Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 06-04-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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Angélica Florinda (IV)

Digamos com Camilo: “Desde aqui ao seu termo, esta história não pode relatar, senão de fugida e com intermitências de longas temporadas, os factos que encerram e abarcam não poucos anos”.
Já estamos em 1855. D. Fernando, o viúvo de D. Maria II, era o regente do Reino, aguardando que o príncipe D. Pedro fizesse 18 anos e fosse entronizado com o nome de Pedro V. O país entrara numa era de acalmia. Os Cabrais tinham-se sumido na voragem das revoluções da Maria da Fonte e da Patuleia. Angélica Florinda regressara ao Convento de Santa Clara, vira o filho, de dez anos, partir para o Brasil. O protector de ambos, Frei Jacinto de Deus tinha já entregue a alma ao divino Criador. Florinda tem 45 anos, com parecenças de 60. Mudou muito, muito. Tornou-se mística. Corria entre as freiras do Convento a crença de que os demónios lhe obedeciam. Resolve deixar o Convento e uma herança de cinco mil cruzados, partindo sem destino. Ela é a “Inspirada”. Ao despedir-se, Angélica voltou-se para dentro e disse:
“Dêem um bocadinho de pão pelo amor de Deus à penitente mendiga.
Prorromperam freiras e criadas em altos gritos de pena e edificação de tamanha humildade (…) No largo da Batalha pediu que lhe dissessem pelo amor de Deus o caminho de Basto”. Segue por caminhos, veredas e serras, esmolando um bocado de pão, uma sede de água, o palheiro dum lavrador. “Chegou a S. Pedro de Alvite, à porta da casa onde tinha nascido (…) mandaram-na entrar para a cozinha e aquecer-se à fogueira. À volta do toro abraseado estavam doze pessoas. Angélica Florinda encarou em todos e desconfiou que uma das mais velhas devia ser seu irmão. A mulher idosa, que devia ser cunhada, não a conheceu. Fazia neste ano vinte e seis que ela tinha fugido daquela casa (…) O que ela não via era os dois velhos, seus pais, que se reviam na formosura dela”. Ninguém a conhece. Ela vê o irmão gordo e feliz com o rancho dos filhos. A cunhada diz-lhe que tivera 12 mas que 3 já estavam no céu. Mas outra estava doente na cama. Angélica pede para a ver a sós. E descobre que a rapariga ama alguém a quem o pai a não quer dar. Quer que ela case “com um brasileiro velho que tem muito de seu, e eu antes quero morrer!
Deram-lhe ceia e dormida. De manhã pediu ao irmão que a deixasse ir à igreja, pois “queria rezar um padre nosso sobre a sepultura dos pais dele. Admirou-se o filho de Francisco e Teresa de tão extraordinária piedade. Isto não impediu que ele comovido fosse pedir a chave da igreja, onde entrou a mostrar a campa em que seu pai tinha sido sepultado vinte anos antes, e a mãe seis anos depois do marido. Angélica prostrou-se com a face na lágea e derramou muitas lágrimas.
- Vossemecê conheceu meus pais?! – perguntou o lavrador, quando ela saiu ao adro.
- Conheci e amei-os muito.
- E vossemecê como se chama?
- Já vos disse que me chamo a “Penitente”. “
Despediu-se de quem a tinha acolhido, dando um último recado ao lavrador: “Não a obrigueis a casar com o vosso brasileiro. S e tendes memória de uma desgraça da vossa família, lembrai-vos de que, há muitos anos, a vossa irmã Angélica fugiu desta casa, à conta de a quererem casar com um brasileiro, e foi desgraçadinha lá por esse mundo”.
Sem saber com quem está a falar, é o lavrador que lhe fala do filho, um rapaz que Angélica teria tido dum frade de Tibães:
“Pois esse rapaz, que esteve aqui em Freixieiro (…), foi para o Brasil e está lá casado muito rico com a filha do patrão. Conheceu-o lá este brasileiro que queria casar com a minha Mariana, e diz ele que o sogro do tal moço tem mais de dois milhões!...”

***

Angélica Florinda deixa S. Pedro de Alvite para todo o sempre. Ninguém a conhecera. Estava muito mais velha do que era, estava desfigurada. Aventura-se pela serra, sem destino definido. Após um vento rijo e glacial do norte, chegou a neve. Caiu. Desmaiou.
“Ao entreluzir da aurora, passavam almocreves, viram aquele vulto enconchado entre uma fraga e o côncavo de uma vala. Sacudiram a mulher sopitada: viram-lhe nos olhos luz expirante de vida. Deitaram-na entre uma carga e deixaram-na entregue aos lavradores da primeira aldeia que toparam. A aldeia demorava às abas do Monte-Córdova, serra que se empina e ondeia com suas fragosíssimas encostas até à vila de Santo Tirso”.
Angélica não morreu.
“Volvidos cinco dias estava em pé, contando aos caridosos abegões da aldeia que não dera tento do seu desmaio nem sabia como fora trazida da serra”.
Encontra as ruínas de uma casa sem dono. Pede esmola para cobrir a casinha. “Saíram à porfia os lavradores a carregar vigas e colmaços (…). Petrecharam-lhe a cabana com o essencial para levantar os ossos do chão estreme, e cozinhar um caldo”; mas “as delícias divinas da pobre eram o chão duro, a fome mordente, o frio congelador”.
Passemos à frente. À força de exorcizar demónios, diabos, diabretes e outros e outras endiabradas, Angélica Florinda torna-se na BRUXA DO MONTE CÓRDOVA.

***
O tempo correu. “Em 1863, anunciaram as gazetas a venda de uma quinta, chamada de Burgães, no concelho de Santo Tirso”. Foi adquirida por um benemérito português, de seu nome Jacinto de Deus e Aquino, residente no Rio de Janeiro, que fora agraciado com o título de Barão de Burgães. Estava agora em Portugal com a mulher e 4 filhos. Foi ao convento de Santa Clara saber notícias de sua mãe. Já lá não estava. Tinha saído há sete anos feitos. “ Por uns sinais que tinham dado uns almocreves da terra de uma freira, a pobre Angélica fora encontrada a morrer na neve de uma serra lá para cima e a morrer ou morta a deixaram numa aldeia”.
São algumas das mais admiráveis páginas de Camilo as que levam, por acaso, a família do Barão de Burgães, acompanhados de algumas senhoras da alta roda, a visitar a Ermitoa de Monte-Córdova, cuja fama já tinha chegado ao Porto. Camilo conhecia bem aquele monte. Desde que passara a residir em São Miguel de Seide, várias vezes por lá fez passar a sua bengala e os olhos cuja luz se começava já a apagar. São páginas de amor maternal e de amor filial, misturadas com lágrimas de alegria pelo reencontro e com lágrimas de tristeza pelo desfecho final. Angélica Florinda vai morrer feliz nos braços do filho que o destino arrastou para tão longe de si. Terminemos com Camilo: “Soou nas quebradas da serra um longe gemido. Ajoelharam todos, alongando a vista pela amplidão do céu, como se vissem o trânsito luminoso de uma alma. Depois, não quiseram descer da montanha sem beijarem a mão da defunta”.
Quando puder, visite o Monte Córdova. Aí encontrará a elegante capela de Santa Maria Madalena, que o Barão de Burgães mandou construir em memória de sua mãe. Na capela e no anexo ainda estão lembranças de “A Bruxa do Monte- Córdova”, em que Camilo imortalizou S. Pedro de Alvite e alguns dos seus naturais. É que em Camilo nem tudo é romance…

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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