Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-10-2008

SECÇÃO: Opinião

PARA PENSAR…

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Uma vez, deparei-me com alguém que chorava desoladamente!... Não consegui permanecer indiferente, e perguntei: “ porque choras?” De imediato, esse alguém respondeu: “ porque me esqueci de regar a minha flor, e agora vai morrer por causa disso!” Ao ouvir aquilo, senti-me abanada e caíram-me alguns dos enfeites que normalmente coloco sobre mim. Fiquei despida perante tamanha aflição e preocupação! Senti-me mal… mesmo muito mal…! Porque pensei nas vezes em que me esqueço e deixo morrer as minhas coisas por descuido ou esquecimento…!
Como alguém poderia estar a sofrer tanto por causa de um simples esquecimento daqueles? Baixei a cabeça e tentei não dar muita importância ao que acabara de ouvir afinal era só uma flor!! Esqueceu-se de a regar… paciência!...
Naquele dia, tinha coisas mais importantes em que pensar… e aquilo era demasiado insignificante para deixar de fazer as minhas coisas importantes! Não podia pensar mais naquilo…meu deus!...
O certo é que aquela situação martelou vezes sem conta na minha cabeça… já não estava a perceber absolutamente nada de nada! É que a dúvida persistia: “ como alguém poderia sentir-se despedaçada por causa de uma simples flor?! Qual seria o problema? Se a flor morresse, arranjava outra… ora essa…!
Mas não adiantava: os meus pensamentos iam sempre dar no mesmo: a flor que causara tantas lágrimas!
Então, tive de deixar os meus afazeres e reflectir no motivo pelo qual aquilo me tinha importunado tanto… afinal de contas, ter uma flor não implica flexibilidade de horários, não se tem de andar com a preocupação de escrever actas, não precisamos de escolher os dias que melhor nos convém para tirar as merecidas férias, não são necessárias justificações de presença por ter ido aqui ou ali, e melhor ainda, o nosso ordenado não depende de esquecer ou não esquecer de regar uma flor!...
Aos poucos, fui-me apercebendo de que o motivo pelo sofrimento que se instalara naquela pessoa, estava retida numa palavra mágica: “ o amor”! Comecei, então a perceber, a entender… e a passar a mão pelas borboletas que uso nos cabelos, revelou-me o tal segredo: amar!!! O amor nasce por causa dos laços que estabelecemos no contacto com as coisas. E quando nos sentimos enlaçados por alguma coisa, sofremos…! E ao sentir que algum gesto da nossa parte não esteve à altura do sentimento que nos une às coisas, nada vale a pena… de que vale ter uma flor, se nos esquecemos de a cuidar?
Fiquei triste comigo… só comigo. Como pude esquecer as minhas flores, a minha música, as mãos daqueles que me ampararam tantas vezes?! Como pude tornar-me numa pessoa tão crescida? Olhei-me vezes sem conta, e reparei que não sou nada… não sou nada…!
Não sou nada sem as estrelas que enfeitam o céu, sem a luz que ilumina o dia, sem a brisa que me toca no rosto…
Eu não sou nada sem o barulho daqueles que trabalham incansavelmente para a construção de um mundo melhor, sem aqueles que me tocam e reconfortam…
Eu não sou nada, sem as borboletas que trago nos caracóis dos meus cabelos, sem a calma que encontro na mão do meu coração…!
Então, aquele alguém que chorava sufocadamente por se ter esquecido de regar a sua flor estava num sofrimento terrível!... Comecei a entender tudo…
Escusado será dizer que esse alguém se tratava de uma criança..,. Porque só as crianças percebem o perigo que é esquecer-se de cuidar do que quer que seja!
E quanto a isso, acho que não preciso dizer mais nada!



Por: Magda Teixeira

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