Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 29-09-2008

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

foto
Camilo e Basto: boticas, boticários e boticadas (II)

A botica mais antiga do actual concelho de Cabeceiras de Basto foi a pertencente ao Mosteiro de São Miguel de Refojos, no então Couto do mesmo nome, instalada na Ponte de Pé. À sua frente estava um frade com as aptidões necessárias. A lei de 1834 de Joaquim António de Aguiar, o “Mata-Frades”, que encerrou conventos e mosteiros em todo o Reino, apropriando-se dos seus bens, terá concessionado a botica da Ponte de Pé a um boticário ou farmacêutico. Camilo, na sua “Bruxa do Monte Córdova”, cuja acção se inicia em 1828, apresenta-nos entre os inúmeros pretendentes da Angélica Florinda, “tentação dos homens e dos anjos” um boticário, a que atribui idade inferior a 26 anos. È provável que seja um boticário como o Manuel Pires de quem Camilo contou as aventuras amorosas e de quem dizia ser “farmacêutico aprovado por outro farmacêutico que não foi aprovado em parte nenhuma”. Mas a farmácia do boticário Barnabé não poderia ser a da Ponte de Pé, porquanto em 1828 ainda esta existia nas mãos dos seráficos beneditinos do Convento. Mais a mais Barnabé não era freire e é muito possível que o seu estabelecimento estivesse situado entre as Pereiras e o Pinheiro, caminho que a doce Angélica do Picoto percorria desde Alvite, onde morava, e a igreja do Mosteiro onde vinha rezar e espreitar o seu Tomás. Camilo também nos diz que o boticário Barnabé era o mais zeloso a defender “a honra da moça”, fazendo da farmácia um ponto de “atalaia diurna e nocturna”. Assim está afastada a hipótese de a Botica da Ponte de Pé ser a do nosso Barnabé, honrado boticário, dado às letras pois já tinha escrito correspondência para o Azemel de Guimarães e a quem o pai de Florinda via como um bom partido para a filha: “Aquilo é que é modo de vida! Com um jigo de ervas e seis garrafões de água da fonte arranja caroço daquela casta!”
A farmácia da Ponte de Pé vai aparecer agora, em letra de forma:
Na novela “O Filho Natural” Camilo apresenta-nos Macário Afonso, farmacêutico de Agilde, freguesia do concelho de Celorico, já viúvo quando a história se desenrola e descobre a desonra da sua filha Tomásia nos braços do Fidalgo de Agilde, Vasco Pereira Marramaque. “Macário não abriu a botica naquele dia, nem consentiu que se abrissem as janelas”. – Faço de conta que ela morreu. Está morta.” Pôs logo na botica um caixeiro e Macário saiu de Celorico de Basto, e foi administrar a farmácia de outra viúva, dali quatro léguas, onde eu (Camilo) estudava latim: Ora, Camilo estudava latim com o Padre Manuel Rodrigues ou Padre Manuel da Lixa a uns poucos quilómetros de Friume, na Granja Velha. Ora aí temos outra farmácia que Macário Afonso vai dirigir durante alguns anos.
Um dia Tomásia, já abandonada de Vasco e com um filho nos braços, recebe a notícia da morte do pai e que este lhe deixara a casa e a botica. Como não sabe nada da profissão vai arranjar um administrador: Dionísio José Braga.
Figura engraçada este Dionísio que, mais tarde, vem dar à farmácia da Ponte de Pé:
“Era um sujeito entre 30 e 34 anos. Praticava na botica do hospital de Braga, e tinha o curso farmacêutico na escola do Porto. Sabia a preceito a sua arte, e estava inventando pastilhas para moléstias incuráveis quando foi despedido do Hospital de São Marcos por ter desencaminhado a filha da enfermeira, uma rapariga de bons costumes, como são todas as raparigas antes de terem maus costumes. Foi ser ajudante de botica no Porto, em Casa de Januário da Rua Chã, que o despediu porque lhe seduzia epistolarmente uma sua comadre e comensal. Passou para casa do Eusébio da Rua de Cedofeita, donde saiu por motivos igualmente eróticos (…) As mulheres amadas e os credores perseguiam-no (…) nesta conjectura, propiciou-lhe a sorte a botica de Macário Afonso. (…) Dois anos e meio de exemplar comportamento (…) – É um trombelas – dizia a Rosa do Cruzeiro. – Não olha direito para a gente, o casmurro! – invectivava a Josefa da Fonte. – Aqui há tempos a Maria do Moleiro quis-lhe mostrar uma nascida que tinha no joelho, e vai ele disse-lhe: “Menina, vá ao cirurgião, que eu avio remédios e não vejo pernas.”
Dionísio sonha casar com a Tomásia Afonso. Escreve-lhe uma carta. Tomásia despede-o. Há muito que “um cirurgião da Ponte de Pé lhe ofereceu 200$000 réis, cama e mesa e roupa lavada para lhe administrar a botica paterna, e além disso o quinto nos interesses, e metade nas invenções” e é aí que Dionísio José Braga se acoita. “Nesse mesmo dia funcionou na farmácia da Ponte de Pé, e divulgou que saíra de Agilde em consequência dos ciúmes do Abade de Pedraça”.Vil calúnia. Um dia falaremos deste abade. Mas Dionísio não vai estar muito tempo na Ponte de Pé, “que já o levou o diabo com um tiro que lhe deu o irmão da Ruça da Gandarela, uma linda moça que o malandro seduziu…

(continua)


Nota: Quero recordar aqui a farmácia que existiu no Soutolongal, nos baixos da casa que ainda deve ser da família “Ferrugem” e de que era farmacêutico o Sr. Maia, que ainda conheci na minha meninice, fiel republicano, e que se Camilo houvera conhecido lhe teria propiciado algumas páginas de antologia.

Por: Francisco Vitor Magalhães

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.