Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-01-2009

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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Eusébio Macário (IV)

São Tiago da Faia está em festa. Chegava o Comendador Bento José Pereira Montalegre, barrosão, irmão da Felícia, criada para todo o serviço do Padre Justino. O comendador tinha como única família a Felícia e queria que ela tivesse ido para o Brasil, para Vassouras, “que quero casar aqui bem ela”. Felícia negou-se: “ que ela devia muitas obrigações ao senhor abade de S. Tiago da Faia, que lhe estava governando a casa; que ele era doente, sem família, e não o podia deixar assim.” Evidentemente quem escrevia a carta era Eusébio, que era ditada pelo abade. E, de repente, o irmão resolveu regressar a Portugal. Felícia ficou atormentada. O irmão ia descobrir tudo, “se ele desconfiaria do que havia; se lhe contariam a sua vida; com que cara havia de aparecer-lhe.” O abade respondia-lhe: “com a cara que tens; faz como eu; se não estiver bem, mude-se; estás na tua casa; recebe-o com agrado; se ele te cantar, canta-lhe; eu cá, de portas adentro, pregadores de moral só admito um: sou eu.”
Felícia lembrava a sua vida: “Lembrava-se que podia estar casada, ter os seus filhos, a sua casa, comprar terras, ter a sua égua com andilhas, ir às feiras e romarias com chapéu de homem e véu de fita azul. (…) Depois, o seu padre Justino, primeiro com a Canelas, depois com as outras, andara desencabrestado. Ia para Celorico para casa da fidalga do Castelo, uma viúva gaiteira, muito madura, mas com durezas de verde, como as frutas de madureiro, sorvadas.” Queixava-se à Custódia: “A culpada fui eu; enguiçou-me este homem; foi o demo que me apareceu, Deus me perdoe.”
Mas o brasileiro estava a chegar. Eusébio e Felícia foram buscá-lo ao Arco de Baúlhe. Enquanto as mulas os transportavam para a abadia, a uma légua do Arco e a umas perguntas meio indiscretas do brasileiro, Eusébio retorquia com elogios à Felícia: “toda a freguesia a respeitava como se ela fosse irmã do senhor abade” e que ele, o senhor abade “também a tratava sempre como parenta e não como criada”. E o brasileiro queria saber:
- E o abade é éxempélar? (…) É bom cristão?
- Sim…ele…é filósofo também; mas não deixa de ser um bom cristão…
E o outro conciso e apressado:
- Os créditos da mana Felícia não padecem, hem?
- Nada. Como irmãos. Quem disser o contrário, mente.
Mas estamos agora à porta da residência paroquial de Faia:
“Havia uma estrumeira de mato fofo antes de chegar à porta da residência. O comendador olhava para os espinhos do tojo com a estranheza aterrada do primeiro nauta que avistou o cabo tormentório. O verniz das botas delira-lhe dos pés a memória do bravio que calcara na infância (…) Ao cabo da estrumeira, coberta de latada espessa, de onde pendiam cachos rochos afestoados de uva garrafal, havia o portão vermelho, com frisos apainelados, do quinteiro da casa do abade. As portadas estavam escancaradas; e na luz esverdeada do interior, coada pela folhagem das parreiras, recortava-se direita, elegante, sobre o limiar do portão, a filha de Eusébio. (…) Ah! – fez o comendador – Muito catita! É a primeira moça galante que mi aparece no Minho. – É sãzinha, graças a Deus – voltou Eusébio, comedido, modesto”.
O comendador instalara-se em casa do abade Justino:
“O comendador Bento achou-se bem, alegre, bom enxergão de lã de carneiro, a mesa farta, o leitão, o capão, o peru, o chouriço, o lombo do porco de vinho e alho, o pato, leite puro de cabra, frutas ricas, o belo pêssego de Amarante, morcelas de Guimarães e pastéis de Joaninha, frigideiras de Braga, e o vinho verde de Basto, que lhe refrigerava os ardores internos e desopilava o baço.”
É preciso aproveitar os seiscentos contos fortes do brasileiro. Eusébio espicaça a filha: “Rico como um porco; olha se me percebes, Custódia…Muita léria para léria, muito palavreado, mas aguenta-te, ouviste?”
Já o irmão Fístula espicaçava-lhe a ambição: “Que pechincha! Seiscentos contos fortes, milhão e meio! Se casasses com este brasileiro eras a mulher mais rica desta comarca, e talvez da província.” O brasileiro pensava em deixar nome na história. Mostrava-se por Basto. Comprara uns bons cavalos na “feira de São Miguel na Ponte de Pé” e “queria comprar o mosteiro de Refojos”.
E, com o tempo, o comendador caíu de beicinho pela Custódia.
Mas o comendador começou a pensar nuns planos desonestos com a Custódia. Velhaco, gizara “levar consigo a mana Felícia para o Porto, onde mandaria edificar um palacete”, projectando que “a irmã convidasse a Custódia para a sua casa no Porto, honestando assim a passagem da botica para o palacete. Depois – cuidava – ela, o irmão, o pai, todos se acomodariam fácilmente com jantares fortes, presentes, teatros, um passeio a Paris, um Inverno em Lisboa, fazer figura na Foz, em Vizela, no Jardim de São Lázaro, nos cavalinhos, enfim, dinheiro, muito dinheiro. Mas, bom homem – obrigara-se, de si consigo, em consciência, honradamente, prodigamente, dotá-la, quando se fartasse dela, com uma dúzia de contos, se ela pudesse disputar pureza com as estrelas”.
Só lhe não dava a mão de esposo.
“Abrira-se com o abade, consultava-o - Qua tal? Que lhe parecia?
E o abade risonho:
- Arranje a sua vida; mas, comendador, parece-me que vai barrado. A rapariga é patusca, estroineta, gosta de derriço; mas, para o mais, não anda; quero dizer - não tem andado até ao presente. Canta, dança nas eiras e nas romarias, muita festa para a festa, muita chalaça, pinta aí a manta que tem diabo, e fica-se em vinte – sete para não passar. Andou-lhe aí na peugada o estudante do Cosme dois anos: cartinhas, presentes, muita léria, até lhe mandou de Coimbra versalhada. Um dia quiz-lhe deitar o gatázio, e ela, amigo e senhor meu, apontou-lhe para a igreja como quem diz: - se me quer amar à unha, case comigo.”
E o comendador resolve pedir em casamento Custódia, a filha do boticário, no dia em que a jovem comemorava o seu 23º aniversário. E pode V. Sª crer, “o dia do 23º ano de Custódia tarde esquecerá naquelas terras de Basto, económicas, pacatinhas. (…) Bento mandou à Lixa buscar uma carga de fogo preso, bombas reais, foguetes de lágrimas, o par de velhos arreitados que giram com muitos gestos impetuosos na roda acesa e estoiram; o barbeiro a amolar na mó que espirra faúlhas, e rebenta em fumarada negra, deixando a arder o seu arcaboiço de canas e gravatos. Contratara a música do Arco, quinze figuras, afora três caixas e o zaburuba, muito famoso da Ponte de Pé”.
À festa vieram “ alguns vigários, alguns lavradores abastados, o doutor de Abadim, um major antigo e todos os brasileiros” das redondezas.
Tomemos nota da figura do Doutor de Abadim, que está na festa para que fora convidado, dado que o comendador lhe pretendia comprar o prazo do Rabaçal, “uma quinta de casa solarenga do século XV, edificada sobre as ruínas de outra em que vivera no século IX ou X, Santa Senhorinha e São Gervásio de quem ele se dizia parente” : É um “fidalgo velho (…) que tinha deixado a magistratura, quando o seu amigo Conde de Basto caiu. Conservava os ademanes, a linha, o aprumo fidalgo que trouxera da corte de D. Carlota Joaquina. Teria setenta anos pouco avelados na vida serena e sadia da aldeia. (…) Era epigramático, mas tão fino e amorável nas ironias que não desgostava ninguém”.
Já ao café o comendador meteu no dedo mendinho da Custódia um anel de três brilhantes que lhe custaram duzentas e cinquenta libras esterlinas, dizendo:
- Receba a sinhá meu ánel de noivado.

*

Fora assinado o decreto que elevava o comendador a barão do Rabaçal. Decidiu arranjar casa no Porto e levar a irmã Felícia. O abade não podia decentemente estorvar que a Felícia acompanhasse o irmão. Ela, de contente, não cabia na pele”. Via-se já uma senhora de vestino de merino e “chapéu de cetim cor-de-rosa com plumas brancas e grinalda de rosas-chá, e mais o xaile de tonquim amarelo com cercadura e franja de flores escarlates”, calçada com “sapatos de duraque (…) muito esparramados, sem tacão, com fitas de seda para cruzarem a perna”. O abade começou a lançar o olho à Eufémia Troncha, uma boa substituta da Felícia. Esta que já estava no Porto tratando de montar a casa do irmão Bento “encavacara com a notícia” da nova paixão do padre e “achava pouca-vergonha que o abade, apenas ela voltou costas, se arranjasse comodamente com a Eufémia, uma franduna de balão e espartilhos, que dava de olho a todos os morgados de Basto, e os esfolava, pondo-lhes a pele a juros por causa dos lavradores”.
Chegara a Primavera e vai-se celebrar o casamento e os noivos vão viver para o Porto. O comendador leva a irmã Felícia e convence Macário e o filho Fístula a abandonarem S. Tiago de Faia, arrendando a botica e irem viver para o palacete do Poço das Patas. Até o padre Justino terá um quarto reservado na casa, separado do de Felícia por 55 degraus. Estão todos agora no Porto. Novas personagens vão aparecer: “A Pascoela, mulher do Trigueiras, doida garantida, de repica-ponto, com muito ar, mestra em cornudagens”, A D. Nazaré, uma bela alma, filha do morgado de Agunchos, os respectivos maridos, o cirurgião Viegas e tantos outros. Em S. Tiago da Faia só ficou o padre Justino. Mas não por muito tempo. Ele um dia também vai para o Porto, ver novamente toda aquela “Corja”. Somente Eusébio voltará um dia para as berças, para S. Tiago da Faia. Voltaremos a encontrar-nos nessa ocasião.
Agora, que se faz tarde, pois que a Angélica Florinda já desceu de Alvite e vai a entrar na igreja do mosteiro de S. Miguel de Refojos.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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