Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

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SECÇÃO: Opinião

Histórias de África (13)

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Já nos referimos a alguns usos e costumes das populações indígenas tendo em vista sempre a mulher africana como a principal vítima desses rituais por vezes macabros que tinham como objectivo o prazer sexual do homem.
As raparigas na sua adolescência já eram preparadas para proporcionar ao futuro marido esse prazer.
Um desses prazeres consistia em golpear-lhe as coxas várias vezes afim de provocar feridas que depois eram curadas com mistelas de curandeiras até ficarem marcadas para sempre com saliências que o homem acariciava como iniciação em cada acto sexual.
Este uso era praticado em tempos mais recuados porque em tempos mais recentes quem tentasse molestar a mulher em coisas que ela não consentia e desse lugar a queixa na Administração do Concelho, esse alguém era lá chamado e era certo que já de lá não saia sem apanhar umas boas palma toadas que era afinal o castigo mais fácil e mais eficiente.
Curiosamente os pretinhos ao nascer trazem a cor da pele quase branca mas rapidamente adquirem a cor natural com que vão ficar para o resto da vida.
Quando nas povoações acontecia algum falecimento havia um homem que gritando anunciava o nome de quem faleceu! … Ochaika!... Ochaika!... Então as populações juntavam-se em grupos e cada um levava o que podia, peixe seco, farinha, galinhas, ovos,etc… Ao chegar à palhota onde estava o morto poisavam as coisas no chão e entravam na palhota a gritar com as mãos atadas à cabeça. Era essa a forma de apresentar condolências à família enlutada. A sepultura era aberta nas imediações da residência e depois de devidamente tapada eram sobre ela colocadas pedras de tamanho razoável para que os animais selvagens durante a noite não fossem lá esgravatar.
Quando o morto era um Régulo (Inlhacuaua) a festança durava três dias.
Em tempos mais recuados era uso até colocar sobre a sepultura utensílios e objectos pessoais do morto tais como: louça, pentes, espelhos, canivetes, panelas e até comida pois os familiares estavam crentes que o morto vinha comer durante a noite, só que era um acto enganador porque afinal quem comia os alimentos eram os animais selvagens que por aí vagueavam durante a noite.
Recordo um funeral a que assisti eu e minha mulher em pleno mato e bem distante da vila.
Alberto era um rapaz que mantinha uma postura de respeito tanto com os brancos como com os da sua raça. Era já dono duma moagem e duma cantina e fui eu que o encaminhei com algumas ajudas no começo da sua vida.
Um certo dia o Alberto chegou a minha casa chorando copiosamente para me dar conta da tragédia que se tinha abatido sobre a sua família. Lá longe no mato onde tinha a cantina mulher e dois filhos, aconteceu que o filho mais novo com três anos na altura se afastou ou afastaram-no de casa e foi aparecer morto dentro dum pequeno riacho já longe de casa o que causou certa estranheza já que a criança era muito pequenina para caminhar tanta distância. O que é certo foi que nunca se soube as causas da sua morte.
No dia seguinte minha mulher arranjou um ramo de flores e lá nos apresentamos na povoação a trinta kms de distância para assistir ao funeral da infeliz criança.
O local estava cheio de pessoas que de várias povoações também foram assistir ao piedoso acto.
A cova pequenina já estava aberta e o menino jazia no seu pequeno caixão mandado fazer pelo seu pai. Chegada a altura de ser enterrado alguém barrou a cova com uma lama vermelha era certamente um ritual cujo significado nunca me foi explicado.
Após a cobertura total da campa, minha mulher e eu depositamos um ramo de flores sobre a campa do pequeno anjo e em profundo respeito aí nos quedamos por breves instantes retirando depois de semblante triste e após termos feito o sinal da cruz.
É evidente que a nossa presença, o nosso acto calou fundo na alma daquele povo, que certamente muitos deles nunca tinham visto um casal de brancos assistir a funerais de seus familiares nem tampouco flores sobre as suas campas.
Essas pessoas tão habituadas a ser tratadas com indiferença tornavam-se muito sensíveis a todo e qualquer acto de puro humanismo.
É curioso registar que quando punidos por qualquer acto não deviam ter praticado e reconheciam a sua culpa, aceitavam o castigo com inteira naturalidade.
Até mesmo os militares que para lá foram empurrados para uma guerra estúpida e desnecessária me dizem ter ainda saudades dessas terras de que tanto gostaram e muitos deles já foram a Moçambique visitar os locais onde fizeram a guerra.
Em tempo devia ter referido que os produtos recolhidos na colecta quando morria alguém eram depois utilizados na confecção dum grande almoço para todos os presentes em homenagem ao defunto. Ao almoço já reinava a boa disposição, pois a filosofia deles era a de “uafa, uafa, sara,sara”. Isto é, quem morreu morreu e nada há a fazer.

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