Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-05-2009

SECÇÃO: Recordar é viver

Na rota da lavoura tradicional em Cabeceiras

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Não há dinheiro que pague
A filha do lavrador
Anda ao sol e anda à chuva
Está sempre na mesma cor

Ó lírio roxo do campo
Criado na primavera
Quem me dera saber, ó ai
A tua intenção qual era

Por onde os bois lavram
As fontes brotaram
Os prados reverdejaram
E os homens sorriram


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Foi assim no dia 1 de Maio, dia do trabalhador, que ao som de cantigas muito antigas, se iniciou pela segunda vez consecutiva a feitura duma lavoura à moda tradicional organizada pela EMUNIBASTO, E.M. e pela Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto com o apoio de alguns Espaços de Convívio e de Lazer e Juntas de freguesia do nosso concelho. A lavoura tradicional deste ano não desiludiu. Direi até que correu melhor, já que se cumpriram ao pormenor todos os passos que são dados nesta tarefa.
O dia começou logo pela manhã bem cedo ali, no Campo do Seco junto ao edifício dos Bombeiros Voluntários, onde os responsáveis pela organização se encarregaram de oferecer o “mata bicho” (aguardente com broa) a todos os participantes, assim como aos assistentes que por lá se foram juntando. As juntas dos bois puxavam os carros com as alfaias, as ervas cortadas e “penso” seco para dar aos animais nos intervalos dos trabalhos na execução destas tarefas tão tradicionais.
Como atrás referi, enquanto algumas pessoas iam mastigando a boroa regadinha com um copito - pequeno - de aguardente, outros foram–se organizando para desfilar em procissão, acompanhados por um grupo divertido que tocando concertinas, acordeões e rec-rec, eram seguidos pelos “Bombos da Arvorada” em direcção ao campo a ser lavrado, na já conhecida Quinta da Portela.
Mais uma vez o dono, o simpático senhor António Magusteiro, que infelizmente se encontrava um pouco doente, naquele dia não pode estar presente. Amigo de fazer boas acções, permitiu que se concretizasse mais uma vez esta interessante experiência já quase em desuso, pelo menos na utilização do gado para lavrar, arar e semear.
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Foi com grande alvoroço e muita alegria que todos os que se encontravam no campo meteram mãos à obra. Enquanto uns “espalhavam” o estrume pelo campo e fazendo o “cadabulho” pelas bermas, outros foram pondo as juntas de gado nos respectivos arados para dar início ao rasgo das “seitas”.
Depois foi-se arando a terra já lavrada para dar início à sementeira do milho e do feijão.
Enquanto os lavradores que nesse dia estavam presentes com os seus animais e utensílios iam laborando, os jovens da organização da Câmara Municipal, iam distribuindo um pequeno repasto (figos secos, azeitonas, tremoços e uns docitos pequenos) a que ninguém disse que não, acompanhados por bebidas como água e vinho tinto para mitigar o estômago e matar a sede para não perderem as forças.
E ninguém perdeu. Todos os trabalhos correram dentro da normalidade. Até vos digo que parecia que faziam estes trabalhos diariamente.
Em pleno campo as concertinas não pararam de tocar, para animar a malta, dando-lhes força para chegar até ao fim.
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Enquanto se davam os últimos retoques no campo e se compunha alguma seita mais saliente, permitindo que a grade pusesse a terra bem lisinha e a semeadora deslizasse na terra sem dificuldade, ali ao lado, num outro campo com relva, foi-se colocando nas mesas improvisadas, o magnífico repasto que iria ser distribuído por todos.
Mas ninguém comeu nas mesas. Nas lavouras não havia esses luxos de mesas para comer. Foram colocadas toalhas brancas compridas, no chão a todo o comprimento. Em cima colocou-se boroa muito boa, azeitonas, tremoços, pataniscas de bacalhau, pepino e cebola salgadas, bacalhau frito muito demolhadinho, febras e entrecosto grelhado. E sabem o que foi o acompanhamento destes magníficos petiscos? Um rico arroz de feijão amarelo, muito quentinho, regadinho com um tinto de fazer tirar o chapéu. Para os que podiam beber vinho, é claro.
Digo-vos que a comida chegou para os que participaram e também para os que assistiram à festa de cima da Ponte de Pé. Toda a gente comeu, bebeu e participou na cantoria que os concertineiros teimaram em fazer quase todo o dia.
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Ali ao lado, debaixo da sombra de umas macieiras, os animais descansavam e iam ruminando a erva que também foi merecida.
Em jeito de conclusão deixo os meus parabéns à organização, pelo serviço prestado e pela a atenção e cuidado demonstrado pela preservação da cultura e das tradições da nossa querida terra. Tudo tem feito para que a nossa identidade não se perca. Não posso deixar de realçar o papel determinante do Presidente da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto, homem conhecedor da vida agrícola, que nutre um grande orgulho por ter pertencido a uma geração ligada à terra, cuja vida nem sempre foi fácil.
Deixo também os parabéns a todos aqueles que aderiram a esta iniciativa e de boa vontade contribuíram para que a realização desta lavoura à moda antiga fosse, uma vez mais, bem sucedida.
Bem hajam!

fernandacarneiro52@hotmail.com


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Por: Fernanda Carneiro

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