Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-08-2008

SECÇÃO: Opinião

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NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO
GRACEJOS QUE MATAM

No século XIX as Caldas de Vizela eram frequentadas pela melhor sociedade de Guimarães e das Terras de Basto. Desde os fins de Maio até às vindimas de Setembro, as termas enchiam-se não só de pacientes mas também de jovens de boa saúde sem necessidade de águas, meninas casadoiras à procura de um romance de Verão, cavalheiros à cata de uma donzela bonita, com apelido de fidalga e dote a condizer.
Camilo também lá esteve e em 1875 publica nas suas “Novelas do Minho” uma pequena noveleta intitulada “Gracejos que matam”, dedicada ao médico Dr. Tomás de Carvalho, e cujo lema é “isto de querer ter graça e de fazer rir os outros anda por boa gente no dia de hoje”. Curiosamente o autor é o narrador e testemunha directamente a acção cujo acto principal se desenrola no dia 15 de Junho de 1851 junto a uma velha ponte ainda hoje existente, que liga a uma ilhota idílica sulcada pelas águas do Avicena. A história é verdadeira, mas o autor apresenta a seguinte declaração: “Era em 1851. Apresto-me a declarar que, no tocante a nomes e localidades, desfigurei tudo, salvo generalidades vagas e o lugar em que principia a narrativa”. Camilo explica porquê: “Nomear pessoas e terras seria denunciar inutilmente um crime. O criminoso está diante do Juiz inapelável, e seus filhos inocentes respeitam-lhe a memória”…”Era, pois em 1851, aos 15 de Junho, nas Caldas de Vizela”.
O crime vai-se dar com a morte – primáriamente tida como acidente – de João Pacheco, “um gentil rapaz de 24 anos de idade, educado em Lisboa”, solteiro, morgado do Vale Escuro na freguesia de Arco de Baulhe onde reside com umas “tias solteiras que muito lhe queriam” e o assassino, Manuel Fialho, ex-lacaio de Álvaro de Abreu, que só nas vascas da morte e no segredo da confissão confessa o seu crime ao abade de Santa Eulália de Refojos de Basto, “passante de meia-idade, pagão em literatura, mestre de latim, no seu concelho de Cabeceiras”, mandado cometer pelo seu patrão.
E porquê este crime? Por um simples gracejo. Naquela tarde calma e leda de 15 de Junho de 1851, o abade, D. Helena Penha, viúva do capitão-mor de Atei, e sua filha Irene, ou seja, a Morgada Velha e a Morgada Nova, o bacharel Álvaro de Abreu, da honra de S. Gens em Refojos de Basto, o moço João Pacheco do Arco e ainda José de Almeida, do Porto e Camilo passeiam pelas sombras das árvores que se estendem pelo parque das Caldas de Vizela. Trocam piadas, contam histórias, gracejam. Um gracejo vai desencadear o drama:
“Que horas são? – perguntou enfastiada a Morgada Irene.
- Cinco – responderam todos, abrindo relógios, excepto João Pacheco.
- Singular caso! – disse ele (João Pacheco) – tenho este relógio há doze anos; é a primeira vez que pára, tendo corda. Se o ar sulfúrico de Vizela tiver sobre o dono a influência que tem sobre o relógio, serei obrigado a parar; e parar, diz não sei quem, é morrer.
- Mas é que tu precisas de CORDA… - remoqueou Álvaro.
- De corda preciso; de CARRASCO é que não, contando contigo – redarguiu Pacheco.
- Apanhe aquele peão à unha, Sr. Doutor! – exclamou o abade de Santa Eulália”.
Por este gracejo, Álvaro de Abreu, o bacharel, desafia João Pacheco, o morgado do Arco, para um duelo. Os padrinhos convencem os dois antagonistas para um combate à espada João Pacheco promete à Morgada Velha de Atei que ferirá ligeiramente Álvaro, namorado de Irene. Assim acontece e Álvaro torna-se alvo geral da galhofa dos aquistas das Caldas pela sua inépcia em pegar numa espada.
Chega às Caldas um inglês, Jacques Smith. Ás escondidas, a morgada nova, Irene, recebe-o nas noites longas de Estio nos meandros do jardim da casa. Álvaro, namorado de Irene, de nada se apercebe.
Em 11 de Novembro desse ano João Pacheco, o Morgado do Arco, aparece morto no caminho que vai de Refojos de Basto para as suas terras de Vale Escuro, mais precisamente na Barroca das Duas Fontes.
Algumas suspeitas recaem sobre o bacharel dado o seu carácter vingativo, mas o abade de Santa Eulália achou infundada a desconfiança pois vira, na noite da morte do moço, Álvaro de Campos e D. Irene juntos e reconciliados e também fora assinalada a presença do bacharel na feira de S. Martinho em Penafiel, exibindo-se ao jogo, forte e feio, deixando marca da sua presença. As autoridades atribuem a morte do moço João Pacheco a queda do cavalo, “um potro não educado ainda, e comprado nas manadas espanholas que vieram à feira de S. Miguel…”
Meses depois, Álvaro de Abreu casa com D. Irene. Mas, sabedor do seu desatino com o inglês nas Caldas, despreza-a e amassa-lhe os ossos, fecha-a na Casa da Torre. Mas Camilo ressalva: “ Mas não a espancaria incessantemente já que ela provava a sua fecundidade com dois filhos”.
D. Irene não consegue suportar o marido, abandona-o e aos filhos e acoita-se no Porto na residência do amante inglês. Álvaro de Abreu atribui as culpas da fuga da esposa ao abade de Santa Eulália de Refojos e promete, no melhor dos casos, amassar-lhe os costados. O abade, conhecedor dos maus fígados do bacharel, adoece, treme de susto e medo. Apaga-se-lhe “a clara e serena satisfação da vida”. Tinha cinquenta e seis anos e “ insulou-se da convivência de amigos”.
Mas demos agora a palavra a Camilo. O facto que descreve é histórico, como é o proprietário que identifica como Paulino Teixeira Botelho, mas cujo nome completo leva mais o apelido Sousa, senhor da Casa da Vila junto ao Campo do Seco, casa onde nascera, grande proprietário e deputado, casado com D. Teresa Emília Lobo de Almeida e Sousa, senhora da Casa e Quinta da Torre de Ranhados, da freguesia de Refojos. O prof. Alexandre Vaz, de quem nos servimos nesta nota, aponta-lhe como grande adversário político o Dr. Jerónimo Augusto Pacheco Pereira Leite, da Casa do Foral da Venda em Cavez, que foi ilustre deputado e Governador Civil de Braga. O que escreve Camilo:
“Por aquele tempo, um cavalheiro de Basto, o Sr. Paulino Teixeira Botelho, murava um terreno lavradio que nos anos anteriores fazia parte da Feira do S. Miguel, em Refojos. A política de campanário introduzira a sua garra nesta contenda de propriedade. O povo, acirrado pelos adversários do Sr. Paulino Teixeira, ameaçara derrubar o muro e invadir a propriedade a ferro e fogo. O proprietário, forte no seu direito e bravo de seu natural, aceitou a luta, aguerrilhou criados e caseiros, e avisou as autoridades que tomaria sobre si o desempenho dos deveres que incumbiam aos fiscais da segurança pública.
Os amotinados eram, pela maior parte, jornaleiros, soldados com baixa, a ralé ínfima das aldeias, poucos lavradores e alguns caseiros de casas afidalgadas. Entre estes, sobrepujava na investida e na bravura da excitação um Manuel Fialho, que havia sido lacaio de Álvaro de Abreu, e àquele tempo era seu feitor em duas quintas nas margens do Tâmega, Fora ele quem arremetera primeiro o muro, e aperrara um bacamarte ao peito de um criado da casa agredida.
Rompeu a espingardaria, menos trovejada que o alarido da multidão. As balas zuniam ma ramagem dos castanhais. Milhares de pessoas, de envolta com o gado espavorido, despejavam a feira. O povo inerme acordava com o alarido dos combatentes.
Dos que fora, alguns caíam feridos, outros baqueavam sob os muros derruídos.
O mais pimpão, Manuel Fialho, caira atravessado por um pelouro do peito às costas, acudiram a levantá-lo do chão lamacento alguns dos seus sequazes.
- Quero confessar-me! – rouquejava ele – Levem-me onde esteja um padre!...depressa que morro!
Olharam em redor, e viram um sacerdote que, de mãos postas, sem receio das balas que lhe sibilavam de perto, pedia ao povo que se retirasse.
- Além está o senhor abade de Santa Eulália1 – exclamou um dos amparadores do agonizante.
Outro correu a dar-lhe parte de que estava ali um feitor do fidalgo de Refojos mortalmente ferido que se queria confessar.
- Trazei-mo depressa, eu o espero nesta primeira casa… - disse o abade.
O moribundo, nos braços de dois homens, entrou para um quarto onde o esperava o confessor. A confissão e a vida duraram-lhe dez minutos.
Álvaro de Abreu, quando, ao fim da tarde, lhe disseram que Manuel Fialho, antes de expirar, pedira confessor e morrera nos braços do abade de Santa Eulália, acusou nas alterações de cor e fixidez dos olhos alvoroço aflitivo.”
Só o bom padre é sabedor, pelo segredo da confissão, do crime de Manuel Fialho e do nome do seu mandante. O sacerdote procura Álvaro de Abreu e, na presença dos dois filhos, ainda inocentes invectiva-o e pede-lhe que se arrependa.
O fidalgo resolve viajar, deixar a região. Hipoteca as quintas com enormes usuras, Sai, entregando os filhos a uma cunhada, esposa do irmão morgado. Visita a Europa. Colhe todos os salões e todos os antros. Adoece.
Desejando regressar, tenta curar-se numas termas nos Pirinéus. “Bebeu as águas sulfúricas de Cauterets nos Pirinéus, consumou o esfacelamento dos intestinos baixos, e morreu medicinalmente.”
Quando o padre celebra uma missa por alma de Álvaro surge-lhe Irene que quer recuperar os filhos, tratar das heranças. Enquanto falam, chega o correio e uma das crianças, inocentemente, lê em voz alta: “Obituário. Ontem pelas sete horas da manhã, desapareceu do número dos vivos um dos mais estimados e gentis cavalheiros desta cidade. Um aneurisma no coração arrebatou fulminantemente o sr. Jacques Smith, que…”.
O drama aproxima-se do fim. O abade de Santa Eulália morre (1868) e Irene, ao saber a notícia, caiu na cama; e, quando se quis erguer, estava tesa.
Em 1871 a fidalga vai pela última vez às termas das Caldas.
“Era transportada em cadeira de rodas ao BANHO DA BOMBA FORTE. Uma vez, quis ir à PONTE VELHA(*), que não vira desde 1851. Defronte da ilheta onde em 15 de Junho daquele ano Álvaro de Abreu e João Pacheco trocaram os fatais gracejos, mandou parar a cadeira… Ao nascer do sol do seguinte dia dobravam a finados os sinos de S. João das Caldas. A fidalga de Atei expirara nos braços dos seus dois filhos”.

NOTA:
(*) Camilo diz agora “Ponte Velha” dado entre 1851 e 1871 ter sido construída outra ponte, hoje conhecida pela “Ponte Nova”.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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