Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-03-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

foto
Angélica Florinda (III)

Não! Não houvera magia nem milagre na fuga de Frei Tomás Plácido da masmorra do Mosteiro de Tibães. Tudo se deveu a Frei Jacinto de Deus que, vindo do Mosteiro de Alpendorada para lhe servir de defensor, lhe preparou a fuga. O caso é que, em 1807, quando o invasor Junot começou a pôr a saque as povoações portuguesas, “sem ressalva dos mosteiros (…) o dom abade-geral da Congregação de S. Bento (…) cuidou em arrecadar as riquezas e ao mesmo tempo minar um caminho por onde os frades, num derradeiro aperto, pudessem escapulir-se e sair a seguro com elas, nalgum bosque afastado do convento”. Um donato falou em abrir-se um alçapão no lagedo e procurar-se “um aqueduto que em eras remotas levava águas ao primitivo mosteiro (…) sendo provável que as obras de canalização antiga, feitas a expensas dum rei godo, se conservassem ainda sólidas e capazes de serventia”. Para abreviar, dizemos que tudo estava bem conservado, que Frei Jacinto de Deus conseguiu, através dum molde de cera, forjar uma chave que abriria a grilheta que prendia os pés do prisioneiro a um cipó. E haveria alguém com uma muda de roupa no local onde o túnel desembocasse, no meio do chavascal, no meio da noite escura. E a fuga correu bem. À boca do túnel esperava João António, o velho donato de S. Miguel de Refojos, o velho que amparara Tomás na sua meninice. Queria saber de Angélica:
“- E Angélica?! Que é feito dela? Sabe a minha vida? – perguntou o frade.
- Sabe tudo o que se passou.
- Está solteira?
- Pois não está?! O tio brasileiro chegou há quinze dias. O Pai aprontou os papéis para o casamento, leram-se os banhos três vezes, e ela desapareceu na véspera do casamento. Procuraram-na, e ainda ontem souberam que ela estava a servir no Convento de Santa Clara no Porto, Eu já o sabia desde que ela fugiu. O pai partiu ontem para lá a fim de a trazer; mas a rapariga me disse a mim que não saía de lá senão morta. Não há memória de um amor assim de rapariga!...
- Se algum dia lhe falar, diga-lhe que eu não posso ser nada para ela neste mundo. Peça-lhe que viva, que se case e que me esqueça”.
Não podendo recolher-se a Alvite, sua terra natal, já que seu pai não o defenderia nem recolheria em casa: “Olhe que seu pai não o defende nem recolhe em casa. Os frades fizeram-no mau como as cobras… Está feroz que nem um tigre contra os liberais…”
Inicia a fuga com destino à Galiza. Por sorte encontra um cavalheiro de Fafe. “Era um dos muitos liberais daquela terra, perseguidos pelo rancor político. Ele e três correligionários, escapados ao furor da plebe e aos esbirros do Corregedor de Guimarães iam fugindo para Galiza, passando os dias alapados nos fraguedos (…) Os cinco homiziados vingaram entrar incólumes em Galiza (…) Seguiram até à Corunha. (…) Da Corunha embarcaram para Falmouth e daqui para a Terceira numa escuna das que mercadejavam fruta nos Açores”.
Tomás transforma-se num bonito homem. “Já não levava traço que indiciasse o frade. Encabelara-se-lhe a côroa e saíra-lhe um espesso bigode negro (…) Era um galhardo moço de 23 anos (…) Alistou-se Tomás de Aquino na sexta Companhia de Voluntários da Rainha”. Breve sentiu o cheiro de pólvora, o sabor acre do sangue, o troar da batalha. É já alferes de lanceiros quando desembarca no Mindelo e entra na cidade do Porto donde o exército de D. Miguel desertara para logo se fechar no cerco que vai ser conhecido na História como “O CERCO DO PORTO”.

***

“Tu és de S. Pedro de Alvite… Tu és Angélica do Picoto” – foi assim que Frei Plácido se dirigiu a uma rapariga que ele entreviu numa portada do Convento de Santa Clara no Porto. Ela não o conheceu. Tomás estava diferente: “escusado é dizer que o bronzeado do rosto e as longas barbas tornavam imperceptível a mínima feição do estudante que a rapariga amara ainda imberbe, pálido de cera, magro e definhado pelos estudos e tristezas do violento destino que os pais lhe prescreviam”.
E veio o conhecimento, vieram as lágrimas, vieram as novidades. O frade ficou sabendo que sua mãe tinha morrido e que o pai fora assassinado.
“- Pois mataram meu pai?! – exclamou Tomás. - Ó meu Deus!…Meu pai a ninguém tinha feito mal senão a mim…Mataram o meu pobre pai! …
- Está enganado…Fez muito mal a mais alguém … (…) meu padrinho era muito amigo do senhor Dom Miguel e não podia tragar os amigos do Senhor Dom Pedro. Há quatro anos, quando a tropa fugiu para a Espanha ou lá para onde foi, o senhor Simeão ajuntou uma guerrilha e começou a prender e a bater nos outros que não eram do seu partido, e a jurar contra todos dizendo, pelos modos, cousas que não eram (…) A cadeia do Porto estava cheia de pessoas de nossa terra que ele para cá trazia (…); aquilo era uma alma de pedra. (…) Meu padrinho andava por toda a parte a gritar que era preciso levantar duas forcas em Basto para acabar com os malhados. Amanhou com isso muitos inimigos (…) Um dia encontraram-se com uns fidalgos de Ribeira de Pena que iam pela serra do Ladário a fugir à justiça. Começaram aos tiros uns aos outros e então meu padrinho morreu atravessado do peito para as costas com um tiro”.
Tomás chorou a sorte dos pais. A única alegria que teve foi a de saber que “aquele fradinho de Refojos”, Frei Jacinto de Deus, ainda era vivo.
Abreviemos a história: depois de muitas indecisões o frade resolveu esquecer os votos que fizera no convento de S. Miguel e tira Angélica do convento. Arranja uma casinha para os lados do Palácio de Cristal: “ A modéstia, senão pobreza exterior, desdizia da limpeza da mobília. As vizinhas pasmavam-se de ver lustrosas cadeiras e mesas em casa tão pobre”. Um filho veio alegrar a vida. Mas a sorte não queria nada com o tenente de lanceiros Tomás de Aquino. Os liberais, para aliviar o cerco sobre o Porto, resolveram fazer uma investida sobre o sul, que parecia ser um simples passeio militar. Tomás de Aquino é incorporado na expedição. A morte espera-o. “Tomás de Aquino foi um dos setenta mortos de 5 de Setembro de 1833”.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.