Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 01-12-2008

SECÇÃO: Opinião

A PARTEIRA DO POVO

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Maria da Conceição Alves Teixeira, nasceu na Vila de Cavez no ano de 1883 onde viveu toda a sua vida, e aí faleceu em 1965 com 82 anos. Filha do mestre de pedreiros Manuel Joaquim Teixeira e de sua mulher Teresa Alves Boticas.
Era uma rapariga de pele trigueira, cabelos negros aos caracóis e temperamento ladino. Muito cedo mostrou vocação para aprender a tocar viola e cedo começou a acompanhar os seus irmãos um dos quais veio a ser o meu pai Sebastião Teixeira que também arranhava qualquer coisa as cordas duma guitarra. Em grupo e pela calada da noite iam fazer serenatas às donzelas de Cavez. As serenatas não teriam grande qualidade artística, mas por sua vez as donzelas também não eram muito exigentes.
Essas recatadas donzelas ao ouvirem a serenata timidamente abriam a janela de mansinho para ouvir canções de amor.
A minha tia Micas foi crescendo e fez-se mulher. Não sei com quem teria aprendido a arte de aparar crianças, era esse o termo usado quando se tratava de partos.
Aos poucos e tal era a sua apetência para esse tipo de ofício que se foi firmando como uma parteira reputada que até veio a merecer a confiança do Dr. Camilo da Casa da Venda com quem por vezes trabalhava em parceria.
A tia Micas nunca cobrava nada pelo seu trabalho, apesar de ter aparado muitíssimas crianças. Só de minha casa foram oito. Calcorreava caminhos de noite ou de dia à chuva ao vento ao frio às escuras lá ia ela em missão sacerdotal socorrer as pobres mulheres que estavam para dar à luz. Ás vezes lá vinha uma que lhe dava uma prendinha apenas com valor estimativo. Outras aquando do baptizado do rapelho davam-lhe vinte e cinco tostões e outras ainda que não davam nada porque eram tão pobres que nada tinham para dar.
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Consigo levava sempre os apetrechos necessário, uma tesoura um rolo de atilho para amarrar o umbigo e um irrigador caso fosse preciso lavar a mulher por dentro quando havia suspeitas de infecção.
Chegada a casa da parturiente logo via o grau de dilatação. Se o parto estava para breve, mandava aquecer água num pote, pedia uma bacia e um pano branco. Depois dava instruções à parturiente quanto à forma de provocar os puxos. Logo que a criança nascia era pendurada de cabeça para baixo e se não chorava era certo que levava no rabinho as sapatadinhas da ordem. O acto seguinte era lavar a criança e a mãe e depois tia Micas voltava para casa feliz por ter aparado mais uma criança.
Mas, nem tudo por vezes corria bem, surgiam partos tão difíceis que só a sua longa experiência conseguia resolver.
Um dia uma mulher estava para dar à luz, sem medir as consequências foi chamada uma curiosa para assistir ao parto, a dada altura quando a criança já tinha a cabeça de fora a mulher desata a gritar… ai meu Deus que ele já tem as tripas de fora!... Foram apressadamente chamar a senhora Micas, venha depressa pelas suas alminhas…
A tia Micas lá foi e ao chegar viu que a criança trazia o cordão umbilical à volta do pescoço virou-se para a outra e disse: à minha parteira de merda que matavas a criança, sai daqui e não te metas. Pouco tempo depois a criança nascia muito maltratado mas com vida.
Outro caso foi quando uma menina ao nascer vinha com uma mão à frente, foi um parto difícil mas a parteira Micas com a sua experiência lá resolveu tão melindrosa situação.
Chamada a mais um parto, seria mais um entre tantos só que dessa vez o bebé vinha com os pés à frente e tal com os anteriores o caso foi resolvido.
Contudo há sempre mais um caso a juntar a tantos outros. Desta feita tratou-se de uma mulher que apesar da dilatação total a criança não nascia. Depois de ter feito tudo o que sabia a parteira Tia Micas optou por aumentar um pouco a abertura no sexo da mulher. Munida de um objecto cortante devidamente desinfectado fez o respectivo rasgo e assim veio ao mundo mais um ser humano.
A Tia Micas foi sempre encorajado pelo seu marido o Tio Albino que nunca regateou as suas ausências em trabalhos de parto.
O testemunho destes factos foi-me relatado pela sua filha Rosalina que sempre viveu com os pais e ainda hoje vive na casinha que lhes pertenceu.
Um dia o imprevisto aconteceu a Tia Micas acamou e no seu leito de dor se manteve durante onze anos e meio até que a morte chegou e a levou…
Morreu aos 82 anos, tendo deixado um legado de grande amor e dedicação pela causa da mulher parturiente da sua terra natal.
Baixou à sepultura de forma simples e modesta, tão modesta e simples quanto foi a sua vida como “Parteira do Povo”.

Por: Alexandre Teixeira

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