifícios, com destaque para o novo Palácio da Justiça, o novo mercado, e principalmente a chegada às portas da vila da auto-estrada, pólo aglutinador do progresso e do desenvolvimento desta região.
Parabéns aos gestores deste Município, principalmente ao senhor Eng.º Joaquim Barreto.
E a terminar, como diria alguém, os últimos são sempre os primeiros.
Também eu, como a Fernanda, comecei tarde a escrever.
Mesmo assim, tenho já cinco obras publicadas e brevemente, verão a luz do dia mais duas.
Isto é um bichinho, que só terminará, com a morte.
A Fernanda, um autêntica autodidata, tem uma apetência e um talento para a escrita, fora do comum.
Quando pego numa obra sua, e leio os primeiros parágrafos, todo me arrepio, porque sinto-me transportado ás aldeias por onde passei em terras de Cabeceiras, muitas décadas atrás.
A minuciosa descrição desses tempos, de vida, e do trabalho dos nossos ancestrais, é uma verdadeira bíblia.

Fernanda:
“O nosso tempo/ Não tem tempo/ P’ra muita coisa…
Mas ainda há tempo/ Coragem e algum talento/ P’ra muita coisa boa…!”
Obviamente que irei ler atentamente as suas “Crónicas de todo o tempo”.
Tenho a certeza, que será mais uma extraordinária lição para todos nós aprendermos.
Faço daqui um apelo à juventude Cabeceirense, para que leiam, leiam muito, porque ler é saber e quem não lê, corre o risco de nada poder saber.
E como disse o nosso amigo comum, Dr. António Augusto C. Leite Bastos, no prefácio deste seu livro, …”neste manancial inexaurível de rememorações, evoca ainda personalidades dos vários grupos sociais que, pelas suas qualidades morais, cívicas ou intelectuais, se impuseram à consideração da autora, distinguindo-as como figuras de referência…”
Parabéns Fernanda, continue a oferecer-nos a sua arte e o seu talento.

Por: José Teixeira da Silva

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