Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 27-04-2009

SECÇÃO: Opinião

ARTES E OFÍCIOS

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Já falamos anteriormente de algumas profissões já extintas e de outras em fase de extinção tendo sempre em mente levar ao conhecimento das gerações mais recentes a dureza da vida que os seus pais e avós suportaram para que eles tenham agora uma vida mais desafogada e com outro grau de dignidade.

Os carpinteiros

Ser carpinteiro em tempos não mais distantes, era ter uma profissão razoável se comparada a outras muito mais duras embora em termos remuneratórios fosse mais ou menos a mesma coisa. A profissão é muito antiga se tivermos em conta que São José o esposo de Maria era carpinteiro. Muitas das ferramentas usadas antigamente por esses artistas não diferem muito das de agora que são apenas mais aperfeiçoadas e eclécticas. Obviamente que me refiro ao serrote, plaina, guerlopa, formões, serra, enchó, Guilherme, compaço e outras mais.
O carpinteiro executava uma infinidade de trabalhos, desde mesas, cadeiras, escanos, mosquiteiros, louceiros, galheiros, salgadeiras amassadeiras, pás do forno, pipas, carros de bois e até escadas para os trabalhos de campo.Um dos seus principais trabalhos consistia a preparar o travejamento para suportar o telhado das casas e posteriormente o soalho, portas e janelas. Andavam de terra em terra com as ferramentas às costas e a seira dos pregos na mão.
Em Cavez havia bons carpinteiros uns já falecidos e outros na reforma e entre eles destaco o Benfica, o Manuel Baquetas, e o Joaquim Toucinheiro que deixaram os filhos como continuadores das suas profissões.
Ainda há por aí muitos carpinteiros ao contrário das outras profissões, só que para os carpinteiros modernos uns viraram marceneiros e os outros têm a vida facilitada devido ás novas tecnologias.

Os Funileiros

A meu ver a palavra funileiro refere-se a um fazedor de funis. Acontece que esses profissionais faziam funis sim, mas também muitas outras peças, como: cântaros, regadores, candeias, botijas, lamparinas, lanternas, medidas para líquidos, balde, etc.Hoje quem passar na rua em Arco de Baúlhe ainda pode ver o Sr.Pacheco na sua pequena oficina a trabalhar em latoaria tendo uma montra voltada para a rua onde expõe lindas peças decorativas em chapa zincada com retoque final pintadinhas de cor azul. Agostinho Moura foi o único funileiro que conheci em Cavez. Dizia-se que foi criado pelo meu avô Manuel Joaquim porque a sua mãe (desconhecida) o havia deixado na roda ou exposto á porta do referido meu avô.
Embora já falecidos, muitos de nós certamente ainda se lembram dos funileiros de Refojos. O Sr. Luziário, o seu filho António e ainda o Sr. Manuel Oliveira.
Já na recta final das suas vidas a sua arte deixou de ter a expressão doutros tempos porque entretanto chegaram os famigerados plásticos que tomaram conta do mercado que outrora foi unicamente dos latoeiros.

Os Sapateiros

Esta profissão foi uma das que levou uma grande reviravolta, porque os sapateiros das pequeninas oficinas quase que desapareceram totalmente. Agora pomposamente chamam-se mecânicos rápidos e estão instalados nos grandes centros comerciais e não só. Antigamente os sapateiros faziam também de tamamqueiros porque os socos as chancas e as tamamquinhas era o calçado dos pobres. Felizmente ainda temos entre nós quem trabalhe à moda antiga, obviamente que me refiro ao Sr. Zé do Outeiro e ao seu filho que continuam a ter bastante que fazer precisamente porque o seu trabalho é feito manualmente, incluindo o bonito calçado de pau que agora é mais exibido nos palcos pelos ranchos folclóricos do que usado no dia-a-dia como calçado vulgar.
Antes de terminar, ainda pretendo falar de uma arte que foi antigamente uma das mais belas profissões.

Os Alfaiates

Era realmente uma profissão elitista a arte de trabalhar as casimiras da Covilhã. Cabeceiras foi terra de grandes artistas, mas aos poucos todos foram desaparecendo com a chegada do pronto a vestir. Ainda conheci os dois últimos alfaiates de Cavez. O do Esturrado que teve um rancho de filhos e o Maurício que era casado com a minha prima Ester.
O Maurício era um homem de grande carácter e lá ia levando a vida de forma honrada, mas o destino por vezes é-nos adverso e assim aconteceu com o pobre alfaiate. A Ester como qualquer ser humano teve um dia um momento de fraqueza e cometeu adultério e desse infiel ou amor proibido nasce uma menina a quem foi posto o nome de Maria. Foi grande o falatório na aldeia e houve até quem deixasse à porta do Maurício um par de cornos.
Envergonhado e cheio de desgosto abala para o Brasil levando consigo os filhos do casal e também a infiel esposa e a inocente Maria, dando assim a todos uma grande lição de sentimentalismo por não ser ele a atirar a primeira pedra á pecadora Ester.
Fixou residência numa qualquer favela do Rio de Janeiro e por lá morreu sem nunca ter voltado a Portugal.

Por: Alexandre Teixeira

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