Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 02-02-2009

SECÇÃO: Crónica

Cabeceiras de Basto na obra de Camilo Castelo Branco (1)

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Parece que quanto mais se fala de Camilo mais o tema se torna inesgotável. Ultimamente tem sido assunto em vários jornais, especialmente do Minho. Apesar de o escritor ser do século dezanove, os seus romances continuam a prender a atenção, mesmo decorridos oito anos neste século vinte e um. Na minha opinião, o encanto das suas obras, deve-se ao seu estilo simples, corredio, directo, frontal, com bastante ironia e alguma provocação para a época. Dava nomes verdadeiros aos lugares e a terras reais onde se inspirava para escrever. Neles escreveu sobre pessoas que existiram de verdade, de caminhos, dos amores correspondidos, de casamentos contrariados, de enredos, de traições, de esperas e sobretudo de adultério. A própria vida de Camilo foi recheada de tristezas, insatisfações, paixões retribuídas umas outras nem tanto, teve casamentos falhados, sofreu mortes prematuras de filhos (o seu filho Jorge morreu de loucura avançada) e a morte do enteado, que por acaso era o herdeiro da casa onde Ana Plácido e Camilo viviam maritalmente.
Pelo que fui lendo e ouvindo, a sua vida não foi muito desafogada relativamente a dinheiro. Teve crises financeiras ao longo da sua vida chegando mesmo a hipotecar algumas vezes as suas obras por necessidade suprema. Certamente que a nível emocional e sentimental teve momentos na sua vida de verdadeiros delírios românticos com algumas finas damas daquela época, que lhe foram trazendo infortúnios e sofrimento. Para escrever os seus romances com aqueles atributos atrás referidos teria que os ter passado e sentido na sua vida.
Se bem recordam a sua vida, pelo menos uma parte dela, até à sua morte, viveu amancebado com uma mulher por quem sofreu e fez sofrer. Temos de realçar que para um homem como Camilo, que passou a sua vida a escrever e vivia da escrita, acabar a sua vida cego ao ponto de precisar de Ana Plácido para passar ao papel tudo o que ele ditava, devia ser um sofrimento atroz. Esse facto viria mesmo a estar na origem do seu suicídio.
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Como já referi aquele que foi marido da Ana Plácido, Pinheiro Alves, esse homem ultrajado na sua honra tinha entretanto morrido, o que de certa maneira tornou a sua existência de amancebados mais aceitáveis aos olhos da sociedade. Viveu em Seide, Famalicão, cerca de trinta anos. Essa casa, hoje transformada em Casa/Museu de Camilo, foi herança deixada por Pinheiro Alves ao filho que tinham desse casamento. Saliente-se aqui que a desditosa Ana Plácido foi praticamente obrigada a casar com Pinheiro Alves. Mas como é sabido, esse casamento não resultou em paixão naquele casal.
Mas esta introdução e considerandos não são bem o meu propósito. Não é sobre os amores deste autor que vou falar, vou sim sobre o que Camilo andou a fazer ou a escrever nesta nossa terra ou nestas Terras de Basto.
Não me canso de dizer que Camilo Castelo Branco foi de entre todos os autores que li até hoje, e li muitos, aquele que mais me emocionou. Desde os meus tenros anos de idade, mais ou menos desde os treze ou catorze anos, quando comecei a ler o meu primeiro livro chamado a “ A Bruxa de Monte Córdova”, que estes escritos despertaram em mim as primeiras emoções da minha adolescência.
Nesse romance Camilo inspira-se nos frades beneditinos que ainda habitavam o mosteiro de S. Miguel de Refojos, onde estiveram até finais de 1834, data em que deixaram de existir as ordens religiosas. Este romance de amor trágico entre um frade infeliz, Frei Tomáz de Aquino, filho de gente fidalga de Basto, do Picoto, Alvite e vizinho da Florinda Angélica. Por acaso o pai do frade Tomás Aquino também era padrinho dela o que mais os aproximou.
Mas hoje não vou alongar-me na desditosa Florinda Angélica. Isso ficará para outra oportunidade. Até vos pedia aqui que procurassem nas papelarias ou bibliotecas o livro da “Bruxa de Monte Córdova” para lerem tudo sobre esta desditosa mulher, porque vale a pena!
Vou dar uma volta às Novelas do Minho, mais propriamente a um pequeno conto chamado “Filho Natural”, também de Camilo Castelo Branco, e transcrever este folhetim, passado em terras de Basto mais propriamente em Cabeceiras.
Talvez muitos de vós, principalmente os mais novos, achem que o escritor Camilo Castelo Branco estará algo ultrapassado para o século em que vivemos, ainda praticamente no início.
Talvez eu seja um pouco exagerada na emoção quando falo de Camilo Castelo Branco. Sim, realmente eu na minha tenra idade não tinha muito para me alargar em escolhas de romances diversos, doutros autores ou até mesmo que me permitissem ler obras de Camilo. Acho que certas obras de Camilo não seriam as mais apropriadas para a minha idade. Não sei. Mas o certo é que eu as li, através da Biblioteca Itinerante da Gulbenkian que se fixava uma vez por semana na nossa Praça da República, no centro do jardim e, onde os alunos das escolas e estudantes do Colégio podíam requisitar livros.
De certeza o que me marcou mais foi sem dúvida a sua maneira de escrever, com histórias com muita intriga, enredo e paixões.
Na minha humilde opinião acho que o romance de Camilo Castelo Branco possui todos os ingredientes que nos poderão levar até onde a nossa imaginação quiser.
Os que não conhecem ou não tiveram a oportunidade para ler algo deste extraordinário escritor, podem fazer o seguinte:
Podem ler através deste jornal a transcrição do pequeno conto de Camilo, chamado “O Filho Natural” cuja história passa por quase todas as freguesias de Cabeceiras e Celorico de Basto. Não resisti! Depois de o tornar a ler achei por bem espevitar a curiosidade dos leitores, para que sintam a necessidade de procurar o livro as “Novelas do Minho” que contém outros contos igualmente interessantes, alguns deles com referências à nossa terra, como é o caso de “Gracejos que matam” onde se pode ler sobre a feira de S. Miguel ou sobre o Arco de Baúlhe.
Que, os leitores, principalmente os cabeceirenses, possam dar asas à imaginação e, “ver” os personagens neste drama ao calcorrearem esses caminhos e lugares que vêm descritos na novela. Só para citar alguns: Pedraça, Ponte de Pé, Painzela, Arco de Baúlhe, etc.
Não é emocionante pensar que esta terra, encravada entre vales e serras teve e tem todos os componentes para inspirar romances, que levaram a grandes paixões? E olhem que eu não falo só das paixões dos livros escritos por mãos sábias, falo também dos amores “reais” dos homens e mulheres desta terra!
Estes livros maravilhosos do Camilo e de outros autores dos séculos passados não podem ficar esquecidos dentro das bibliotecas ou então serem somente visitados por intelectuais, já com bastante idade ou como pessoas como eu, que também já não sendo propriamente uma jovem ainda suspiramos por um romance com final feliz.
Os responsáveis da língua portuguesa têm a “obrigação” de arranjar maneira para despertar interesse na leitura destas obras, quanto mais não seja através do teatro.
Pois então, sem mais delongas e com a devida vénia, aqui vai a transcrição do conto!


O FILHO NATURAL

Camilo Castelo Branco

A Custódio José Vieira

Nada de modéstias.
Ofereço-te este livro para que haja na tua grande biblioteca um livro aproveitável, se não tens os CONTOS de Gonçalo Fernandes Trancoso.

PRIMEIRA PARTE

Os fidalgos de terras de Basto vão-se acabando. Tenho pena e saudades. Aqui há trinta anos, com os brasões e apelidos das famílias heráldicas dentre Vizela e Tâmega recompunha-se a história lendária de Portugal. Quem soubesse ler a simbólica das arrogantes armas encimadas nos portões das quintas, podia leccionar um curso de história pátria com tanta filosofia como fr. Bernardo de Brito e o sr. João Félix Pereira, o das várias faculdades. Em redor daqueles paços senhoriais pesava um silêncio triste e torvo. Era o luto de Portugal de D. João II e de D. Manuel.
Cada portal bojava os seus granitos folhados de acantos, entre dois ciprestes; as legendas dos escudos denegridos e musgosos pareciam inscrições tumulares; por sobre os paquifes dos elmos desgrenhavam suas madeixas os chorões, escurentando as avenidas daqueles solares carrancudos, como se por ali se entrasse para as catacumbas da Ordem 3.a de S. Francisco, na, sobre todas, honrada e pia cidade do Porto.
Não era assim melancólico o viver intestinal daquelas baleias de pedra que pareciam esmoer de papo acima as famílias em soporosa digestão. Se lá dentro as tradições históricas apenas se conservavam em alguns pires e jarras esbeiçadas de louça, que um sétimo avô trouxera da Ásia, a Ideia Nova, que esvoaça na atmosfera como os aromas de todas as flores e os eflúvios de todas as podridões, chegara a terras de Basto, aninhara-se brincando nos açafates das meninas como as andorinhas alegres nas cornijas dos seus palacetes sombrios. A Ideia Nova, que brincava no açafate da costura e no bastidor, era as traduções da Biblioteca Económica, em que a velha virtude e a velha linguagem portuguesa soluçavam os últimos arrancos, nos braços do Feliz Independente do padre Teodoro de Almeida. O romance deu aos corações das senhoras de Basto feitios e jeitos novos, ensinando-lhes o que diz a aurora, o que segredam as transparências cetinosas do arrebol, o que se deve cismar quando as fontes trépidas murmuram, e tudo o mais respectivo a flores, brisas e pássaros.Desde a fundação da monarquia até el-rei D. João VI, o Minho não florejara poetisa conhecida, salvo a viscondessa de Balsemão D. Catarina; porém, desde 1848 a 1860, contam-se por dúzias as cantoras que poisaram gorjeando nos periódicos do tempo com grande riqueza de charadas e muitíssimos Suspiros dignos dos círculos mais lagrimosos do Dante. O amor, que até então fora de frutos, fez-se de flores; a mulher entrou na idealização; obrigou o cavalheiro de Basto a ser psicológico, e a sujeitar-se nos seus desejos amorosos um pouco ao metro e à rima. Foi ela, pois, quem refez o homem, descascando-o, adelgaçando-o, cepilhando-lhe as rudezas, obrigando-o a cantar a xácara dos Dois Renegados. Por este tempo entrou em terras de Basto a caixa de música, e logo depois o manicórdio. Faz agora vinte anos que ali se inaugurou a perfectibilidade lírica: ouviu-se um piano-forte em Cabeceiras e outro na Raposeira. Era o último ponto da craveira nos avanços do progresso. Como Babilónia e Cartago, Basto, refinando em civilização, começou a desandar. Não houve em Refojos nem em Mondim um Catão Censorino que se levantasse, como em Roma, contra a inoculação pestilencial das belas-artes e letras. A poesia e o piano tinham corrompido a terra de Santa Senhorinha.A degeneração do fidalgo de Basto promoveu-a o sistema representativo. O acto eleitoral foi a rampa traiçoeira por onde aqueles partidários do trono absoluto escorregaram à democracia. Verdade é que o sufrágio cedido aos seus correligionários era um sincero sufrágio pelos fiéis defuntos. Os seus enviados ao parlamento sentavam—se venerabundos, cheios de Febo Moniz, com ares de senadores romanos em frente das zombarias daqueles Brenos, que tinham as línguas de Cunha Sotomaior e José Estêvão, cortantes como as achas galo-celtas. Não pediam estradas nem abadias, nem campanário, nem comendas, estavam ali com os ouvidos atentos à espera do que vinha da Rússia. Afinal, o temperamento sanguíneo dos cavalheiros de Basto borbulhou em comichões de novas ideias, e todos eles se coçaram mais ou menos com a carta constitucional. A liberdade vencera; mas as proeminências congénitas daquela plêiade de Bayards, quase todos capitães-mores, desvaneceram-se nas brumas da epopeia, que nunca mais terá pessoa em que pegue naquela região onde já não há tradição da velha tirania dos patíbulos, excepto o vinho que ainda é de enforcado.    
       
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Um dos mancebos mais completos por património, nascimento e gentileza, no concelho de Celorico, era o fidalgo de Agilde, Vasco Pereira Marramaque, vigésimo terceiro neto de Gonçalo Mendes, o Lidador. Se eu tivesse de ir, ao arrepio, na peugada genealógica deste sujeito, encontrava-me com o macaco de Darwin. É família muito antiga a dos Marramaques, – são anteriores à história e talvez aos macacos. E, se me não falha a conta dos avós apurados nesta linhagem, o dilúvio universal está desmentido.Vasco era um rapaz moderno então. Em 1846 tinha 23 anos, e trocava costaneiras genealógicas encadernadas em vitela por canastras de romances de Arlincourt e Eugéne Sue.

(Continua)
fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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