Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 08-09-2008

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

foto
Camilo e Basto: boticas, boticários e boticadas (I)

Na galeria imensa de personagens com que Camilo emoldurou a sua grandiosa obra romanesca – abades e frades bentos, lavradores e brasileiros de torna-viagem, almocreves e estalajadeiros, morgados, peraltas e sécias, administradores, juízes e corregedores, senhoras de nobres virtudes e criadas de dentro e de fora, alcoviteiras e beatas, passando bilhetinhos das meninas namoradeiras aos fidalgotes de bota de cano alto, todos aperaltados, de jaqueta e chapéu alto – não podiam faltar os boticários, figuras importantes da época nas aldeias minhotas, de par com o senhor prior e o mestre escola. E das várias figuras que desenhou desta nobre profissão, Camilo legou-nos as mais importantes nos romances e novelas que têm como lugar de acção as nossas Terras de Basto. É mesmo um boticário, Eusébio Macário, que dá o título a um dos seus mais famosos romances, de que é a principal personagem e cujo estro se espraia na continuação, “A Corja”.
A botica era muitas vezes o principal estabelecimento da terra, ponto de encontro do reitor, do mestre-escola e dos principais influentes e não poucas vezes o centro onde se urdiam algumas tramas, se desfaziam algumas honras, se abastardavam algumas almas caridosas. Camilo sempre usou as “boticas”como o estabelecimento onde se confeccionavam e vendiam mesinhas, xaropes, unguentos e purgantes, ainda que em certos casos fossem uma espécie de tem-tudo. Gaspar Correia, nas suas “Lendas da Índia” chamava “boticas” aos botequins, pois num passo da sua obra diz: “em cada botica se embebedava”.
Uma quadra do folclore brasileiro do Século XVIII reza assim:
“A botica vende tudo,
Vende da purga ao sudário;
Só não vende, por cautela,
A língua do boticário.”
Não admira assim que algumas terras ainda ostentem o nome de “botica”, em terras muito próximas de Basto, para já não falar no concelho de Boticas que confronta com Cabeceiras de Basto e Ribeira de Pena, cujo significado ainda continua obscuro. Assim temos lugares chamados ‘Botica’ nas freguesias de Ruivães (Vieira do Minho), Varziela e Santo Adrião de Vizela (Felgueiras), Arosa, Calvos e S. Martinho de Sande (Guimarães), Cernadelo (Lousada) e ainda Botica de Baixo e Botica de Cima em Serzedelo (Póvoa de Lanhoso) e Botica Velha, em Pombeiro (Felgueiras).
Da botica passemos ao boticário. Ramalho Ortigão, contemporâneo de Camilo, pintou assim nas suas “Farpas” o boticário do Minho:
“… com o lenço debaixo do braço, a caixa de prata em punho, numa compostura pacata, de magistrado ou clérigo, olhou de todos os lados para a carruagem, para a parelha, pareceu satisfeito com este exame atento mas perfuntório e desengatou os garranos suados, cobertos de pó, que seguiram atraz dele para a grande cavalariça ao lado da estalagem.
De suissas e óculos fixos, além da quinzena côr de mel ele trajava calça de brim, colete de ganga, chapéu de palha, e chinelos. (…) No Minho não há ainda hoje mais do que quatro ou cinco enfermidades: queixas de peito, malina, espinhela caída, ramo do estupor, hemorroidal e catarreira.
Antigas purgas de jalapa, de ruibarbo, de sene e maná, purgas de confiança, tomadas às tijelas, pez de Borgonha para o peito ou para o espinhaço, ipecacuanha como vomitivo, cáusticos, cataplasmas de mostarda para chamar abaixo os humores, enxôfre para as fugagens da pele, bichas para o hemorroidal e para as contusões por cargas de pau, água de vegeto para os simples galos e para os golpes, constituem tôda a farmacopeia local.
De sorte que os boticários têem tempo para tudo; lêem as folhas, freqüentam a bisca do pároco e o voltarete do doutor delegado, ajudam à decoração do templo nas grandes funcções, e, além de cocheiros de ocasião, como aquêle que conheci, são ainda frequentemente regedores de freguesia, passarinheiros, explicadores de francês, criadores de galináceos.
E há-os na festa grande do orago da freguesia, obrigada a fôgo prêso, a arraial do adro com doceiras de melindres, carros de melancias, frituras de pescada, vinho ao torno, e música de capela à missa cantada, vão para o côro com um papel de solfa em rôlo, como os demais chantres, e atiram-se ao garganteio dos motetos, em voz de tiple, como danados.”
Nas Terras de Basto Camilo aponta farmacêuticos na Faia, na Ponte de Pé (vila de Cabeceiras), em Friume (concelho de Ribeira de Pena), em Fermil e em Agilde, do concelho de Mondim e Celorico de Basto, respectivamente.
Camilo, não há dúvida, conhecia “boticas”, “boticários” e “boticadas”. Sabe-se que frequentou a botica de Fermil aquando duma sua estadia numa casa nobre das redondezas onde estagiou na procura de testemunhas para a sua “Maria da Fonte”. Diz o Engº. Francisco Peixoto Bourbón num seu artigo publicado no “Notícias de Guimarães” há cerca de 20 anos que Camilo não procurava na botica de Fermil a “ingestão de remédios exóticos” para “encontrar alívio para os seus males”mas que “a frequência da farmácia era apenas ditada pelo desejo de convívio, de sociabilidade e de promoção social e aí ia observando estranhos comportamentos e como que tateando, ou tomando pulso, à região”. Como veremos mais adiante ele vai encontrar aí inspiração para figuras que nos são tão queridas como Eusébio Macário, com botica na Faia, como o outro Macário Afonso, farmacêutico em Agilde e os ajudantes como o consagrado José Fistula, “um ranhoso com a fralda suja de fora pela fenda posterior das calças de cotim”, agora encadernado e envernizado com o dote de Felicia , que valia bem quarenta contos, em moeda forte.
Camilo conhecia, como dissemos, boticas, boticários e boticadas. Não é de esquecer que Camilo frequentou a Academia Politécnica do Porto, tendo sido aprovado na cadeira de Botânica, e “não deixou esquecer os conhecimentos colhidos, mas os ampliou até, com os outros adrede à “Arte de Curar”, assim como frequentou a Escola Médica-cirúrgica da mesma cidade.
Quanto a “boticadas”, o capitão farmacêutico António da Costa Torres deu à luz em 1950 um interessante livrinho intitulado “Camilo Castelo Branco e as boticadas de Eusébio Macário”, donde constam 67 receitas (43 compiladas do Eusébio Macário e 24 da “Corja”), desde o unguento depilativo do baço ao xarope de língua de vaca, do óleo de víboras ao emplastro negro ou capucho, do cozimento carminativo ao pepino de S. Gregório, passando pelos pós benedictinos e os trochiscos sublinguais para tísicos.
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.