Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 01-12-2008

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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Eusébio Macário (II)

Camilo apresenta-nos o Padre Justino de Padornelos já pároco da povoação onde reside Eusébio, mas não diz qual é esta. Mas ao menos ficamos logo a saber donde é natural o padre: é de Padornelos, no Barroso, como diz numa página mais adiante. Engraçado que também Ferreira de Castro vai usar a mesma aldeia de Padornelos, nas faldas da serra do Larouco, na área do concelho de Montalegre, como cenário principal do seu romance “A Terra Fria”. O padre era o parceiro de Eusébio no gamão e nas damas, que jogavam a pataco, “um patusco, com chalaça, egresso domínico,o padre Justino de Padornelos. Tinha menos de quarenta anos, muito gasto e poído dos atritos sensuais, comido de vícios, com os fluidos nervosos degenerados e as articulações perras de reumatismo e outros ataques contingentes de sangue depauperado”. Eusébio dava-lhe e muito para a cura: “Vinho do Porto – dizia categórico – pingas do velho, e carne assada na brasa para esse bucho quanta lá couber; e sopas de vinho, e de femeaço pouco – concluía e piscava o olho esquerdo. “
Vivia com a Felícia que o tratava da gota. Era uma barrosã como ele que Camilo descreve assim: “Era uma mulheraça frescalhona, de uma coloração sanguínea, anafada, ancas salientes, de trinta e cinco anos, muito lavada, a cheirar às frescuras do linho perfumado de alfazema. Ela amoriscara-se do padre, quando ele, no viço dos anos, saiu do convento, tomando para si todas as liberdades permitidas pela Carta.”
A partir de aqui a história do Padre e da Felícia confundem-se. “Ele tinha pai, um trôpego que fora valente jogador de pau, e matara, quando era rapaz, um puxador muito bazófia de Cerva, na sanguinária romaria de S. Bartolomeu”. “(…) Felícia (…) estava a servir; não sabia a idade; dizia que nascera no tempo das castanhas, e que seu pai era miliciano de Chaves”. O futuro padre “tinha sido forte, grosso, feito na orelha suína e nos farináceos da sua aldeia; (…) criara-se nas leiras que escorregam pelas espáduas dos montes, retouçava-se nos fenos como os lobos fartos, e aos dezoito anos uivava pelas fêmeas como os fulvos leões hircânios”. Ela, “andaria nos dezasseis e parecia de carne petrificada, rija com uma frialdade de metal fundido, e nenhumas morbidezas feminis (…). Era possante, não se deixava abraçar, e um dia cascara com um engaço num oficial de diligências de Montalegre que lhe apalpara a polpa de um braço”.
O pai de Justino pô-lo no Convento dos Dominicanos de Guimarães: “ remorsos tardios encaneceram-no quando adiante do espectro da morte lhe saiu a abantesma do assassinado, com o peito aberto até às costas por um palmo de aço da choupa de um marmeleiro. Ele esperava remir-se do inferno pelos merecimentos do filho que fizera frade para ter santo na família que o protegesse”.
Felícia, pelo contrário, servia em casa de uma família de posses. Ninguém dizia nada dela e não “dera em droga como a do Coxo, e mais a do João Carrasqueira, duas perdidas que contavam a toda a gente que fora o estudante que as deitara à má vida - e leve o diabo o frade, diziam, e contavam casos, miudezas, vergonhas”. Mas em 1834 o progresso entrou no nosso querido Portugal. Foi assim: “O Joaquim António de Aguiar e o progresso puseram frei Justino do Rosário na rua, e ele enfiou para casa com umas exultações sedentas de pecado e dava vivas à liberdade, e à Rainha e à Carta como se, em vez do Convento, saísse da Cova da Moura”.
E o nosso Frei passou a uma vida de pecado. “Arrifava a todas, era uma razia no mulherio de Barroso, um paxá, um galo, um deboche. A mãe de Justino não podia consolar-se da queda da religião e da libertinagem do filho. Pegou de secar-se, um grande fastio, ventre muito desarranjado, e acabou-se-lhe o pavio da vida”. O pai dizia aos amigos: “O frade é aquilo que vocês estão vendo (…) é um meliante pior que o diabo; até se embebeda; deu cabo da mãe e eu não tardo”.
Parece que os remorsos entraram com o frade. Adoeceu. “Deu um grande solavanco, acordou e rolou ao chão, com os olhos esgazeados (…). Daí a dias não se pôde levantar, estonteado, febril, com as goelas secas, e em grande ódio ao álcool e ao bacalhau assado com alhos”. Não havia quem o servisse. “A criada que cozinhava era uma sostra, não sabia fazer caldo de franga, deitava-lhe azeite e comia metade, lavando pouco as tripas da ave”. Felícia veio visitá-lo. Chorou. E ficou para tratar dele. Ficou-lhe a fazer os caldos. “Chamaram-lhe perdida, que estava arranjada, que era como a do Coxo, e a Charrasqueira, uma cadela sem vergonha”. Era uma “Inês do Carasto!”
O frade curou-se e ficou com Felícia, “achando aquela sulamita barrosã, mais doce que o vinho de Cabeceiras de Basto”.
“Era em 1840. Começava a grassar a fracção cabralista. Havia eleições disputadas entre chamorros e outros que significavam ideias políticas muito diuréticas – a diabetes de patriotismo que os outros curavam a fricções secas de cacete. Padre Justino entrou na política, e arrebanhou consigo todos os fetiches da sua façanha. O galopim fermentara-se evolutivamente da podridão do lobo. A autoridade superior do distrito chamara-o, honrara-o com confidências, abraços, promessas e alguns dinheiros do cofre para avinhar o sufrágio. O Governo, cuja alma era Costa Cabral, venceu; e o egresso logo depois foi colado abade nas terras ubérrimas de Basto, em uma freguesia muito rendosa, S. Tiago da Faia, rica de passais, fregueses pouco trabalhosos, mulheres encharcadas no pecado, nem místicas nem hipócritas, inimigas do confessionário e de maçadas ao domingo na igreja.”
Finalmente já temos uma data que marca a época e um local para o princípio da acção: São Tiago da Faia, no Concelho de Cabeceiras de Basto.

(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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