Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-02-2009

SECÇÃO: Opinião

Dia dos Namorados

“ (…)
Que feitiço é que me espreita
Quando ris só de me ver?”

foto
Fernando Pessoa
Quadras


Disse isto Fernando Pessoa que só namorou com cartas de amor a sua amada Ofélia (ficção literária? realidade?...) mais tarde quando já usa o heterónimo de Álvaro de Campos já considera que

“ (…)
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.

Mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas.

Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.

(…)”

Cartas e namoro vêm a propósito do chamado dia de S. Valentim que se aproxima e que muitos e muitas comemoram e, ou não sabem a história a ele associado ou conhecem apenas o santo mártir, patrono dos namorados. Ou, ainda menos, apenas respondem ao consumismo preparado para este Dia. Que já é muito!
Mas existem muitas histórias.
De facto, existiu um Valentim, bispo católico da cidade de Terni contemporâneo do imperador romano Cláudio II e que foi decapitado a 14 de Fevereiro de 270 d. c.
A data tem a sua particularidade e existem várias interpretações sob esta comemoração, umas mais viradas para a lenda, outras para as festas pagãs, romanas, outras até sobre a cristianização dessas mesmas cerimónias, contudo, todas com um elo comum, a juventude, o namoro e o amor.
A vertente comercial vinda desde o séc. XIX de Inglaterra e dos Estados Unidos, inundaram toda a Europa e registou-se uma verdadeira apropriação /globalização até do santo…
Contudo, em Portugal, só muito recentemente entrou no calendário comercial e até festivo; até porque até então, sempre houve um Santo António de Lisboa (ou de Pádua) ou mesmo um S. Gonçalo de Amarante que tratavam destas matérias do coração para os mais novos ou já nem por isso…

Histórias
1. O Imperador Cláudio II sabendo que os laços familiares impediam um maior alistamento militar – sendo a constituição de um grande e poderoso exército um dos seus objectivos – proibiu os casamentos.
Contudo, o bispo Valentim, continuou, clandestinamente a realizar essas cerimónias até que foi descoberto e preso.
Na prisão foi recebendo flores e cartas e também a visita da filha do carcereiro, cega, por quem se apaixonou, se apaixonaram, chegando este a escrever-lhe uma carta assinada “do teu Valentim”.
Ela recuperou a visão – o amor tem este poder – mas ele foi decapitado.
Em 496, o Papa Gelásio reservou o dia 14 de Fevereiro ao culto de S. Valentim, mártir, patrono dos namorados.
2. Na Roma Antiga, o 15 de Fevereiro que no calendário romano coincidia com o inicio da primavera, havia a festa pastoril da Lupercália
Na véspera – 14 – colocavam-se em vasos, uns papéis com os nomes das raparigas; desse vaso, tiravam os jovens uns papel, cujo nome de rapariga significava ter sido a escolhida para ser a namorada para a festa.
3.Também esta mesma data, para os Romanos, era dedicada à deusa Juno, rainha de todos os deuses e também deusa das Mulheres e do casamento.
Assim, 14 e 15 de Fevereiro, completavam-se, celebrando o amor e a juventude, o início da Primavera.
4. Os primeiros cristãos (e ao longo de toda a História e na maior diversidade de lugares, onde a colonização Ocidental entrou) sempre tentaram penetrar no campo religioso (e não apenas) com uma conciliação de festas, dando novas roupagens a festejos pagãos que persistiam, procurando assim aceitabilidade, uma estratégia de mais fácil penetração na sociedade, quer na realidade romana, quer de outras populações.
5. As Lupercalia, festa pastoril e a associação à Deusa Juno, com os seus rituais de fertilidade e de apego à juventude, de acasalamento, foram assim sendo transfigurados e adaptados a este patrono S. Valentim, mártir do amor, dos namorados.

No fundo, estas festas pagãs eram a tradução de um conjunto de rituais de passagem e iniciação, de fertilidade e do casamento, qual Primavera, em que se os campos davam toda a sua força às sementes lançadas à terra, ciclicamente, também homens e mulheres se irmanavam num mesmo espírito de renascimento e reprodução.
De facto, temos neste episódio comemorativo, um cruzamento de paganismo e cristianização de festas agrícolas e rituais de passagem.

A associação de S. Valentim aos namorados também só verdadeiramente se concretiza quando a própria sociedade dá um novo conteúdo à palavra amor, enamoramento, já durante a Idade Média.
A comercialização já referida no séc. XIX arrasta para a praça pública actos tidos até então de uma forma mais privada - os cartões assinados pelo punho do “teu Valentim” ou do “queres ser o meu Valentim”, agora mergulhados na imensidão das caixas de chocolate em forma de coração com o Cupido de asas abertas…

O namoro tornou-se assim um objecto de comércio e de criação das mais variadas ofertas que esta sociedade consumista insiste em nos convencer de que se não fizermos o que os outros/as fazem, ficamos mal…
Os telemóveis e internet facilitam contactos até entre regiões distantes onde esse/a candidato/a ao nosso coração se pode encontrar mas o mais importante é ter o cunho pessoal, algo de único. Penso eu.
Certo, certo é que o Principezinho (Antoine de Saint-Éxupery) já tinha reflectido, através do episódio da Raposa, que os homens já se tinham esquecido de criar laços, de cativar. De se cativarem, mutuamente.
Talvez seja essa, afinal, a grande questão.
Criar laços entre as pessoas, cativar para criar lugar no coração.

Mesmo que neste S. Valentim se veja rodeado dos maiores laços e embrulhos, pense numas linhas e escreva uma pequena carta – só é ridículo, como diz o Poeta, quem não escreve!
Ponha na sua letra o nome da sua amada, do seu amado, e embrulhe com um pouco de suspiros e sorrisos e ofereça – porque não? – algo de mais original.
Lembre-se de um simples lenço tradicional de namorados; uma flor que acompanha com o seu beijo; cheire aquela roseira brava que cresce no caminho que a leva até ela/ele ou simplesmente; não poupe palavras e não deixe para amanhã o que pode fazer a diferença, hoje.
Deixe o seu coração bater…

AH! E lembre-se que melhor – melhor que tudo é namorar todos os dias.
Não espere pelo 14 de Fevereiro para ser feliz!

(A crise, qualquer crise, só se vence com alegria no coração, sabia?)


Ana Paula Assunção

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