Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-05-2009

SECÇÃO: Opinião

O PADRE BARRETO, UM SÍMBOLO INESQUECÍVEL

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Os habitantes Cabeceirenses sofreram um choque arrepiante com a sua morte e o modo como a mesma ocorreu, razão pela qual as saudades ficaram e ficarão na mente daqueles que o conheceram.
Ainda hoje me vem à memória a sua figura e já lá vão três décadas. Homem alto, forte, sorridente, sempre com a sua batina vestida e amigo de ajudar os pobres. Foi ele que me baptizou, foi ele que me ensinou a doutrina, auxiliado pela monitora senhora D. Marquinhas, foi a ele que disse a doutrina para a minha primeira comunhão. Não fiz a comunhão solene porque naquele tempo só a fazia quem possuísse recursos monetários para a fazer. O padre Barreto ministrava a doutrina aos domingos na igreja, das dez às onze horas e usava uma cana com enorme comprimento para educar as crianças que fossem mal comportadas. Quando chegava a hora de ir celebrar a missa das 11 horas, ficava a D. Marquinhas com a referida cana ao longo do corredor frente ao altar-mor, a pôr na ordem os meninos mais desordeiros.
Era um homem disciplinado e disciplinador. Como a maioria dos Cabeceirenses sabem, a procissão de S. Miguel de Refojos saía da igreja matriz e percorria o campo do seco ou campo da feira, local porque é mais conhecido, onde se encontravam todos as pistas de diversão com imenso ruído, como hoje efectivamente assim continua. O padre Barreto vinha à frente a cerca de 30 metros de distância da procissão, levando uma fustiga na mão e conforme ele se ia aproximando das pistas em referência tudo ficava num silêncio absoluto, até a procissão deixar este local.
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O nome do padre Barreto é constantemente lembrado, porque ele tinha autoridade e sabia impô-la. Quando ia almoçar, por volta do meio-dia, cumprimentava qualquer paroquiano sem qualquer preconceito, mas as crianças tinham que lhe beijar a mão. Curiosamente naquele tempo beijava-se a mão aos avós, tios e padrinhos. Reportando-me a esta última parte, saliento que o meu padrinho é o meu irmão José Teixeira de Sousa, o qual tem a sua residência na cidade de Guimarães. Quando falava com ele sempre o tratei por você. Certo dia há cerca de 5 anos, estávamos a conversar e ele disse-me: “a partir de hoje tratas-me por tu, tratar por você já não se usa”, pois segui o que ele me disse, mas conheço pessoas da minha geração e até mais novas que continuam a chamar padrinho ou madrinha aos irmãos mais velhos e a tratá-los por você. Em suma havia muito respeito.
Voltando ao saudoso padre Barreto, tinha uma personalidade que dificilmente se esquecerá, era um homem bom e com um coração enorme, apesar de na igreja querer tudo com muita ordem.
O padre Barreto morava na sua modesta residência no lugar da Raposeira na companhia de duas irmãs, quando a morte fulminante o apanhou. Os habitantes Cabeceirenses sofreram um choque arrepiante com a sua morte e o modo como a mesma ocorreu, por isso ainda hoje o recordam e dizem: “nunca vi um funeral tão emocionante”, razão pela qual as saudades ficaram e ficarão na mente daqueles que o conheceram.
O padre Barreto, desempenhava as funções de Arcipreste, foi e continua a ser um símbolo para os cristãos da freguesia de Refojos do concelho de Cabeceiras de Basto. Hoje, em sua memória e recordação, podemos ver o seu nome atribuído à praça Arcipreste Francisco Xavier de Almeida Barreto, junto ao Mercado Municipal da freguesia e concelho acima citados.

Por: Manuel Sousa

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