Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-05-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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A Romaria de S. Bartolomeu de Cavez (II)

“À meia-noite entramos no arraial. Já o tiroteio tinha rompido das duas margens do Tâmega. As balas assoviavam nas ramagens da carvalheira onde se ajuntavam os caudilhos em conselho de guerra. Nenhum romeiro pacífico já se metia à ponte. Os atrevidos agrupavam-se nas extremidades: os da esquerda esperavam a ronda de Cerva, os da direita a de Mondim. Na ponte passeavam uns doze soldados de infantaria, dos de Guimarães; pobres homens de quem os contendores não faziam caso nem conta. Os tiros, pelo arder da escorva, viram-se romper dos altos das matas fronteiras. A tropa estacionara na ponte, encarregada de evitar o choque das duas rondas inimigas”.
Mas não eram doze bisonhos soldados que poderiam reprimir o ódio de muitas décadas. Assim, alguns minutos passados, a luta começou.
“A ronda de Cerva avançava da parte dalém; a de Mondim, recebendo aquele movimento como sinal de batalha, avançou também. Ribombavam os zabumbas de ambos os lados e guinchavam as requintas por sobre a vozearia da tropa, que se esforçava em evitar o encontro, de baioneta calada.
O alarido das mulheres e do rapazio de um e de outro lado retinia nos ecos das margens penhascosas do Tâmega. As fuziladas relampagueavam entre os matagais. A vertigem do terror estendera-se a todo o arraial. […] Ouvi o retintim das baionetas sacudidas dos seus engastes pelos paus certeiros dos barrosãos, bandeados na hoste de Mondim. Divisei os doze soldados espremidos entre as multidões inimigas. De repente, os de Cerva fizeram pé atrás; os de Mondim também. “
Que acontecera? Milagre de São Bartolomeu? Ou seria milagre da Isabel do Reguengo? Sim, fora ela que, “no afogo da briga (…) se lançara entre as vanguardas dos combatentes e bradara: - “Matem-me primeiro a mim!” E, dito isto, cruzara os braços.”
Dá-se uma trégua. Vítor de Mondim tinha-a reconhecido e, como ainda a amava, mandou os seus combatentes retirar. Por seu lado, “o Lobo de Cerva, cobrindo-a com o seu pau argolado de cobre, exclamara: “Olhai, que é minha noiva!”.
Está o problema resolvido?
No princípio da tarde os de Mondim mandam parlamentares propondo a passagem livre das rondas de parte a parte. Uns iriam à fonte santa, outros à capela do Santo. Mas do lado dos de Cerva está o morgado José Pacheco de Andrade, completamente ébrio, a cabeça partida empanada que tartamudeou:
“- Não há convenções. O mundo acaba-se aqui hoje!
Os parlamentários foram repetir com gravidade as palavras do ébrio. Rompeu de lá temerosa grita, e logo o tiroteio.
Lobo depôs o varapou e pegou da sua clavina de dois canos. Isabel segurou-o pelos alamares de prata da jaqueta, rogando-lhe que se aquietasse. O bravo, que seguia a máxima do “morra o homem e fique fama”, sacudiu de si a moça e bradou:
- Rapazes!, à ponte”.
Do outro lado avançaram os de Mondim, o Vítor à frente. Chamou o João Lobo de Cerva: “- Se és homem, sai sozinho, que eu também saio ao meio da ponte.
“- Nunca o diabo te mostrou homem mais homem. Aí vou”.
As sortes estão lançadas. Isabel do Reguengo já não pode repetir o milagre. João Lobo é homem de mais e repele-a: “- Que diabo me pedes tu, mulher? Queres que eu caia aqui morto de vergonha?”
O destino está traçado.
Os dois paladinos param a vinte passos um do outro, com as clavinas aperradas.
“- Não há-de ser tua nem minha! – disse Vítor.
- Tua, por Deus te juro que não será! – respondeu Lobo.
E, a um tempo, desfecharam; e, a um tempo, bateram em terra os dois moribundos arquejantes.
Que horror de grita restrugiu então! Que frenesi de espedaçarem-se conglobou em feroz abraço os dois campos! Era um segundo duelo de homem para homem com cem braços. Os de Mondim levantaram o cadáver de Vítor e defenderam-no; os de Cerva, cegos de furial vingança, não viram que os outros remessavam ao Tâmega o cadáver de João Lobo”.
E Isabel? Caíra fulminada. Passaram por cima dela os seus parentes e amigos a vingarem-lhe o noivo. É Camilo que a descobre desmaiada no chão. Pede ajuda para que a tirem da ponte: “Assim se fez. Deram-lhe um encosto sobre as caniçadas de um carro de fruta e rodearam-na algumas mulheres temerosas, que, pouco depois, a desampararam, fugindo ao silvo das balas”.
Está a nascer, com um sol esplendoroso, o dia 24 de Agosto de 1842, dia do mártir S. Bartolomeu. Camilo procura Isabel. Disseram-lhe que a tinham visto fugir como uma doida. Os de Cerva batiam o Tâmega procurando o cadáver de João Lobo que não aparecia. O arraial fica abandonado às correrias dos valentes e dos ébrios. O sol agora cai a prumo sobre uma rapariga que está sentada na margem esquerda do Tâmega, sobre uma rocha que se debruça a cavaleiras da corrente. É a Isabel do Reguengo. Que espera ela? “Espera o resvalar do cadáver do noivo no rolheiro donde não descrava os olhos pávidos? O sol inclina já ao poente, e ela cerra as pálpebras, e cobre-as com as mãos, baixando a cabeça ao regaço”.
Um outro desenlace se aproxima.
“A rocha em que Isabel está é puída e resvaladiça (…) Isabel abordara mais à aresta do penedo. (…) A moça pôs as mãos em oração; e, depois, tapando os olhos, despenhou-se!
Antes de baquear-se na refravente cachoeira da bacia, já tinha abolado o crânio num ângulo da rocha.Os pastores esperaram o cadáver num remanso de água e ali o velaram, durante a noite, aguardando que a justiça fosse levantá-lo.
Como Ela o Amava!

***

A romaria de S. Bartolomeu de Cavez não mais se perdeu na memória de Camilo. No ano seguinte voltou à mesma romaria. Um dia depois do regresso a casa nascia em Friume a sua filha Rosa. Mas Camilo não mais voltou a Cavez. Umas semanas depois do nascimento da filhinha, Camilo vai instalar-se no Porto. Outras mulheres lhe surgem na vida de boémio que passa a ter. Tenta o jornalismo. Tenta o sacerdócio. Começa a escrever. Em Friume, a mulher Joaquina Pereira falece no dia 25 de Setembro de 1847. Meio ano depois, a 10 de Março, é Rosa que tem igual destino. Nem sabemos se Camilo teve ou não conhecimento da morte da mulher e da filha. Sabemos, sim, que não esteve nos seus funerais. Andava de cabeça perdida pelas ruas do Porto, já congeminando um futuro suicídio. Só alguns anos depois pernoitou uns dias nas casas de uns fidalgos de Celorico e de Mondim, onde se aboletou quando procurava elementos para o seu “Maria da Fonte”, de que um dia falaremos.
Camilo não voltou à Ponte de Cavez. Mas não a esqueceu e vai recordá-la em muitos escritos. Da freguesia de Cavez vai Camilo buscar a Vaca-Loura, uma das cinco mulheres fatais que Camilo arranjou para um galã daqueles tempos, Carlos Pereira, um moço alegre, nutrido e robusto, educado no Colégio da Formiga. Vamos vê-la como Virgínia de Meneses Picaluga de las Cuencas, ou melhor, Narcisa, filha duma outra Vaca-loura, recoveira de Cavez.
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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