Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 20-10-2008

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (94)

foto
AUGUSTO PINOCHET

Penso que deverá haver muito pouca gente que não tenha alguma vez lido, ou ouvido, algo sobre a personagem aqui referida, o General Augusto Pinochet. Na verdade, trata-se de uma figura militar e política, que marcou a história do seu país, o Chile, o qual governou, de forma ditatorial, durante um longo período de tempo, mais de dezasseis anos, entre 11-09-1973 e 11-03-1990.
Será, sem qualquer dúvida, uma tarefa demasiado arriscada, tentar afirmar e escrever alguma coisa sobre tal individualidade, sem que se parta do pressuposto de que se trata de um ditador sanguinário, e até perseguido pela justiça, devido às atrocidades cometidas durante o seu mandato, sobre os seus opositores, tudo em flagrante violação dos direitos humanos.
Em termos genéricos, e pela minha parte, devo assegurar que me lembro perfeitamente dos acontecimentos que marcaram o Chile no início da década de setenta do século passado e que era, efectivamente, um admirador dos ideais democráticos e socialistas do Presidente eleito em 04-11-1970, o médico Salvador Allende.
Não vou tecer quaisquer considerações de natureza política. Apenas alguns factos. Salvador Allende sucedeu a Eduardo Frei Montalva, que exercera o cargo de Presidente da República do Chile entre 03-11-1964 e 03-11-1970, eleito pelo Partido da Democracia Cristã.
Nas eleições de 04-11-1970, Salvador Allende foi eleito com apenas 36,2% dos votos. Não tendo conquistado uma maioria absoluta, viu, contudo, o seu nome confirmado pelo Congresso.
O seu mandato não foi fácil desde o início. Tentou socializar a economia chilena, com base num projecto de reforma agrária e nacionalização de algumas das indústrias de base. Teve que enfrentar, desde logo, a oposição dos democratas cristãos de direita e a má vontade de países amigos tanto da América do Norte como da América do Sul. A inflação atingiu valores na ordem dos 500%.
Nestas coisas de politica, as pessoas mais bem informadas costumam ser os motoristas de táxi. Em Santiago do Chile, e em finais de Agosto de 2008, quando viajava entre o aeroporto e o hotel, e como quem segue totalmente distraído, atirei com algumas perguntas aparentemente inocentes. A certo ponto da conversa o motorista do táxi foi-me dizendo:
- É um facto que Pinochet, e os seus pares, encheram os “bolsilhos” (bolsos), mas, o que não deixa de ser verdade também, é que desenvolveu o país. Repare, o senhor não vê pobres pelas ruas. Temos uma economia próspera a funcionar, um país limpo, admirado por todos quantos nos visitam. Somos o quarto produtor mundial de vinho…
Aqui, eu questionei:
- E quem são os primeiros?
A resposta, pronta:
- O primeiro produtor mundial de vinho é (são) os Estados Unidos da América, o segundo é a Austrália, o terceiro é a Nova Zelândia e o quarto é, como lhe acabei de dizer, o Chile.
- Já agora, e atendendo à segurança com que enumera a classificação, em que lugar é que estará o meu país, Portugal?
Resposta imediata, uma vez mais:
- Na produção de vinho, Portugal disputa com a Espanha o sétimo e o oitavo lugares.
Fiquei deveras banzado. Quando cheguei ao hotel, fui imediatamente procurar se tais dados constariam da Internet. Verdade! Tudo confirmado. Tudo nos exactos termos como o motorista de táxi tinha enumerado.
Voltando às razões do sangrento golpe de estado que em 11-09-1973 derrubou o presidente democraticamente eleito, Salvador Allende, o motorista de táxi continuou:
- O povo, a maioria do povo, estava altamente descontente com o rumo da economia e da paz social. Nos meses que antecederam o golpe (não se esqueça que o General Pinochet tinha sido nomeado, pelo próprio Presidente Allende, Chefe do Estado Maior do Exército, exactamente dez ou quinze dias antes de liderar o golpe de estado que o derrubou), mas, como ia a dizer, havia grupos de pessoas que passavam em frente das entradas principais dos quartéis e atiravam para o seu interior mãos-cheias de um milho muito miúdo, que era utilizado para alimentação de pintos acabados de nascer, em flagrante e ostensiva provocação aos militares, isto como quem lhes dizia: «vocês são um bando de frágeis pintainhos que não são capazes de fazer nada», penso que está a compreender o desafio, não está?
- Estou sim – respondi.
- Pois foi, em grande parte, devido a isso, que o Pinochet e os outros Generais perderam a paciência e romperam com o regime. E olhe que, comparativamente com o que se passou aqui na vizinha Argentina, penso que Pinochet não terá sido dos piores. É que os generais argentinos encheram os “bolsilhos” e deixaram o país na miséria, enquanto que os generais chilenos encheram os “bolsilhos”, sem dúvida, mas desenvolveram o país.
Cada qual que faça o juízo que quiser. Por mim pude verificar que o Chile de hoje é de facto um país desenvolvido, com ruas asseadas e limpas, pessoas que parecem felizes, ausência de mendicidade nas ruas e com um nível de vida em tudo semelhante ao de qualquer dos países do meio da tabela da União Europeia.
A cidade de Valparaíso é a segunda mais importante do país. Tem o maior porto de mar de toda a costa da América do Sul que dá para o Oceano Pacífico. Tanto Salvador Allende (26-06-1908), como Augusto Pinochet (25-11-1915), nasceram em Valparaiso. Ambos morreram em Santiago. O primeiro, assassinado na sequência do golpe militar liderado pelo segundo, em 11-09-1973. O segundo, de morte natural, quando a justiça tentava que ele acertasse algumas das contas da ditadura, em 10-12-2006.
O Chile é também a pátria de Pablo Neruda, poeta e escritor, prémio Nobel da literatura em 1971. Era amigo pessoal de Salvador Allende. Morreu em Santiago, aos sessenta e nove anos de idade, no dia 23-09-1973, apenas doze dias após o golpe de estado de Augusto Pinochet que instaurou a ditadura e foi causa da morte do amigo Salvador Allende.

Por: José Costa Oliveira

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.