Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 23-02-2009

SECÇÃO: Crónica

Cabeceiras de Basto na obra de Camilo Castelo Branco (2)

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Caros Leitores, espero que o meu artigo anterior sobre Camilo Castelo Branco em Terras de Basto, e muito especial em Cabeceiras de Basto, vos tenha agradado e despertado a curiosidade.
Seria pretensão da minha parte pensar que todas as pessoas que lêem este jornal apreciem romances, muito menos romances do séc. XIX mas, creio que ainda haverá muita gente que apreciará um bom romance, com uma boa história que contenha muito amor, paixão, drama, enredo, honra ultrajada e adultério à mistura. De qualquer maneira, penso que, este artigo que estou a fazer juntamente com a transcrição do livro “O Filho Natural”, das Novelas do Minho, o nº 2, na continuação da “Obra de Camilo em Cabeceiras” vos irá despertar o bichinho da curiosidade com as personagens do boticário, da sua filha Tomasina e do Vasco Marramaque.
Espero que não desanimem, nem deixem de ler, pelo facto de o texto não ter as fotografias habituais e ser talvez mais maçudo em leitura. Mas, acreditem que quando começarem a ler vão querer ler mais e mais e ficar apaixonados pela triste sorte da Tomasina. E mais não conto…
Quem sabe alguns de vocês vão procurar os livros de Camilo sobretudo as “Novelas do Minho” do qual faz parte o “Filho Natural”.
Poderão encontrar livros e toda a informação sobre Camilo Castelo Branco na sua Casa Museu, em Seide e/ou também, na Câmara Municipal de Famalicão.
Então com a devida vénia


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O FILHO NATURAL

Camilo Castelo Branco

Nada de modéstias.
Ofereço-te este livro para que haja na tua grande biblioteca um livro aproveitável, se não tens os CONTOS de Gonçalo Fernandes Trancoso.

SEGUNDA PARTE

Não era caçador nem potreiro: era um cismador trigueiro familiarizado com certas estrelas, hipocondríaco, olheiras, fastio, um grande aborrecimento de tudo e principalmente do estilo dos parentes que lhe chamavam mágico.
Ele tinha dado à luz no Periódico dos Pobres uma poesia na qual declarava que era um anjo caído em lodaçal de javardos. Aludia aos primos. Isto fez sensação em todo o Basto. Um poeta de Refojos mordeu-o com uma sátira que começava assim:
Ó bardo de Celorico,
Quem te deu tamanho bico?
Vasco Marramaque enviou-lhe o seu cartel por dois intrépidos ex-oficiais de Milícias de Braga. O outro, que era discípulo de Alceu e de Horácio no lirismo e no amor de seu corpo, fugiu de Basto como seu mestre fugira dos legionários de Octávio. Poetas, por via de regra, não querem nem devem morrer em batalhas: o seu ofício é dar a imortalidade aos bravos. O de Refojos pensava assim; e o de Celorico ia mais para os citaristas das cruzadas, que morriam como Raul de Coucy entre duas rimas e três cutiladas.
Este incidente deu ares heróicos a Vasco. Fizera fugir o versista de Refojos, que satirizava as autoridades nas gazetas, assinando-se Juvenal em Cabeceiras.
As senhoras amaram-no quase furiosamente.
As mulheres das terras frias e regadas pelas torrentes das montanhas amam os trovadores valentes. Querem que o poeta lhes diga:
Para servir-vos, braço às armas feito;
Para cantar-vos, mente às musas dada.
Vasco provou a mão nos solaus, e dizia sempre que ia afinar o arrabil. Era o instrumento de 1848, o arrabil. Mas, de vez em quando, no Eco Popular do Porto, aparecia uma pergunta anónima:
Ó bardo de Celorico,
Quem te deu tamanho bico?
 
*

Vasco Marramaque viveu do amor das castelãs dos seus solaus com exemplar castidade por espaço de seis meses. Os frutos destas inocentes mancebias eram umas trovas em redondilha, quase todas aleijadas. Procurava uma menina acomodada ao molde da sua imaginação; mas terras de Basto não lha forneciam. Ali as meninas eram cheias como as abóboras – abóboras-meninas. Ele queria a mulher vaporosa. Naquele tempo era moda o vapor nas senhoras como encanto; hoje os poetas realistas malsinam-nas de anémicas e cloróticas. Nós, os rapazes que tínhamos alma e lira, queríamos que as nossas amadas, por várias razões, se alimentassem do aroma das finas flores, como Camões refere de certas famílias vizinhas do Ganges; ora os poetas da última hora, com o zelo de corretores de restaurantes, argúem, acaudilhados pelo sr. R. Ortigão, as senhoras magras porque não digerem uns tantos quilos de boi com mostarda, nem bebem cerveja preta, nem barram de manteiga fresca o seu pão.
Não era assim que o fidalgo de Agilde anelava a mulher que lhe preluzia dentre a poeira de ouro das suas visões.
Procurou-a no jardim de S. Lázaro do Porto. Se vai no domingo anterior, encontrava cinco meninas de transparência cristalina, bastante lidas no Telémaco, sabendo de cor as passagens mais sentimentais do Eurico e a Vivandeira de Palmeirim. Eram as cinco jóias do Porto em delicadeza de espírito e de cintura – tão subtis que pareciam almas deplorativas da Divina Comédia envoltas em tarlatanas. Estas meninas, de famílias diversas, davam cuidado aos pais; porque, em matéria de matrimónio, diziam todas à uma que não achavam no jardim de S. Lázaro, nem na Filarmónica, nem na missa das onze, homens que as compreendessem. Cada uma delas, portanto, devia ser a visão realizada de Vasco Marramaque; infelizmente, porém, ele chegou oito dias tarde, porque as cinco incomprises tinham casado naquela semana com cinco brasileiros.
Percorreu o país, farejando todos os centros, todas as constelações de senhoras neste nosso sistema planetário de terra a terra. Esteve em Sintra, em Cascais, no circo Laribau, nos gineceus doutos das excelentíssimas Kruzes e nos celebrados bailes dos srs. marqueses de Viana. Ouviu de perto o rugido das leoas, e o metálico frescor da frase sacudida das damas aristocratas. Apertou na sua mão fria os dedos febris e opalizados das filhas dos marqueses; sentiu no rosto, em polcas vertiginosas, as doces crispações dos boucles, que descobririam o galvanismo no homem, se Galvani o não tivesse já achado nas rãs. Pois não sentiu nada! Pela palavra nada! Quando saiu a barra de Lisboa, com o coração a disputar à algibeira primazias do vácuo, conta-se que, pendido o rosto para o peito, chorara copiosamente; e que, em frente das Berlengas, perguntara ao destino surdo se a mulher dos seus sonhos estaria naqueles penedos.
Voltou para a sua casa de Agilde, aprendeu a jogar o gamão com o farmacêutico Macário Afonso, e enfronhou-se em política com o juiz ordinário. Este magistrado, galopim condecorado com o hábito de Cristo, incitava-o a ir ao parlamento, assegurava-lhe a urna, contando-lhe os rombos que fizera nela sempre que foi preciso fazer triunfar a justiça.
Entretanto, Vasco, enquanto o boticário manipulava os seus basilicões, namorava-lhe a filha, com uns jeitos cínicos de quem vinha de Lisboa. Era ela uma rapariga fresca e perfumosa como o rosmaninho, e sécia de alegres cores como a flor da hortênsia. Chamava-se a Tomasinha da botica. Lia novelas, que o fidalgo lhe emprestava, traduzidas do francês. A Salamandra de E. Sue fez-lhe estranhos abalos no organismo. Aquele personagem chamado Saffie, por quem as mulheres morriam de amor, enxertou-o em Vasco. Assimilava capítulos como quem ingere cabeças de fósforos. O pai gostava de a ouvir declamar os diálogos dos romances; e, moralizando aquelas histórias com bastante juízo, dizia:
– Tomásia, isso parecem-me petas!...
E, a respeito do Saffie, acrescentava:
– Dá-me vontade de dar dois pontapés nesse safio!
Ele bem via que a filha desatremava no governo da casa; não pegava em meia nem fazia peruas de missanga; dava-lhe as peúgas esburacadas e as ceroulas sem nastros. Trauteava as xácaras da Moura e do Pajem de Aljubarrota com o lacerante sentimento das enormes desgraças. Às vezes chorava sem saber porquê. Punha a mão na testa, afastava com frenesi os cabelos, e murmurava: «anátema!» como Cláudio Frolo. E o pai dava-lhe chás de tília e de valeriana para o nervoso, e óleo de mamona de quinze em quinze dias para o flato.
Tomásia, medicada com diluentes enérgicos, esmaiou-se e desmedrou; mas alindava-se com a palidez doentia do sangue empobrecido, afilaram-se-lhe os dedos, desceu a cinta dos vestidos quando os quadris abaixaram, tinha um languir, um desfalecer tão senhoril que o pai, ao vê-la morbidamente reclinar-se no escabelo, dizia sorrindo sobre-posse:
– Pareces-me a Inês de Castro que eu vi representar em Amarante!
Este bom homem, noite alta, folheava a sua livraria, copiosa em veterinária; erguia-se para escutar a respiração da filha, e correr-lhe a vidraça nas noites quentes; porque ela, quando a aurora dealvava a curva do horizonte, estava ainda na janela a ouvir os últimos gorjeios dos rouxinóis.
Contemplai uma vítima dos romances, ó pais e mães de famílias!
 
*

Por uma noite de calma, o boticário acordou estrouvinhado com um áspero choque de raspão na face esquerda. Sentou-se espavorido no leito, e viu dois morcegos a esvoaçarem-se contra a vidraça com fortes pancadas, e voltearem pelo ar uns voos estridentes que faziam oscilar a luz da lamparina. Pareceu-lhe agoiro; mas a reflexão levou-o a meditar no modo como os morcegos se lhe meteram no quarto, estando a janela fechada. Conjecturou que a invasão se fizera pela janela de Tomásia, ou pela porta do quintal, e afligiu-se na suposição de que a pequena adormecera exposta ao relento. Foi de mansinho, envolto no lençol, pelo corredor com um rolo aceso; parou à porta da alcova que estava aberta; ergueu a luz para projectar a claridade sobre a janela, e viu-a fechada. Fez com a mão direita um abat-jour, a fim de não despertar a filha com o clarão, e quedou-se para ouvi-la ressonar. Nem o leve ciciar das expirações lhe ouvia. Assustou-se; e, roçagando o lençol como os espectros dos «Mistérios de Udolfo», transpôs o limiar do quarto. A cama estava feita; a dobra do lençol alvejava na colcha escarlate.
– Tomásia! – exclamou o pai, como se ela pudesse estar naquele pequeno recinto. – Minha filha!
Assalteou-o uma suspeita angustiosa. Desandou, desceu à cozinha precipitadamente, e viu aberta a porta do quintal. Neste lance, assomou à porta do seu quarto a criada, que despertara com o rumor dos passos; mas, vendo o amo vestido tão insuficientemente como o poderia estar o nosso primeiro avô, se fugisse do paraíso depois de inventar o lençol, recuou trespassada de pudor.
– Onde está a menina?! – perguntou o atribulado pai.
– Onde está a menina?! – repetiu a criada com as costas voltadas para o escândalo.
– Sim... Onde está?
– Onde há-de estar? Na cama.
– Não está! – bradou ele.
– Vossemecê está a sonhar... Faça favor de sair daí que eu vou procurá-la... Estará no quintal.
Nisto deu três horas o relógio da botica.
– No quintal às três horas? – observou ele menos alvoroçado.
– Pois então? Era a primeira vez!... Faz favor de sair daí, sr. Macário? Olha que feitio de homem! Que preparo! Quero sair.
Foi então que o boticário, reparando em si, viu que estava quase indecoroso. Voltou aceleradamente ao seu quarto, e vestiu-se, enquanto a criada chamava Tomasinha do patamal da escada; e, como lhe não respondeu, correu ela o quintal com uma luz, e, vendo aberta uma porta que entestava com a rua, levantou um grande choro, chamando as almas benditas.
O amo estava já encostado ao beiral do poço, porque não podia mover-se nem falar desde que ouviu o chorar da criada. Aquela dor nunca o ameaçara nos seus sobressaltos de pai. Atormentara-o o susto de a perder; mas nunca se lhe antolhava a filha desonrada; morta é que ele a chorara e preferira.
– Eu estou acordado?! – dizia ele entre si. E friccionava com a mão o rebordo do poço, para se afirmar na consciência da vigília.
Nas árvores do quintal principiaram a chiar os pássaros; ao longe soaram as nove badaladas das Avé-Marias; na rua passavam ranchos de moças que iam para as segadas cantando o S. João com acompanhamento de viola. Que formosa aurora de um dia de julho!

fernandacarneiro52@hotmail.com


 


Por: Fernanda Carneiro

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