Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

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SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (95)

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A DONA BRANCA DE WALL STREET

Penso que muitos ainda se recordarão da euforia vivida, nos idos anos de oitenta, do século passado, quando apareceu em Lisboa uma simples senhora que não oferecia, ela dava mesmo, dez por cento ao mês, pelas entregas em numerário, que um vastíssimo universo de pessoas, desde vendedoras do Mercado da Ribeira, a empresários de sucesso, locutores de primeira linha da televisão e outros, lhe confiavam, acotovelando-se entre si, à entrada do escritório da “banqueira do povo”, situado na zona de Alvalade, muito próximo do Estádio do Sporting, em Lisboa.
Um colega meu, que era Director Comercial da filial de uma multinacional sueca, onde ambos trabalhávamos, tentou mesmo aliciar-me, por duas ou três vezes, para que o acompanhasse em tão lucrativas aplicações. Eu, com a minha tradicional falta de pré-disposição para alinhar em euforias, sempre lhe fui respondendo: «Olhe, amigo Brás Pinto, eu gosto é de ter as minhas pequenas poupanças em certificados de aforro».
Não tardou muito a que ele, o Brás Pinto, viesse ter comigo e me dissesse: «Ó meu amigo D, na verdade, você é que estava certo. Não foi muito, mas fiquei sem duzentos contos. Lá se foi tudo à vida!».
Lendo as notícias dos últimos dias, ouvindo, pela rádio e pela televisão, todo o conjunto de medidas que têm vindo a ser adoptadas por governantes, como os dos Estados Unidos da América, da União Europeia, do Japão, … e da pequena Islândia, eu não sei o que dizer. Estou totalmente perplexo, duvido mesmo se ainda estarei no planeta certo.
A Dona Branca era uma santa (bom, eu digo santa com letra pequena), se a compararmos com os “senhores” (também com letra pequena e entre aspas), do banco americano de investimentos, o Lehman Brothers. Este banco, tal como foi amplamente noticiado, faliu. Entretanto, sabe-se que o seu CEO (Chief Executive Officer), termo que na nossa linguagem significa algo semelhante a Presidente do Conselho de Administração, o senhor Richard Fuld, ganhava dezassete mil dólares por hora. Além disso, consta-se que, o mesmo senhor Richard Fuld, terá levado cerca de cento e sessenta milhões de dólares por conta de bónus e gratificações devidos pela valorização, em bolsa, das acções do banco.
Parece não ser muito difícil de adivinhar a estratégia da valorização das acções em bolsa. Tudo, como é bom de ver, artificialmente manipulado. Se outra prova não houver, está aí a falência da instituição, de um momento para o outro, sem que ninguém tivesse a mínima suposição, uma ou duas semanas antes. Cabe ainda questionar, e o que faziam os auditores e os revisores das contas do banco?
Todos temos reparado que uma das razões adiantadas, como causadoras das falências do Lehman Brothers, da AIG e de tantas outras instituições de crédito, mais especializadas ou não, por todo o mundo, até na pequena Islândia, foi a crise do subprime (lê-se “subpraime”). Mas, o que será o subprime?
Eu, muito sincera e honestamente, confesso que não sei. Espero, com grande ansiedade que, a qualquer momento, apareça por aí algum guru, daqueles que sabem, sem titubear, calcular o resultado da soma se dois mais dois, e explique o que efectivamente é o subprime. Para mim, e enquanto não aparecer a tal explicação devidamente fundamentada nos teoremas, princípios, axiomas e corolários que demonstram a diversidade de resultados a que se pode chegar somando dois mais dois, entendo que o subprime é, por exemplo, o caso de um modesto chefe de família que decide comprar um apartamento que custa cem mil Euros, vai ao seu banco, expõe o problema e o gerente da agência que o serve diz-lhe: «o andar custa cem mil Euros, mas o banco avalia-o em cento e quarenta mil e faz-lhe um empréstimo de cem por cento. Com os quarenta mil que lhe emprestamos, para além do montante que efectivamente vai pagar pelo andar, o senhor gasta vinte mil no mobiliário que precisa de comprar para o mobilar, e com os restantes vinte mil compra um automóvel novo, que também lhe faz falta para se deslocar, nomeadamente aos fins-de-semana.
O nosso sujeito, que se obtivesse um empréstimo de oitenta por cento do efectivo preço do andar, como seria a situação razoável, ficaria com um encargo mensal de vinte e cinco por cento do seu rendimento, na solução encontrada fica com um encargo mensal que lhe absorve quase cinquenta por cento do referido rendimento mensal do seu agregado familiar. O que sobra não dá para as despesas correntes da família e, ao fim de um ano, no máximo dois, deixa de poder cumprir com o banco, não paga as prestações e o banco vê-se na contingência de tomar conta do prédio… Mais arroba menos alqueire, o subprime deve ser algo parecido com isto.
Assustadora é a ligeireza com que os responsáveis políticos, de todo o mundo, em particular os das grandes potências, aceitam a situação criada e se propõem, sem qualquer reparo digno de ser visto, injectar, de imediato, centenas de milhar de milhões de dólares ou de euros. Repito, centenas de milhar de milhões, para salvar da bancarrota os bancos, as seguradoras e outras sociedades financeiras, que um bando de gestores oportunistas, especuladores e mais sabe-se lá o quê, levaram a tais situações e que agora, com os seus próprios proveitos resguardados nos chamados paraísos fiscais, estão a sorrir para os contribuintes que, no final de contas, são quem tudo acaba por pagar.
Portugal não escapou à regra e, em tempo recorde, o Presidente da República apressou-se a promulgar uma lei, através da qual o Estado concede uma garantia de vinte mil milhões de euros, a todo o sistema financeiro nacional, para que não se corra o perigo de ver um qualquer dos nossos bancos a falir.
Por outro lado, também temos cá gestores bancários que, tal como os americanos ou os ingleses, levaram e estão levar vencimentos, bónus, reformas e outras mordomias que são verdadeiras afrontas a todos e a cada um de nós.
Parem, escutem e, se quiserem e puderem, leiam… Porém, não se deixem cair para trás!

Por: José Costa Oliveira

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