Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-06-2009

SECÇÃO: Opinião

A POBREZA NO PAÍS E NO MUNDO

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I
O Governo liderado por António Oliveira Salazar disse aos portugueses: “da guerra livro-vos, mas da fome não vos livro.”
Ocorreu no final do ano de 2008 o dia mundial da erradicação da pobreza. É constrangedor ver uns com tanto e outros, a sua maioria, sem nada. De facto, há continentes interiores onde a pobreza é tão grande que rapidamente atinge as características da fome. E não só na África como na Ásia ou na América Latina o fenómeno é preocupante. Na Europa, dentro e fora da União Europeia há situações nacionais verdadeiramente alarmantes.
Relativamente a este fenómeno, quando cheguei a este mundo encontrei a pobreza bem mais grave, tendo em conta a situação que vivemos hoje. Recuando no tempo, saliento que o meu pai nasceu em 1901 e a minha mãe em 1905, no lugar de Quintela, freguesia de S. Clemente, concelho de Celorico de Basto. Residiam nesta localidade quando surgiu a primeira guerra mundial a qual decorreu entre 1914 a 1918. Nesta altura, eles eram jovens e a referida localidade era local de passagem dos militares que andavam nesta guerra. O que eles sofreram em relação à fome e outros factores, não vou revelar uma única palavra porque é chocante. O leitor imagine uma guerra e tire as ilações que entender. Apenas vou referir que durante esta guerra havia uma família muito pobre e tinha a seu cargo um idoso e como não tinha que lhe dar de comer, pegaram nele e levaram-no a um monte, ali morreu e ali foi devorado pelos animais. Estou convicto da realidade desta versão dita pela minha mãe, porque a pobreza naquele tempo não tinha apoio de ninguém.
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Quando surgiu a segunda guerra mundial, que se a memória não me atraiçoa decorreu de 1939 a 1945, ainda eu não era nascido mas os meus pais desde muito novos começaram a trabalhar na agricultura. Nesta guerra Portugal não esteve directamente envolvido, mas o nosso país teve de auxiliar os países envolvidos com géneros alimentícios, razão pela qual o Governo de então, liderado por António Oliveira Salazar, disse aos portugueses: “da guerra livro-vos, mas da fome não vos livro.” Os meus pais, já falecidos, pronunciavam-se de vez em quando sobre a fome e a miséria que passaram durante esta guerra e as duas décadas seguintes, as quais me atingiram profundamente.
Já é do meu tempo em que a Casa Agrícola do concelho de Cabeceiras de Basto, mais conhecida pelo “grémio”, funcionava no edifício onde o Sr. Fernando Gonçalves Ferreira Herdeiros Lda tem a oficina de tractores. Diziam os meus pais que era neste edifício que faziam distribuição de alguns produtos alimentares racionados, através de senhas, cuja Instituição se intitulava Reguladora. A pobreza era enorme e como sempre trabalharam na agricultura, não tinham outro meio de subsistência, nem dinheiro para comprar algo para sua alimentação. Bem me lembro de nas décadas de 50 e 60 do século passado ser alimentado de pão e caldo, o qual apenas continha água e couves e a trabalhar de sol a sol. Não tenho vergonha de dizer que comi labrestos com feijão. Não tenho vergonha de dizer que comi caldo de labrestos. Apenas no Natal e na Páscoa é que a minha mãe matava um frango, mas repartido por uma família de dez ou mais pessoas. Dava tristeza pela situação que se vivia naquele tempo. Saliento ainda que era só nestas festas que me davam café e um trigo, porque infelizmente não dava para mais. Em suma: vivia-se numa angústia enorme, até para tomar banho tinha de recorrer ao rio e às levadas, mas não deixo de dizer que na estação de inverno era preciso muita coragem e espírito de sacrifício porque era arrepiante. A água para cozinhar era transportada em cântaros da fonte mais próxima. A fotografia documenta esse transporte num cântaro de madeira, efectuado pela Sr.ª. Emília de Oliveira que morava na casa da Devesa. Continua…

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