Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

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SECÇÃO: Opinião

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O GANHA-PÃO DOS POBRES

Recuando no tempo, as pessoas da minha geração lembram-se certamente o quanto era difícil a vida para a grande maioria do povo.
Como a necessidade aguça o engenho muita dessa gente apegava-se às mais variadas actividades para ganhar uns pataquinhos que eram afinal a fonte do seu sustento e da sua família.
Vamos então tentar avivar as nossas memórias através de algumas actividades que noutros tempos foram o ganha-pão de muitos pobres.
Os Almocreves:- Eram homens condutores de bestas de carga (mulas) que transportavam qualquer tipo de mercadoria a partir dos centros para as aldeias mais remotas de difícil acesso. No regresso as mulas vinham novamente carregadas com coisas que se produziam nessas terras como; centeio, batatas, carvão e até bagagens de pessoas em trânsito para as grandes cidades.
As mulas eram animais muito semelhantes ao cavalo, mas muito resistentes para esse tipo de trabalho.
Que eu saiba a última almocreve da região era uma senhora ali para os lados de Cavez só que a dita senhora em vez de mulas utilizava jericos para o transporte das suas mercadorias.Essa corajosa mulher que diariamente carregava a cruz a caminho do calvário das serras ainda lhe restava tempo para criar uma catrefada de filhos sustentados com o pão amargo da vida.
O Guardasoleiro: -Lembram-se?... Era aquele homem que andava de casa em casa com uma caixota às costas onde trazia as ferramentas rudimentares e guarda-chuvas velhos de onde tirava acessórios para fazer reparações é que ter guarda-chuva nesse tempo ainda não estava ao alcance de todos.
Paralelamente o homem também reparava loiça estalada, pratos travessas terrinas, etc. De cada lado da rachadela fazia uns furinhos com uma sovela e aplicava uns grampos de arame.Acontecia que com o tempo os arames ganhavam ferrugem e como a loiça nem sempre bem lavada ia ganhando lixo nas minúsculas cavidades dando assim à vista um aspecto pouco agradável, mas; era assim antigamente…
O Peliqueiro: - Era outra figura típica e popular dos meus tempos de criança. Lá longe já se ouvia o pregão do peliqueiro. “Quem tem peles de coelho pra vender? E nós os putos iamos ao encontro dele para perguntar?... E se for coelha?
Amavelmente o homem respondia, “se for de coelha também vão. Na verdade o peliqueiro comprava tudo que fossem peles até de anho e cabrito, só que comer carne desses animais era privilégio dos mais endinheirados porque os pobres quando os tinham passavam-nos a patacos para comprar bens de primeira necessidade. Com o seu andar pachorento lá ia o peliqueiro com um grande molho de peles às costas roçando as silvas das apertadas Quelhas sempre acompanhado por uma legião de moscas e entoando o seu pregão. “Quem tem peles de coelho pra vender “?... À noite vergado ao peso do incómodo carreto chegava a casa onde o esperava o lume aceso e uma malga de caldo de couves engrossado com broa esfarelada e regado com um golinho de vinho. Pois pois, era assim antigamente!...
Os Carvoeiros: - Com a chegada dos ex-residentes do Ultramar as churrasqueiras proliferaram por tudo quanto é sítio. Daí, o carvão tornou-se rei no reino das churrasqueiras e a sua produção passou a ser industrializada com recurso a outros países. Mas os carvoeiros doutros tempos comeram o pão que o diabo amassou. Com as caras enfarruscadas passavam o ano inteiro a fingir de mascarados.
De manhã de manhãzinha lá iam serra acima fabricar carvão. Às costas o enxadão o gadanho a picareta e o cutelo a fim de arrancar das entranhas da terra a tão preciosa urgueira que dava óptimo carvão. Essa urgueira era posta em covas arredondadas e antes de ser carvão primeiro era fogueira. Depois de queimada era abafada com terra e só depois passada ao gadanho para separar a terra do carvão.
Ensacado em sacos do bacalhau era trazido para as aldeias onde era vendidos aos ferreiros e ferradores para alimentar as forjas e em alguns casos para as lareiras dos ricos. Pago por uma ninharia que às vezes com sorte dava para uma fornada de pão e um quarteirão de sardinhas.
Os Serradores: - Era eu ainda muito pequeno mas ficou-me bem gravado na memória o trabalho esforçado desses homens. Os toros de madeira já preparados e sem casca eram marcados com uma espécie de fio blue ou seja um cordel embebido em cinza molhada para marcar a espessura da tábua e depois rebolado para cima dum palanque onde era iniciada a serragem.
Então os serradores munidos de uma grande serra vertical um em cima do palanque e o outro em baixo executavam de forma treinada sempre o mesmo gesto para cima e para baixo desde manhã até à noite. Por vezes com o rosto alagado em suor e misturado com serrim a ponto de lhe toldar a vista.
A geira desse trabalho braçal era paga com dez reis de mel coado mas, quando a fome aperta não há ruim pão.

Por: Alexandre Teixeira

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