Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 12-01-2009

SECÇÃO: Opinião

O GANHA-PÃO DOS POBRES

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Continuemos com o tema do trabalho anterior a que demos o título de “ o ganha-pão dos pobres.”
Porque noutros tempos, eram sempre as pessoas de menores recursos os ditos pobres a executar os trabalhos mais mal pagos que convertidos em pão não passavam de simples migalhas. A Europa vivia o auge da segunda grande guerra que também se sentia no nosso país. Havia bens racionados e a miséria rondava diariamente a vida de muitas famílias que por vezes só comiam broa seca e caldo de labrestos e então botavam mão a qualquer trabalhinho para poder sobreviver.
Os Mineiros: - Os tempos mudaram e hoje já não há mineiros à moda antiga, daqueles que suportaram os rigores duma profissão dura e perigosa quer fosse a fazer minas ou abrir poços. Nas minas o trabalho era feito de gatas e de joelhos à picareta e à enxada que arrastava a terra até à boca da mina. Os poços eram abertos na vertical ao contrário das minas e a terra era extraída através dum sarilho previamente colocado na boca do poça e a terra lá era tirada com uma corda e um balde dia-após-dia até aparecer água.
O Capador: - Nos meus tempos de rapazinho o capador era para os miúdos uma figura sinistra porque os marmanjões grandes ao ouvir o seu realejo metiam-nos medo dizendo; fujam que ele vai vos capar!.. e nós os putos protegendo o que tinhamos acima dos joelhos fugiamos a sete pés. O capador era o homem que andava de casa em casa à procura de porcos pequenos para capar. Fazia-lhes um corte, tirava os grãos lavava com água e sabão para desinfectar e terminava o trabalho cozendo com agulha e linha o respectivo corte. Era um ganha-pão como outro qualquer.
O Moleiro: - Em tempos não muito distantes o pão de milho era praticamente o alimento base de quase toda a gente, daí a grande importância que essas pequenas casinhas a que chamavam moinhos tiveram na vida dos povos durante muitas gerações. Eles continuam a existir mas todos em grande estado de degradação porque o povo de agora porque deles não precisa depressa se esqueceu da importância que eles outrora tiveram nas suas vidas. A meu ver deviam ser preservados pelas autarquias como símbolos do passado. Quanto aos moleiros eram figuras respeitadas como parte integrante duma comunidade, e as pessoas da minha geração foram muitas as que com regularidade visitavam o moleiro com a taleiguinha de milho às costas ou à cabeça para transformar em farinha.
O Resineiro: - Resineiro é casado – É casado e tem mulher – Ó ió ai eu hei-de ir á terra dele – Ó ió ai quantas vezes eu quizer…. Quem de nós ainda não cantou esta bonita cantiga?... Certamente todos. Por cá já não se vê resineiros, porém; ainda os há por outras bandas só que agora usam sacos de plástico para aparar a resina escorrida dos pinheiros, enquanto noutros tempos usavam vasos de barro que às vezes a miudagem vandalizavam para pegar fogo. Com o seu machadinho próprio faziam com grande destreza um corte no pinheiro onde colocavam um taco em madeira como suporte do vaso e uma tira de chapa curva que encaminhava a resina para dentro do vaso. Nunca pude imaginar que tantos anos depois eu viria a gastar toneladas de resina na fabricação de pastas abrasivas para polimento de metais.
O Sarreiro – Talvez muita gente nem saiba o que foi um sarreiro!... Pois bem; o sarreiro era o homem que andava pelas aldeias mais propriamente pelas quintas dos grandes lavradores que tinham grandes tonéis a raspar as borras secas de restos de vinho que ficava dum ano para o outro. Munido de ferramenta apropriada tirava a portinhola do tonel entrava lá dentro e raspava o sarro muito bem até deixar a vasilha limpa para receber nova remessa de vinho. Levava consigo o sarro para depois vender não sei a quem nem para quê.
O Azeiteiro – Como o termo me parece um pouco depreciativo vamos antes chamar-lhe vendedor de azeite. Esta personagem com o seu cavalo carregado com depósitos de azeite e petróleo andava pelas casas a vender o seu produto. Era um negócio de tostões, mas grão-a-grão a galinha enche o papo e foi assim que alguém arranjou uma razoável fortuna, segundo consta.
O Engraxador – Já não há Pimenta nem João Pi-Pi, agora quem quizer os sapatos engraxados terá que os engraxar porque já ninguém quer esse trabalho, as caixas, as escovas e o pano de dar lustro desapareceram por todo o lado e não há quem as veja. Contudo ainda conheço um engraxador à moda antiga que tem o seu posto de trabalho no Via Catarina – Porto no último piso.
Além das profissões já citadas, outras havia que aos poucos foram desaparecendo conforme a modernização ia entrando nos nossos hábitos tais como; sardinheiras, padeiras, leiteiras, cerzideiras, ceiteiras, apanhadeira de malhas e outras que de momento não me vêm à memória.
E foi essa gente que sofreu na carne as vicissitudes duma vida cruel para que hoje os seus descendentes possam ter uma vida melhor.

Por: Alexandre Teixeira

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