Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-03-2009

SECÇÃO: Recordar é viver

Cabeceiras de Basto na obra de Camilo Castelo Branco (3)

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Amigos, cá estou mais uma vez para dar continuidade ao esplêndido folhetim “O Filho Natural” das Novelas do Minho, de Camilo Castelo Branco.
Tenho quase a certeza que o vosso interesse despertou quando lestes que o boticário deu por falta da sua filha Tomásia. E isso aconteceu certa noite quando o pai dela, acordou com o esvoaçar de dois morcegos, passando-lhe de raspão pela face e acordando-o. O barulho que os morcegos faziam ao redor do quarto e batendo nas janelas com os seus voos estridentes pareceram-lhe de mau agoiro.
A mãe da Tomásia já tinha falecido. O pai, preocupado e zeloso do bem estar da sua única filha, ficou inquietado ao pensar que os morcegos entrariam pela janela ou pela porta do quintal. Afligiu-se pensando que a sua filhinha tivesse adormecido com o relento da noite. Embrulhou-se num lençol e de mansinho dirigiu–se até à porta do quarto da sua pequena que, por acaso, estava aberta. A janela estava bem fechada. Aproximou-se devagarinho para não a despertar a fim de verificar se se ouvia o seu ressonar. Qual não foi o seu susto ao não ouvir ressono e nada de filha. A cama estava bem feita, intocável. É aqui que o boticário lança um grito histérico já com uma suspeita terrível a germinar no seu coração.
Pois é queridos leitores, começa aqui o drama da Tomásia. Não vos vou contar mais do que esta pequena introdução. Se leram o capítulo anterior, aconselho-vos a continuar, pois tenho a certeza que irão sofrer com a desdita desta família, principalmente a da pobre Tomásia. O coração deste pai que chora ao perceber que a sua filha caiu desonrada. Este pai que preferiria chorá-la morta, do que chorá-la desonrada.
Caros leitores dá para ver a diferença do valor da honra dos séculos passados, comparada com a de agora, diria que é a diferença “como do vinho para a água”, ou “da escuridão da noite para o dia claro”. Isto mostrava nitidamente que a honra das mulheres estava mesmo debaixo da saia (como o povo costuma dizer) e, enquanto não crescia a barriga. Estas “desonras” nos séculos passados davam direito, aos pais ultrajados, de porem as filhas fora da porta ou mandá-las para os conventos. Os próprios pais vestiam de luto pesado como se as filhas tivessem morrido.
Nos tempos de hoje, já não se vê isso. Ainda bem, mas nos tempos que correm, eu acho que a dita “honra” anda um “pouco” banalizada de mais. Sempre nasceram meninos fora do casamento e criar um filho é uma honra, só que no meu entender havia de haver uma maior descrição. As raparigas e os rapazes deviam dar-se mais ao respeito.
Com a devida vénia.

*

O FILHO NATURAL

Camilo Castelo Branco

A Custódio José Vieira

Nada de modéstias.
Ofereço-te este livro para que haja na tua grande biblioteca um livro aproveitável, se não tens os CONTOS de Gonçalo Fernandes Trancoso.

TERCEIRA PARTE

*

 Ilustremos o sucesso. Quando Macário chamou de rijo a filha na alcova vazia, estava ela com Vasco no quintal, e já três vezes se haviam despedido, e três vezes reabraçado. Não me lembram agora uns versos maviosos de Ovídio que ele fez em conjunção análoga; mas toda a gente que teve namoro em um terceiro andar – altura onde os suspiros exalados desde a rua chegam em temperatura honesta – sabe quantos adeus se repetem, quantos juramentos se renovam, até que a patrulha vem chegando com a Moral e com a baioneta.
Tomásia, quando ouviu bradar o pai, encolheu-se como criança espavorida ao seio de Vasco e soluçou:
– Estou perdida! Não me deixes!
O lance era apertado – não havia tempo a reflectir. Se ele a amava cegamente, o expediente inquestionável era a fuga; se ele a amava nos limites ordinários da prudência, tinha de ser uma de duas coisas – infame ou cavalheiro. Ora ele era da geração dos Marramaques: tinha brios.
– Vem comigo! – disse fidalgamente, e deu-lhe o braço.
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E ela sentia-se feliz e invejável ao transpor a soleira da porta como se por ali se evadisse ao desdouro. Aconchegava-se ao braço do amante com estremecimentos de gratidão e vaidade. Na sua doce turvação, nem sequer a imagem do pai lhe azedou com uma lágrima a taça daquele hachich das ébrias do amor. Vasco parecia contente do seu feito pundonoroso. A submissão amorosa da sua protegida a uma desonra incondicional era-lhe agradável ao orgulho. Como a paixão lhe não empoava já os olhos da alma, podia ver em si um homem extraordinário que, por simples impulso de cavalheirismo, dava em sua casa bizarra homenagem a uma rapariga da baixa condição de umas a quem a sociedade não costuma pedir contas...
Parece-me que estou a fazer frases.
A falar verdade, se Vasco, em vez de levar Tomásia, lhe fizesse um discurso admoestando-a a conservar-se na casa paterna, e ela transigisse, perdendo ao mesmo tempo a estima do pai, a estima de si própria e o amor do amante, nós os que temos em conta de infames aqueles que o mundo chama finórios, havíamos de pôr aquele opróbrio dos Marramaques a tormento nestas páginas cheias de cóleras sagradas, e fustigá-lo a ele e aos seus parceiros com os alexandrinos tartarizados do sr. Guerra Junqueiro:
……………...... Brutos sem b maiúsculo,
A consciência é um ventre e o coração é um músculo!
Cantai, gozai, bebei até romper a aurora!
Atirai o pudor pela janela fora
Como um charuto mau que se apagou. Canalhas!

*
 
Macário não abriu a botica naquele dia, nem consentiu que se abrissem as janelas.
– Faço de conta que ela morreu. Está morta. Aconteceu o que eu esperava, mas doutro modo. Tanto choro eu por ela assim, como choraria se lhe estivessem agora rezando os responsos na igreja.
E, dizendo, as lágrimas rolavam-lhe a quatro pelas faces, e pareciam sulcar-lhas como se dez anos de vida amargurada se condensassem na tortura de algumas horas.
No fim de três dias, o farmacêutico apareceu vestido de luto carregado. Se alguém proferia palavra a respeito do luto ou da filha, ele, apertando os beiços com o dedo polegar e o indicador, fazia um gesto de silêncio. E, em seguida, sumindo-se na casa traseira da botica, ia chorar. Passados oito dias, quem abriu a botica foi um caixeiro que viera de longe.
Macário saiu de Celorico de Basto, e foi administrar outra farmácia de uma viúva, dali quatro léguas, onde eu estudava latim. Ali o conheci. Teria cinquenta anos. Foi meu mestre de gamão e damas. Durante onze meses nunca lhe ouvi falar de Tomásia. No fim do ano, aliviou o luto; mas, como não pudera despi-lo da alma, entrou a embriagar-se. E então falava da filha, fazia-me confidências, vociferava palavras brutais e tinha arrebatamentos de fúria em que os olhos lhe ofegavam e rompiam das órbitas. Estas crises terminavam dormindo.
Tomásia devia conjecturar tamanhas dores que a Providência lhe estava debitando no grande livro que um dia se abre diante do devedor. Que livro esse quando se abre! Parece que as pessoas, as coisas, as forças vivas e as impassibilidades mortas, tudo nos pede contas, tudo tem uma garra invisível que nos arranca do coração as mais pequenas parcelas!
 
*
 
Vasco Pereira Marramaque contava vinte e seis anos, quando a filha de Macário, ao cabo de dezoito meses de incauta alegria na convivência do fidalgo, lhe ouviu dizer:
– Esta vida não pode assim continuar. – E prosseguiu enchendo o cachimbo. – É preciso ter alguma utilidade. Não hei-de ficar toda a vida metido em Agilde...
Tomásia escutava-o com dolorosa estranheza, enquanto ele, com ares enfastiados, dizia que o viver das aldeias era estúpido; que envelhecia naquele sequestro de gente com quem falasse; que cortara as suas relações com as casas de Basto, para que o deixassem só, e que as não queria atar de novo. E concluiu:
– Arranja-se-me ocasião de poder ser eleito deputado por Braga, e estou resolvido a fazer todos os esforços para ir à câmara.
– Tomara eu ver-te fazer figura! – acudiu Tomásia com este sincero plebeísmo; e acrescentou carinhosa: – Eu vou contigo, sim?
– Para Lisboa?... Ora essa! Nem os deputados casados levam as mulheres.
– Isso que tem? – replicou ela amorosamente. – Eu não te deixo ir sem mim...
– De mais a mais, não vês que eu, se for eleito, venho a ir daqui a três meses? Para esse tempo...
– Ah! – atalhou Tomásia. – É verdade... E tu nessa ocasião não hás-de estar ao pé de mim... e... do teu filhinho?! Serás capaz de me deixar sozinha...
– Com as tuas criadas...
– Ora!... Tomaram as tuas criadas ver-me pelas costas... Têm-me um ódio!...
– Imaginações tuas... De mais, eu venho de Lisboa assim que for tempo, menina. Está descansada, que eu hei-de ser sempre o mesmo para ti...
– Já não és o mesmo, Vasco... Acho-te tanta diferença que... desde que estou contigo, a primeira vez que tenho vontade de chorar… é agora.
E, proferida a última palavra, as glândulas lagrimais golfaram como se obedecessem à pressão de uma mola.
– Porque choras? – interrogou Vasco asperamente. – Querias que eu ficasse estagnado nesta aldeia?! Levas a mal que eu me eleve sobre esses fidalgos lorpas que ensinam bestas e passam as noites a jogar a bisca?
– Quem te diz isso? Vai, vai para Lisboa, que eu ficarei aqui, ou onde tu quiseres.
E engolia as lágrimas, provando o primeiro trago amargo do seu cálix de expiação.
Ele ergueu-se sacudindo o resíduo do cachimbo, mandou pôr o selim no alazão, e saiu sem olhar para a sacada onde ela costumava ir dar-lhe o adeus saudoso.
Neste dia pensou Tomásia muito e com tristeza no pai.
Ao anoutecer, Vasco voltou mais agraciado de semblante. Ela cuidou que era o pesar de a ter magoado, remorso que se dilui em carícias quando o coração acusa; confundiu este sentimento, misto de júbilo e dor, com o sentimento da compaixão. O que ele sentia era dó – uma piedade preventiva que se condói da mulher destinada ao abandono, piedade que não torna quando afinal soa a hora do tédio e do desamparo.
O candidato vinha de conversar com os influentes de dois concelhos. Revelou os primeiros entusiasmos de homem público. Parecia andar-se já ensaiando retoricamente. Explicava o que eram regeneradores, falou do herói de Almoster, desfez nos méritos do sr. Ávila e João Elias, sarjou fundamente as carnes dos cabralistas, gesticulando e passeando, com as mãos no cós das calças como José Estêvão. Tomásia escutava-o, seguia-o com os olhos fas¬cinados naquelas energias desconhecidas. Nunca lhe vira mímicas tão veementes, tamanhos assomos de cólera política, olhando às vezes fixamente para um ponto elevado. Tomásia não sabia que ele erguia os olhos para a cadeira da presidência, e às vezes para a galeria das senhoras, in petto. Era uma vocação que estoirara de súbito, imprevista e fatal. Ele mesmo, a só com a sua transformação, espantava-se de ter tido em sua pessoa uma incubação surda e tanto tempo apática.
Nos dias seguintes, poucas horas passou em casa. Acompanhado dos homens notáveis de Basto, foi conferenciar com as autoridades a Braga. Opuseram-se-lhe grandes obstáculos – atritos, diziam os políticos no seu calão. – Vasco, beliscado no orgulho, jurou ser eleito à sua custa, comprando a consciência aos eleitores. Naquele tempo uma consciência de eleitor rural regulava entre dois pintos e quartinho, com jantar de cabrito guisado e vinho à discrição.
O abade de Pedraça disse-lhe que seguisse o conselho de Luís de Camões se queria vencer o candidato realista, seu competidor; que o seguisse à letra, principalmente no artigo «regedores». E, como Vasco se risse do anacronismo de Camões com regedores no século XVI, o abade tirou da estante os «Lusíadas» e no canto VIII, estância LII, apontou-lhe os dois versos finais, que rezam assim:
Por manhas mais subtis e ardis melhores,
Com peitas adquirindo os regedores.
– Adquira-me os regedores com peitas – acrescentou o abade de Pedraça, tocando—lhe com a lombada do poema no ombro. – Estes versos são de profética e perpétua serventia em Portugal. Tão preparados estamos hoje para o sistema representativo como em tempo de Camões. Que anda V. Excelência aí a desbaratar pérolas de eloquência por esses lameiros? Querer meter ideias sociais na cabeça destes lavradores, é querer furar o badalo daquele sino com uma verruma (e apontava para a torre). Isto aqui são varas de porcos que se movem para onde os puxa o instinto da bolota. Bolota, sr. Vasco, bolota, e nada de palavras! Pois V. Excelência persuade-se que pode haver um deputado escolhido pela inteligência de eleitores que não têm um mestre-escola? Nós os minhotos desta corda de Basto demos fé de que não reinava D. Miguel quando os frades despiram os hábitos e os capitães-mores as fardas; porém, quando por aqui se alastraram os executores da fazenda, dissemos aos realistas que acendessem as luminárias, porque

D. Miguel chegou à barra,
Sua mãe lhe deu a mão,
Anda cá, meu querido filho,
Não queiras constituição.

E cantarolava o folgazão abade de Pedraça, batendo o compasso na capa dos «Lusíadas».
(continua)
 fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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