Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 06-04-2009

SECÇÃO: Recordar é viver

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Cabeceiras de Basto na obra de Camilo Castelo Branco

Caros leitores, certamente vos apercebestes da dimensão da tragédia que se abateu sobre o infeliz Macário que era o boticário de Celorico de Basto.
Tomásia ao ouvir os brados desesperados do pai procurando-a pela casa e quintal, ficou apavorada e agarrou-se a Vasco Marramaque suplicando que a não a abandonasse.
Aí o Vasco num assomo de amor e cavalheirismo mostrou o brio dos Marramaques e corajosamente deu o braço a Tomásia e levou-a consigo.
Realmente o Vasco mostrou na altura que era um homem de honra e até se sentia orgulhoso do seu feito como se não fosse causador também da desonra daquela mulher, mas um herói que defende uma mulher mesmo de condição inferior e da qual não tinha de prestar contas a ninguém.
Estais a ver as diferenças abismais dos valores da honra dos séculos passados e dos de hoje.
Com esta desgraça que se lhe abateu em casa o pobre Macário fez um luto completo. Não abriu a botica nem deixou que se abrissem as janelas. Chorou por ela como se ela tivesse morrido. E mais, vestiu luto carregado. Tanto é que até de terra mudou, saindo de Celorico de Basto para administrar outra farmácia noutro local perto.
Este “descarrilar” da Tomásia com o Vasco Marramaque iria mudar totalmente a vida do pai e iria dar início a uma vida de amargura e de profundas desilusões. Certamente mais lhe teria valido que tivesse coragem de enfrentar o pai e ter ficado na sua casa, mesmo contando com o seu desprezo.
O “acto heróico” do Vasco naquele dia fatídico foi sol de pouca dura e ele depressa se cansou de viver aquela vidinha simples que não era para o feitio dele. Ele suspirava por altos voos na política e o amor de Tomásia estava a ser um estorvo aos seus anseios.
Pobre Tomásia que além de apaixonada também era uma ingénua.
E mais não vos vou dizer. Espero sinceramente que estejais a seguir este folhetim que embora seja do século passado tem coincidências com algumas vidas dos tempos de hoje. Só que já ninguém veste luto.
Com a devida vénia.
O FILHO NATURAL

Camilo Castelo Branco

A Custódio José Vieira

Nada de modéstias.
Ofereço-te este livro para que haja na tua grande biblioteca um livro aproveitável, se não tens os CONTOS de Gonçalo Fernandes Trancoso.

QUARTA PARTE


Vasco Pereira Marramaque saiu eleito... por novecentos mil réis, trinta e nove cabritos, e 2 1/2 pipas de vinho verde – vinho que devia ser um exagerado castigo daquelas consciências corrompidas dos cidadãos. Graças a Camões e ao abade de Pedraça, o fidalgo de Agilde foi proclamado contra os protestos de duas mesas eleitorais que estavam vendidas ao competidor.
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Tomásia chorou em segredo para não aguar o contentamento do representante do povo. Redobrou de afagos a Vasco, pedindo-lhe, em nome do filhinho, que a não esquecesse. Sentia-se descaída e desnecessária na vida dele; fiava-se, ainda assim, nos maviosos enleios da porvindoura criança. O egoísmo não lhe dava lanço de recordar-se com angústia da causa que a fazia esperar tanto do amor paternal: devia ser o grande amor que seu pai lhe tivera, o insano mimo com que ele a criara, acalentando-a nos braços, desde os quatro anos em que ficara órfã de mãe. Era cedo. As disciplinas do remorso principiam a macerar quando a alma não tem evasiva por onde lhes fuja, nem alegria que lhes verta bálsamo nos vergões.
Saiu Vasco Pereira para cortes, estadeando um aparato condigno dos seus apelidos. Como não ia bem seguro na transcendência dos seus discursos, e na distinção exequível por esse meio, fez-se preceder de cavalos e lacaio, escudeiro e jóquei preto. Conhecia o Chiado, e tinha sondado a índole de Lisboa. Conjecturou que dois cavalos o levariam mais depressa aos sonoros átrios dos palácios do que dois discursos a respeito das estradas concelhias de Gondiães e Painzela, para os quais levava apontamentos em que ten¬cionava encravar Aristides, e citar, a propósito de estradas decretadas pelos Cabrais e Elias, o Timeo Danaos et dona ferentes. E, dizendo isto, tinha dito todo o latim que se sabia nas duas câmaras e no jornalismo, exceptuada a Revolução de Setembro, onde o sr. António Rodrigues Sampaio motivava latinamente invejas apoplécticas ao sr. conselheiro Viale.
Os fastos parlamentares deste deputado provincial não nos são mais conhecidos que os discursos de Hermágoras, retórico de Temnos. Ao entrar na sala de S. Bento, cada cabeça frisada dos seus colegas foi para ele uma cabeça de Medusa; petrificaram- -no. Conhecia-se interiormente grávido de patriotismo, cachoavam-lhe as ideias no cérebro; mas sentia-se sem gramática. Chegou, no de¬lírio da sua alucinação, a imaginar que no parlamento era necessá¬rio saber a língua portuguesa! Ouvia discursar alguns colegas, e não se convenceu que eles estavam ali autorizados pelo poema do abade Casti. Em casa repetia os dois sabidos discursos sobre estra¬das com ênfase e modulações um pouco demosténicas e talvez imi¬tadas do sr. Arrobas; porém, aberto o ensejo de pedir a palavra, não sabia por onde começar este peditório. Dir-se-ia que o presi¬dente era Perseu que lhe mostrava no fundo do seu chapéu a ca¬beça da Gorgona; ou, para melhor o compararmos a sabor cristão, o presidente impunha-lhe silêncio como o conhecido frade do Bu¬çaco que perfila o dedo na ponta do nariz.
Desistiu de falar, reservando-se para as ocasiões imperiosas em que a pátria necessitasse das explosões dos seus Brutos: – aludia àquele Bruto I que estivera calado até ao momento em que Lucré¬cia foi violada; e mais, o deputado por Braga estava já tão apesta¬do dos miasmas do café Marrare, que não acreditava em Lucré¬cias.
Verdadeiramente corrompido – diga-se isto com a breve ener¬gia de Tácito nos formidáveis lanços da história –, Vasco Pereira de Marramaque estava irremediavelmente corrompido pela convivên¬cia de uns leões que sacudiam as crinas ungidas das lágrimas das mulheres, nos seus divãs do Hotel de Itália. O conde da Taipa, seu primo por Marramaques, Manuel Browne, José Vaz de Carvalho, D. Francisco Belas, José Estêvão, e outros que ainda vivem ex¬piando o passado, eram seus íntimos. Também era dos seus Almei¬da Garrett, que dourava o bordo do cálix por onde se bebiam aqueles venenos diluídos nas palestras de uns homens que se vinga¬vam do tédio dos prazeres, desfolhando com sarcástica e gentilíssi¬ma nonchalance – era o termo – as flores em cujas pétalas ha¬via lágrimas. O poeta das Folhas caídas relia e comentava ali os seus madrigais com umas facécias juvenis tão congeniais da sua al¬ma sempre criança, que os mais novos do grupo lhe invejavam as reflorescências do estilo e as mulheres que ele perpetuou até nós de parçaria com os fluidos transmutativos.
Pasmado das proezas destes homens, olhou para si, e achou-se miserável nos seus amores sertanejos a uma obscura filha de boti¬cário. Não tinha façanha que contar quando lhe pediam casos da sua vida; via-se forçado a inventá-los para não ser ridículo, nem dar suspeitas que passara do seminário de D. fr. Caetano Brandão para o parlamento. Relatava então raptos e adultérios, pondo os maridos nas cenas grotescas das tragédias e caricaturando as des¬graças para não desafinar do tom dos seus amigos. Era um tartufo de patifarias – o que aí há de mais covarde e perverso no canalhis¬mo das salas.
Entretanto, dava-se pressa em adquirir a certeza prática de que tinha direitos a contar aventuras menos fantásticas. Ser-lhe-ia mais custoso ser honesto, se ensaiasse a fábula de Daniel na caverna dos leões, ali em Lisboa, onde mais tarde se perdeu outro deputado de melhor casta – aquele Calisto Elói de Silos Benevides de Barbuda que eu chorei na Queda de um anjo.
Em breve prazo ombreou com os mestres. Não direi, todavia, que Vasco baldeasse pelas trapeiras a desonra ao seio das famílias. Estavam já cheias disso.
Ele, no seio dessas gentes entrava imperceptível como um regato no bojo do mar-morto que esconde as relíquias de Sodoma. Algumas, com tal hóspede ainda não car¬meado inteiramente de lã minhota, julgar-se-iam em via de regeneração. Vasco, na sua panóplia amorosa, tinha coroas de baronesas e condessas; mas Cunha Sotomaior dizia-lhe que os tais troféus pareciam arranjados na feira da ladra, ou roubados ao gabinete arqueológico do abade de Castro, Deus lhe perdoe.
 
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Nem tanto.
O deputado escondia ao exame dos seus amigos uma luva branca de 5 pontos e a medalha de um retrato. Sagrava estes dois objectos um amor incontaminado, uma paixão que se urdira com duas fibras puras do coração de Vasco. A menina amada era ilustre, formosa, inviolada na sua reputação e pobre. Seu pai era conde, representante de condes que já o eram no reinado de D. Manuel. Seus irmãos eram dous fadistas, as melhores duas navalhas da travessa dos Fiéis de Deus e arredores. Velaram as armas no sótão da Severa e remedavam o conde de Vimioso nas características farçolices do alto banzé. Mordia-os uma aspiração ardente: queriam ser bolieiros. Aquele grande batedor José Mulato, em domingo de tourada, jantava com eles no Penim ou no Colete- -encarnado; abraçavam-no, beijavam-no, estudavam-lhe os trejeitos na bebedeira, e atemperavam-se tanto às suas gingações que ainda no estado normal pareciam ébrios.
O conde resvalava vagarosamente à sepultura, carregado com a ignomínia dos dois filhos. Amparava-lhe a cabeça branca uma filha. Era esta a mulher que Vasco Pereira vira em sexta-feira de Paixão na capela de seu parente o conde de Redondo. Aquela capela, naquele tempo e na semana santa, era o confluente das famílias de mais alta estirpe, que não reconheciam a soberania de D. Maria II. Vasco Pereira Marramaque, o representante dos castelões e ricos-homens de Lanhoso, tinha ali parentes; e em contacto com eles sentia-se abalado pelas reacções da raça e entorpecido por um magnetismo miguelista.
Sobejavam-lhe predicados agraciáveis, além da prosápia e fama de rico. Vestia com primoroso bom-tom. Era perfeito homem na corporatura, e naturalmente esbelto nas atitudes. Trigueiro-pálido, bigode farto e negro, a cara sentimental dos romances. O sorriso sincero, sem os vincos labiais com que alguns artífices de chalaças se narcisavam ao espelho para se inculcarem medonhos frecheiros de sarcasmos. Era, enfim, a flor do Minho, e o querido de sua prima em grau desconhecido, D. Leonor de Mascarenhas, filha do conde de Cabril.
O ideal, que o preocupava antes de se materializar nas lides eleitorais e na sensaboria das intimidades monótonas com Tomásia, reapareceu-lhe na angélica beleza de Leonor, na santidade do seu viver, na piedade filial com que lenimentava as acerbas dores do conde. Respeitou-a e adorou-a, como se a visse na candura dos dezoito anos, quando lia O Menino na selva. Retraía-se acanhado, se lhe cumpria ser um agradável conversador. Parecia ter perdido no comércio de amorios despejados a moeda do fino ouro – a frase sã, simples e afectiva de que as almas singelas se contentam.
Leonor sabia que era amada; e o conde, fiado na probidade da filha, consentia que o rico e ilustre Vasco Pereira a cortejasse, tirando a partido que o casamento se fizesse sem precedências de cartas, rendez-vous, e outras frivolidades que deterioram a gravidade de tal acto. Sistema antigo e bom. O conde havia assim casado. Não constava que na sua família, muito mais antiga que a instrução primária, desde o seu trigésimo avô Leovigildo, rei visigodo na Lusitânia, alguém se matrimoniasse por cartas.
Nesta conjuntura recebeu Vasco a notícia de que era pai de um menino. Escrevera o feitor a carta que Tomásia ditara e em um P. S. acrescentara por seu punho: Há treze dias que não me escreves!!! Não te esqueças do teu filhinho.
O pai do menino achou exagerados os três pontos de admiracão, e não pôde sofrear a zanga que lhe fazia aquela espécie de violência. – Com que direito se admirava a filha do boticário? Cuidaria ela que era a baliza do destino de um Marramaque? Talvez se persuadisse que o filho era o remate da sua felicidade! Imaginava certamente que ele, o esperançado noivo de uma Mascarenhas, ia logo, a jornadas forçadas, para casa, doido das alegrias de progenitor, acocorar-se ao pé do berço, e babar-se de risos paternalmente palermas!
Ele pensava isto pouco mais ou menos; mas não respondeu as¬sim.
Dizia que ficara muito jubiloso com a notícia; recomendava à mãe que se acautelasse do frio porque a estação ia muito agreste; mandava que arranjasse ama e mandasse criar fora o menino, que o baptizasse em nome dela e lhe pusesse o nome que lhe agradasse; ordenava finalmente ao feitor e à mulher que fossem padrinhos. Era uma carta em que não ressumbrava sentimento amoroso de pai nem de amante, salvo a recomendação de que tivesse cuidado com as constipações.
Tomásia leu a carta por entre lágrimas, e disse de si consigo: «Está tudo acabado». E, descobrindo o rosto da criança que aquecia sobre os seios, soluçou:
«Que será de nós?»
Respondendo a Vasco, dizia que o menino seria baptizado sem nome de pai, e com os padrinhos indicados; quanto, porém, a mandá-lo criar, declarava que a ama de seu filho havia de ser ela; mas, se Vasco instasse pela criação fora, em tal caso teria ela de sair com o filho. E acrescentava com uma serenidade que a dor atabafada igualava a um raro heroísmo no infortúnio: Recebo a tua carta na mesma hora em que recebi a notí¬cia da morte de meu pai.
 
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A notícia enviara-lhe o praticante e administrador da botica, perguntando se devia continuar a dirigir a farmácia da qual ela era a herdeira. E mandava-lhe inclusa uma recente carta de Macário Afonso em que aprovava as contas do caixeiro, agradecendo- -lhe, e louvando-o pela probidade com que fiscalizara a sua casa. Dizia mais que tinha tido ameaças de apoplexia, a que o cirurgião chamava febre cerebral; e concluía: «Se eu morrer de repente, o meu testamento está feito. A minha herdeira é essa filha que me matou. É herdeira de sua mãe, porque essa casa e tudo o que está nela era de minha defunta mulher. Tudo lhe deixo; mas não posso perdoar-lhe a ingratidão com que me desamparou».

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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