Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-06-2009

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (105)

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A CRISE

Eu tive um Professor na Faculdade de Economia da Universidade do Porto que, meio a brincar, agora estou ciente de que era mais a sério do que a brincar, dizia que a função dos Economistas se resumia, apenas e tão-somente, a uma coisa extremamente primária: encontrar explicações para os deslizes, para os descalabros, numa palavra, para as crises da economia. Das suas palavras concluía-se, com relativa facilidade, que os estudos económicos, os orçamentos, as estimativas, etc. eram peças que, no final de contas, não serviriam para coisa nenhuma.
Tudo, orçamentos, estimativas, mapas e quadros, era feito apenas pela simples razão de que havia sempre uma ou outra entidade que o exigia, para enformar este ou aquele dossier, mas que ninguém acreditava fosse no que fosse. O resultado final seria sempre uma incógnita. Aos Economistas caberia a tarefa de, sempre que o resultado viesse ao de cima, e apenas quando fosse negativo, desastroso e, sobretudo, alguém entendesse que era preciso descartar a sua responsabilidade, nessa altura sim, seriam chamados para explicar o sucedido.
Nunca, como hoje, as palavras do meu antigo professor, refiro-me ao Professor de Economia, tiveram tão elevado índice de actualidade. Lembro-me, com saudade, das palestras do Professor Agostinho da Silva. Este não era economista, era sim, filósofo e matemático. Ele teve, já nos últimos dias da sua vida, um programa de televisão que se intitulava de “conversas vadias”. Já não me recordo de quem era o interlocutor, ou o animador, de tais conversas vadias com o velho Professor. Mas lembro-me de que ele, por vezes, se referiu aos vícios, aos desvios, daquilo a que se chamava a nova economia, a economia do consumo, a economia do desregramento. Ele disse mesmo: «mais cedo do que aquilo que todos vocês pensam, virá uma hecatombe económica em que não sei se haverá muito dinheiro e muitíssimo poucas coisas para comprar com esse dinheiro, ou se haverá excesso de coisas à venda e falta de dinheiro para as adquirir. Eu não sei, mas esperem para ver!».
Estou, neste preciso instante, a imaginar uma conversa vadia entre o velho Professor Agostinho da Silva e um dos actuais entrevistadores de barra, o Senhor Mário Crespo, da SIC Notícias, por exemplo! O Professor, no seu estilo simples e linear diria, muito naturalmente, que a crise era necessária e pecava por tardia.
Eu tenho, em boa verdade, a mesmíssima opinião que julgo que o Professor Agostinho da Silva teria sobre o tema. Haverá alguém de bom senso, suficientemente sério, que não tenha desconfiado que a crise teria que aparecer? A crise não é de agora, já existe há muitos anos. Estava latente, oculta por detrás de um enormíssimo conjunto de obscuríssimos artifícios.
Ainda não se viu, nem ouviu, nenhum responsável, a nível mundial, muito menos a nível nacional, vir a público explicar as razões da actual crise. Agora verifico, com enorme tristeza minha, que os economistas nem para explicar as razões das crises servem. Neste ponto, o meu antigo Professor de Economia da Universidade do Porto, acabara também por falhar. De qualquer modo, e a nível nacional, seria assunto para o qual o Governador do Banco de Portugal deveria ter uma explicação, à sua medida, claro. Também não se lhe pode exigir muito, dado o seu parco vencimento, dezoito mil Euros por mês, mais as alcavalas, não deixa de ser uma miséria para um profissional com o perfil do Governador do Banco de Portugal. Aqueles que ganham quatrocentos e cinquenta Euros por mês é que ganham demais, como, há bem poucas semanas atrás, referia Manuela Ferreira Leite.
Ainda a propósito do vencimento do Governador do Banco de Portugal, um jornal da especialidade publicava, por um destes dias, que aquele, o vencimento do Senhor Governador, é o triplo do vencimento do Governador da Reserva Federal dos Estados Unidos da América. Comentem, por favor!
Continuando a falar da crise, a nível europeu deveríamos exigir uma explicação, em primeira instância ao Governador do Banco Central Europeu, e, depois, ao Conselho de Administração daquela instituição bancária que, se não estou enganado, é constituído pelo conjunto dos governadores de todos os bancos centrais da união. Por fim, deveriam vir a terreno os presidentes do Banco Mundial e do Fundo Monetário Internacional, explicar, ao mundo inteiro, porque foi que surgiu a crise.
Para os mais distraídos, eu quero apenas recordar que o preço do barril de petróleo era, em princípios de 2008, de um pouco mais ou menos quarenta dólares por barril, em meados de 2008 ultrapassou os cento e trinta dólares, e em princípios de 2009 voltou aos quarenta dólares. Quem manipulou os preços?
Houve um curto período de tempo em que se falou do subprime, estou certo de que a maior parte da população mundial não deverá fazer a mais pequena ideia do que será isso do subprime, eu próprio não sei. Tive, porém, o cuidado de imaginar o que poderia ser, e isso até me deu matéria para uma pequena parte de um dos meus anteriores textos que para aqui enviei. Têm sido feitas referências a produtos tóxicos (lembro que estou a falar de crise económica, não de qualquer crise da química!), a produtos de retorno absoluto, …, também não sei o que são!
Uma coisa, eu sei, e para isso chamo a atenção de todos aqueles que eventualmente venham a ler estas breves palavras: meditem no que a economia cresceu nos últimos trinta anos, comparem esse crescimento com aquele que se verificara nos anteriores trezentos anos, e imaginem o que seria a economia, quero dizer, o mundo, daqui a cem anos, se o ritmo de crescimento se mantivesse!?
A crise tinha que surgir. Pecou por tardia. E tardou porque houve um conjunto de factores que foram artificial e fraudulentamente manipulados. Parabéns às teses do Professor Agostinho da Silva! Obrigado Professor!

Por: José Costa Oliveira

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