Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 27-04-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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Camilo na Romaria de S. Bartolomeu de Cavez (I)

Por um feliz acaso sabemos onde Camilo passou a noite de 23 para 24 de Agosto de 1842. É ele o próprio que o afirma quando introduz o conto intitulado “Como Ela O Amava” que deu à luz no volume “Noites de Lamego”, “abstruso título” para uma miscelânea de dez composições. Está Camilo, nem mais nem menos, na Ponte de Cavez, “ponte, sobre o Tâmega, (que) estrema pelo norte as duas províncias do Minho e Trás-os Montes, (onde) celebra-se a festa de S. Bartolomeu, santo gravemente infesto a Satanás”. Não sabemos se é a primeira vez que Camilo transpõe a célere ponte, mas o certo é que em outros livros da sua imensa obra romanesca a lembrará. É provável que já por ali tivesse passado, pois que desde o ano anterior que vivia em Friume, lugarzinho mesmo à beira das águas do Tâmega e que pertencia à freguesia de Salvador de Ribeira de Pena.
Camilo tem nesta altura 17 anos. Já é casado mas não no diz no conto se foi ou não acompanhado de sua mulher, Joaquina Pereira de França, um ano mais nova que ele. Tinham-se consorciado um ano antes, no dia 18 de Agosto (1841) na igreja de Salvador, recentemente construída e inaugurada à custa de um ribeirapenense que enriquecera no Brasil.
É Camilo que nos diz a razão porque ali está:
“Na aldeia (Granja Velha), onde eu estudava latim, correu a nova de se terem desafiado para a romagem de S. Bartolomeu os valentes de dois concelhos inimigos, desde muito enrixados e aprazados para ali. (…) Por nove horas da noite do dia 23, saímos em malta, caminho da ponte de Caves, uma légua distante. Por volta de onze horas, fizemos alta numa aldeia chamada Arosa, convizinha dos montados por onde se estendia o arraial. Ali reuniu-se connosco uma estúrdia que vinha dos lados de Cerva, e nesta os mais grandes brigões da comarca, homicidas igualmente impunes que arrogantes, e espécie de barões feudais, a cujas barbacãs não ousavam chegar as justiças del-rei”.
É nesta companhia que vem Camilo que todos conhecem bem. Ele trabalhara algum tempo no cartório do notário Mesquita Chaves em Ribeira de Pena, casara com a filha do único merceeiro de Friume, declamava versos picantes e estudava agora latim e francês com o Pe. Manuel da Lixa na Granja Velha. Sabia-se que era da família dos Brocas, de Vila Real, primo da Maria do Loreto, que casara em Friume com um abastado proprietário, Francisco José Ribeiro Moreira, de quem se dizia que era “senhor de meio sol e meia lua em Friume”.
Camilo confessa o aquecimento do seu ânimo belicoso ao ter conhecimento que “um morgado, meu vizinho, de nome José Pacheco de Andrade, filho do antigo capitão-mor de Basto, Serafim dos Anjos Pacheco de Andrade, oito dias antes mandara demolhar em poças um braçado de paus de carvalho, com o fim de lhes dar elastério e cingirem-se melhor com as costas das vítimas”.
A ronda de Cerva tem como maioral o João Lobo. Espera-se a ronda de Mondim, de quem o Victor é o maioral. Mas porquê esta rixa? Ora, já vem de longe a briga. Não havia romaria na Ponte de Cavez que não tivesse pancadaria de criar bicho. Uns gritavam: “vinde à fonte”. Do outro lado regougavam: “Vinde ao Santo”. A fonte continuava a deixar correr a sua água cheirosa a enxofre e a estátua do santo batia na cabeça das mulheres endiabradas: “Eram desempenadas raparigas de Barroso, escarlates e possantes como as matriarcas do género humano; pulsos de ferro, olhos coriscantes, e formas tão esculturais da beleza antiga, que eu fiquei cismado se o Demónio desengraça com as raças adelgaçadas e vai às montanhas procurar corpos com capacidade de o receberem”.
Mas naquele ano havia uma outra razão a ajudar a atiçar esta luta sem tréguas, de tal modo que a autoridade destacara para a ponte um piquete de doze soldados, armados de espingardas e baionetas, mandados pelo Regimento de Guimarães. Essa razão é uma mulher, que vinha na ronda de Cerva:
“A cantadeira da estúrdia era uma rapariga de dezoito anos, sécia e talhada a primor, carregada de ouro, mas ainda assim leve como uma arféloa, saltando quando não cantava, linda como as dríadas dos córregos, alegre como a felicidade das serras. Oh!, que moça! Que legião de tentadores demónios ia nela!”.
É a Isabelinha do Reguengo, a noiva prometida do João Lobo. Mas, … mas… a Isabelinha tinha namorado o Vítor de Mondim. Este não a esquecera. “Dois anos a vê-la todos os dias santificados, e andar duas léguas para vê-la, duas léguas tão queridas na ida, e outras duas tão longas e saudosas na volta!...”
E era ela que cantava assim:

“Quem quiser cantar comigo,
Há-de ter no peito amores;
Amam as aves cantando
Entre arvoredos e flores.”

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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