Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 22-12-2008

SECÇÃO: Recordar é viver

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CURIOSIDADES (5)
Honra e Glória

Conclusão
Amigos, hoje vou dar por concluídos estes artigos, com o título Curiosidades, sobre as Intentonas Monárquicas.
Nesta conclusão vou fazer a transcrição do texto que vem na revista “Ilustração Portuguesa”, onde fala dos heróis que defenderam a República.
Ao transcrever este facto histórico acontecido em 1911/12 venho, de certa maneira, prestar justiça aos heróis que morreram a defender a sua Pátria.
Quando falo muito sobre o Padre Domingos Pereira é naquele sentido do facto histórico, passado na nossa terra, na nossa freguesia, no lugar da Raposeira. Falo dele por ter conhecido e convivido com a filha dele, a D. Clotilde Pacheco, era eu uma menina aí dos onze ou doze anos talvez. Convivi com os bisnetos, de Chacim, filhos do senhor Carlos Paula Pereira, aposentado da Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto. Com quem convivi bastante foi com a sua filha a Arquitecta Helena, minha colega do Colégio de S. Miguel de Refojos.
Não sou fã de guerrilheiros mas, para ser sincera, tenho que admitir que por causa deste e doutros padres revoltosos, Cabeceiras de Basto ficou conhecida em todo o Portugal. Onde quer que fossemos só ouvia-mos uma frase “Há, são da terra do Padre Domingos”. Mal ou bem e já passados para outro século, toda esta história à volta da revolução Monárquica em Cabeceiras de Basto criou um facto histórico importante, até uma certa dose de romance, de magia, não é verdade?
Vou transcrever o texto tal e qual como foi escrito no ano de 1912. Como vão poder verificar muitas das palavras já não se usam, ou nos tempos de hoje têm outra grafia. Mas como faço aqui uma viagem ao passado tenho que respeitar a maneira de se escrever de outrora.
Então com a devida vénia, aqui fica a transcrição:
“A tentativa realista, que tinha elementos em diversas terras do paiz, municiada e formada no estrangeiro, veiu mostrar como no fundo de todos nós vive uma alma de soldado e como sentimos sempre o desprezo pela vida na hora em que assaltam a nossa terra, e nos pretendem ferir no que temos de mais sagrado como é a nossa independência política. Paiva Couceiro assomou com as suas hostes na orla da raia, entrou com cumplicidades, cercou, ameaçou praças; os seus caudilhos apareceram n’outros lados com espadas forjadas na terra estranha, com espingardas da terra estranha vindas. E então, enquanto os sinos tocavam os rebates nas aldeias, a multidão, a gente mais humilde, a que não se deixará fanatizar correu ansiosa a pedir a sua espingarda e foi bater-se. Os regimentos saíram dos quartéis entre aplausos, entre vivas e os populares seguiram-nos com os olhos fitos na nova bandeira que o paiz escolheu. Houve homens do povo que se meteram entre os soldados e foram partilhando do seu pão com a esperança de que lhes entregassem uma arma para combater; outros acorreram a oferecer-se; formaram-se grupos para irem defender a fronteira e d’esta multidão que parece por vezes indiferente e apática saiu uma legião.
É o milagre d’uma raça a resurgir, a galvanisar-se no mesmo frémito, no mesmo entusiasmo: são milhares de bocas pedindo espingardas ao som do refrain épico da Portugueza:
Os amigos dedicados que acompanhavam o  malogrado administrador do concelho, Mendonça Barreto,  poucos momentos antes das descargas e que foram os primeiros alvejados: Gracio Ferreira, professor; Ernesto Pereira Leites Bastos, Januário Leite Bastos
Os amigos dedicados que acompanhavam o malogrado administrador do concelho, Mendonça Barreto, poucos momentos antes das descargas e que foram os primeiros alvejados: Gracio Ferreira, professor; Ernesto Pereira Leites Bastos, Januário Leite Bastos
Contra os canhões marchar
E eles, os humildes, os pobres, os que envergam a farda e os que não a teem , lá vão marchando á sombra da bandeira com os seus bravos oficiaes, cheios da ancia de combater.
Iamos aqui fazendo a nossa vida, levando-a em desejos d’uma pura regeneração; feita a Republica, tratava-se de a amparar e de a fortalecer. Das nossas lutas saía sempre impoluta, sempre pura a republica. Atacavam-se os homens, salvava-se a idéa. N’um repente viu-se como apenas ela existia. Bastou que um bando aflorasse na terra portugueza, arrastando artilharia, buscando impôr-se , procurando vencer, violando o direito das gentes, perturbando o sentir nacional. Logo todos se uniram e, quando os primeiros tiros se dispararam, os corações portuguezes sentiram rudemente o seu eco. Foi como se dentro d’eles acordassem todas as velhas recordações guerreiras que fez d’este povo uma legião heróica. Surgiu a mais estreita solidariedade; os braços ergueram-se a pedir com que rechassar inimigos e em todos os pontos onde eles apareceram lá estavam patriotas para os repelir. Punhados de soldados novos, recrutas da véspera, filhos do povo que entraram nas fileiras há mezes, foram cantando para a guerra. E que tristeza funda nos que ficaram! Que desolação nos que não eram necessários!
Os oficiaes do exército anciavam por partir contra os invasores mas atraz de si, bravamente, com palavras de puro entusiasmo nos lábios, as multidões apareciam. Como é consolador constatar este facto, como é belo sentir que somos bem um povo que ao menor alarme tudo sacrifica pela integridade da sua pátria!
As mães viram os filhos nas fileiras e, se os seus corações sentiam o terror de os ver na luta, os seus olhos só choraram às escondidas para não os desencorajar. E isto não foi só nas cidades onde o espírito democrático se arreigou mais, foi também nos campos. É que toda aquela gente, o campónio como o citadino, o analfabeto como o letrado, sentiu que corria a defender a sua pátria, as suas fronteiras violadas.
É assim uma epopéa; é assim uma afirmação soberba de um arranco cheio de lealdade, cheio de patriotismo. Renasce-se; revive-se. Quando um povo se levanta assim sem uma hesitação, quando uma maioria se ergueu como vimos agora, está-se n’uma terra que não póde falecer.
Cabeceiras de Basto - Um trecho da vila
Cabeceiras de Basto - Um trecho da vila
As aldeias mais mesquinhas viram passar os regimentos e saudaram-nos com a mesma loucura, com a mesma ternura. O soldado foi o amigo; o o civil que seguia o irmão querido.
N’estas horas febris em que os corações batem mais depressa é que se analisa o fundo d’uma raça; Portugal está dando exemplo de firmeza e de coerência.
Os soldadinhos bisonhos e trigueiros que Napoleão dizia serem os melhores do mundo, a quem durante dias entregou a guarda de Paris, no tempo da sua epopéa, eles que há um século dormem pelos vastos campos da Europa onde o guerreiro os conduziu ou nas sepulturas da nossa terra onde bateram o génio do grande general, teem agora os seus dignos descendentes nos netos que vão defender a fronteira como heroes, como amanhã, levados ás maiores batalhas, seriam sempre os primeiros.
Sempre houve nas almas lusitanas uma ancia de independência, uma sede de libertação que se afirmou com as hostes romanas, com as mesnadas de Castela, com os rancezes em todas as horas de perigo, agora d’uma maneira brava mais uma vez afirmada.
Paiva Couceiro veiu da terra estrangeira em pé de guerra com os seus caudilhos, os seus padres, os seus apaniguados e encontrou a dar-lhe combate, a repeli-lo, a reprovar o seu ato não apenas regimentos, soldados, oficiaes, mas um paiz inteiro ao som da Portuguesa que é o hino da pátria que se pretendia violentar.
Portugal, com taes filhos, póde esperar, póde confiar. Achou-se o valor do passado, há de caminhar-se no futuro!
Alguns homens do povo em Cabeceiras de Basto amotinaram-se e foram para os montes de combinação com a gente de Paiva Couceiro, alvejando a tiro alguns dedicados republicanos e o administrador do concelho sr. João de Mendonça Barreto que ficou morto. Tomaram conta da vila, conduzidos pelo Padre Domingos e ali estiveram fazendo todos os atropelos até que diante das forças republicanas foram obrigados a retirar para as cercanias onde lhes foi dada caça.
As casas dos chefes realistas padres Domingos e Manuel no logar da Rapozeira foram queimadas; ficaram apenas as suas paredes atestando a cólera d’uma parte do povo contra eles. Um taberneiro envenenou o vinho que os soldados republicanos deviam beber. Pouco tempo depois a vida de Cabeceiras de Basto, logo que as tropas fieis entraram na vila, normalisou-se e a gente da terra foi vendendo no seu mercado os produtos aos militares e juntando-se com eles n’uma fraternisação bem afirmada na manifestação feita por ocasião da derrota de Couceiro.”

fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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