Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-10-2008

SECÇÃO: Opinião

HISTÓRIAS DE ÁFRICA (15)

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Depois de tudo o que foi dito sobre cantinas e cantineiros que a par dos administrativos chefes de posto e missões católicas eram afinal as pessoas que mais de perto viviam junto das populações nesse imenso isolamento que era o sertão africano.
No caso da Chainça tudo resultou bem tanto para as populações como para nós já que tudo estava em nome da minha mulher o que nos levou a pensar em complementar o negócio com a instalação duma moagem para cereais. Feitas as respectivas instalações aí foi colocado um moinho de martelos movido por um motor Lister a gasóleo com capacidade para satisfazer as necessidades de toda a povoação que ficou imensamente contente pelo motivo que a seguir se explica.
Como já referi noutra altura, o milho era o produto base da alimentação indígena e as pessoas nasciam e morriam a comer diariamente saza que era uma espécie de caldo-farinha mas muito consistente que dava para fazer bolinhas com as mãos e molhar num guizado qualquer.
Até então o milho era farinado por sistemas antigos por duas pedras espalmadas a esfregar uma na outra à força de braços da mulher ou então através do pilão que era um tronco de madeira escavado ao centro onde era posto o milho e esmagado com um pesado pau até ficar em farinha. Esse trabalho apesar de violento era sempre feito pelas pobres mulheres que muitas vezes executavam essa tarefa com os filhos às costas.
Com a chegada da moagem ou chigaio no dialecto deles tudo se tornou mais fácil para as mulheres que mandavam moer o seu próprio milho e a taleiguinha era paga a dinheiro ou com maquia conforme a quantidade.
Quanto ao milho para venda que produziam nas machambas, era comprovado por nós que mais tarde lhes vendíamos a farinha muitas vezes a crédito e que eles pagavam conforme o contrato que era feito. Nunca tivemos razão de queixa.
Recordo ainda o nosso maior fornecedor de seu nome Mataruka, a nossa relação era bastante amistosa e o seu milho era de muito boa qualidade. O Mataruka tinha três mulheres e trinta e dois filhos de uma povoação só para ele e sua família. A aldeia era vedada e tinha ainda muitas cabeças de gado, galinhas e cabritos. Quando eu visitava a sua aldeia levava sempre uma sacada de rebuçados baratos que distribuía por toda aquela canalhada que quando me viam ao longe logo corriam para mim estendendo o bacalhau. Então o Mataruka só negociava comigo toda a sua produção de milho e o nosso entendimento era perfeito.
Mas para além do Mataruka, havia outros produtores com quem mantinha procedimento igual pois aquela gente merecia todo o meu respeito e talvez por isso é que nunca tive problemas de qualquer espécie.
Durante a semana eu cuidava do meu trabalho no caminho de ferro e a Alcina a minha mulher conduzia os negócios. Aquilo que parecia vir a ser inicialmente uma vida monótona passada no mato, transformou-se numa vida agradável durante cinco ou seis anos a ponto de sermos conhecidos por toda aquela região.
Por força das circunstâncias ainda chegamos a construir outra cantina nas proximidades que inicialmente alugamos e posteriormente vendemos a uma companhia inglesa que se dedicava à extracção de cobre na região.
Entretanto os filhos foram crescendo e atingiram a idade escolar. Foi então que pedi transferência para Vila de Manica já elevada à categoria de cidade onde me mantive durante dez anos até que aconteceu o 25 de Abril.
A cantina da Chainça foi alugada a um casal madeirense, mas a moagem continuou a ser explorada por nós e a cargo de um empregado que eu visitava todos os dias.
Um dia o mecânico Quintas, homem com pouco jeito para lidar com africanos e possuidor duma pequena moagem dentro da vila mostrou-se disposto a vender a licença da dita moagem porque lhe dava pouco lucro devido ao seu mau feitio. Feito o negócio por setenta contos de imediato construí instalações próprias em terreno comprado à Câmara Municipal.
Essa moagem muito espaçosa com sala de moagem e um grande armazém, funcionava com dois moinhos eléctricos um grande e outro mais pequeno. Era a menina dos nossos olhos e teve uma tal aceitação que as pessoas faziam filas grandes procurando os seus serviços. O lucro era bom e bastava um empregado para se ocupar do trabalho. Depois do 25 de Abril deu-se o regresso dos brancos e eu não escapei à regra.
Hoje passados trinta e três anos continuo sem saber o que foi feito dos nossos haveres, tenho saudades mas não tenho ressentimentos?!... o que lá vai… lá vai!...

Por: Alexandre Teixeira

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