Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-06-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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Narcisa, Uma Mulher Fatal (II)

O “Narrador” começa assim a história de Narcisa:
“Eu, há quatro anos, estudava latim numa terra que prende Trás-os-Montes com o Minho. De lá é que trago estas recordações.”
O “Narrador”, vê-se bem, é o autor, Camilo. É ele que desfia as suas recordações de Ribeira de Pena, a terra que ligava Trás-os-Montes com o Minho. Era na Granja Velha, pequena povoação do concelho transmontano, onde morava o Pe. Manuel da Lixa, que lhe ensinava latim e francês.
É aí que o autor diz que conheceu Narcisa. É muito provável que esta rapariga tenha existido e é também muito provável que tenha sido uma das muitas paixões camilianas. Há críticos e biógrafos de Camilo que dizem que em “A Mulher Fatal” só basta mudar o nome das personagens.
Então que sejam as palavras de Camilo a contar a história:

“ Vi aí uma mulher chamada Narcisa, vivendo com um padre chamado Joaquim das Neves. Era linda, teria vinte e dois anos. Impressionava suavemente a quem lhe não sabia a vida.
O nome que lhe davam era a Vaca Loura, porque diziam ser filha doutra Vaca Loura, recoveira de Cavez.
Esta rapariga, quando tinha quinze anos, amou um estudante de clérigo e perdeu-se. O estudante, que era filho dum pequeno lavrador, deixou-a e foi para Braga continuar sua ordenação. Narcisa, criança de mais para aceitar como lição o primeiro infortúnio, buscou seu remédio descendo duns a outros abismos até parar no extremo, que tem a porta franca aos que passam.
Estava ela aqui no Porto, arrebanhada com as de sua condição, quando a visitou um padre. Este padre era Joaquim das Neves, àquele tempo abade na terra onde eu estudava. Ela reconheceu-o e chorou. Ele, que andava em busca da sua vítima, apertou-a ao seio e disse-lhe: «Eu vinha buscar-te, Narcisa. Tenho pão que repartir contigo. È tarde; mas faço o que posso. Há três anos que te procuro.»
Quando me lá contaram isto os menos inimigos do sacerdote, eu louvei o homem e não vi a batina.
Levou-a para a sua abadia; mas, passados meses, o abade foi expulso, e o padre foi suspenso das ordens como imoral e amancebado. Fora-lhe melhor tê-la deixado ir ao hospital. Seria cónego, daí a dias.
Levantaram-lhe a suspensão, repunham-no na abadia sob condicional de largar a manceba. Rejeitou o partido.
O seu património era quase fantástico. Faltava-lhe o mais urgente à vida.
Quando o conheci, era grande a pobreza do padre. Passava os dias no monte ou no rio a caçar ou a pescar. Trocou a batina por uma saia para Narcisa, e os breviários por umas botas para ele. Ensinava a ler os rapazinhos quando recolhiam os rebanhos e recebia de cada discípulo seis vinténs por mês.
Não sei se a Vaca Loura teve saudades do mister infame e farto que trocara pela miséria infamada em que vivia. Contava-se que não; que estava mudada; que não se confessava por não ter a quem e não ia à missa porque os fiéis se arredavam dela com trejeitos de nojo.
Na correnteza destas passagens, apareceu uma senhora e um sacerdote, ambos de avnçada idade, na aldeia de Cavez, indagando duma recoveira de alcunha a Vaca Loura.
Ainda vivia.
Pediram-lhe novas de uma exposta que ela tirara da roda de Braga vinte e dois anos antes. A recoveira lembrou-se de ter ouvido dizer à enfermeira da roda que a enjeitada levara sinal e fora encontrada envolta numa coberta de seda muito rica. As novas pedidas deram-lhe rebate de que a rapariga era procurada por seus pais. Não contou o viver de Narcisa, por interesse seu. Esperava recompensa ou dos pais, ou da filha, agradecida ao silêncio da ama.
E tomou a seu cargo ir demandá-la.
Ouvi dizer que a senhora, quando viu a moça, exclamara: «Não posso duvidar, que é o rosto da minha irmã», e se abraçara nela com muitas lágrimas e lhe revelara que era filha de uma dama já falecida e de um fidalgo moribundo que a mandava procurar pelo seu vigário.
Dizia-se mais que a já defunta mãe da exposta, sendo religiosa duma ordem nobre, dera à luz aquela menina e a entregara à piedade de sua irmã; a qual não podendo ocultá-la, a enviara à roda com um papel em que declarava o nome da menina, a fim de ser entregue quando outro papel idêntico na forma e nas palavras fosse apresentado. E ajuntava o meu padre-mestre que o fidalgo, anavalhado de remorsos no fim da vida, e solitário no seu sombrio palácio, chamara a irmã da freira e lhe perguntara se sua filha poderia milagrosamente aparecer. E, inconformado da previdência da condoída senhora, enviara o seu abade a colher informações na roda de Braga.
Narcisa acompanhou sua tia e padre Joaquim das Neves. Ficou. Pouco tempo depois, o padre desapareceu, e grassou logo a nova de que a Vaca Loura herdara uma das maiores casas do Alto Minho e chamara para si o padre que se morria de saudades dela. Concluindo:
O que eu não sei dizer-te é como a Vaca Loura se poetizou em Virgínia; mas é fácil calcular. A Igreja tem o sacramento da confirmação que permite estas mudanças.
Narcisa ou Virgínia, essa mulher tinha em sua vida uma face apenas maculada de nódoas vulgares. Caíra. Os atascadeiros por onde ela passou, até se amparar ao coração do homem que a engolfou no primeiro, eram nojosos; mas a caridade fechava olhos para não vê-los. O que eu vi e todos viram foi uma mulher resignada na miséria, aceitando as migalhas de quem a perdera aos quinze anos.
Se tu me contasses a história que ouviste, e concluísses louvando a lealdade e estima que Virgínia consagrava ao padre Joaquim das Neves, e tivesses em grande conta o coração regenerado dessa rica senhora, que o amor perdera, e a pobreza cancerara, e na pobreza se restaurara, ó meu amigo, também eu iria jurar que a luz do bom anjo da infância de Narcisa se não tinha apagado. Também eu, ao passar pela meretriz de há sete anos, me descobriria respeitoso como diante das Pórcias que a visitariam no Porto, se ela cá viesse, e desse partida semanal.
Desde, porém, que essa mulher, assaltada por um desejo honesto ou torpe, infama de ladrão o homem que se empobreceu por ampará-la; desde que ela, ou apaixonada ou a sangue-frio, te mentiu infamissimamente e quis cobrir-te de opóbrio, e pôr na tua cara a lama de sua vida… o nome que essa mulher tem… dá-lho tu.”

As lágrimas assomam aos olhos de Carlos Pereira. Mais um sonho que se desfaz. Mais uma lança num coração cheio de amor.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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