Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 18-08-2008

SECÇÃO: Opinião

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HISTÓRIAS DE ÁFRICA (12)

Os povos africanos são como sabemos muito dados a feitiços, bruxarias e também a hábitos e costumes ancestrais. Porém, quando deixei Moçambique já tudo estava bastante mudado quer pela acção das autoridades administrativas e pelo hábito que os africanos tinham em copiar tudo o que os brancos faziam.
Recuando ao tempo quando cheguei a Vila de Manica, vejamos como ainda se praticavam certos hábitos e rituais. Os bruxos ou Kuche-Kuches eram tal como cá uns charlatães que usavam muitas bugigangas para impressionar e amedrontar os incautos e no fim não adivinhavam coisa nenhuma sendo a receita sempre a mesma – mal de inveja.
Acresce que no seio de cada família quando nascia uma menina ou messicana era motivo de satisfação porque os pais embora a longo prazo, logo pensavam que um dia a podiam vender e essa menina como todas as mulheres africanas era a mais sofredora pois à medida que ia crescendo logo lhe eram dadas tarefas para ela executar diariamente.
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Aí por volta dos doze, treze anos quando começavam a aparecer as maminhas, logo os pais esfregavam as mãos contentes porque já faltava pouco para ela ser posta no mercado. Tentei muitas vezes dissuadi-los a não vender as filhas alegando todo o tipo de razões, mas a resposta era sempre a mesma; se eu comprei a minha mulher também quero vender as minhas filhas!...
Entretanto a menina já tinha sido preparada para o casamento, uns anos antes todos os dias uma velha levava a criança para o fundo duma palhota, deitava-a de barriga para o ar e cumpria um ritual satírico. Com um recipiente de água a seu lado molhava os dedos e suavemente puxava os lábios vaginais do sexo da rapariga.
Tão repetidamente fazia isso que uns tempos depois os lábios vaginais já bastante dilatados estavam em condições de ter o nome de “matinges” cuja função era a de ser introduzidas na vagina antes de qualquer acto sexual afim de trazer maior prazer.
Chegado o momento de vender a filha pouco importava o aspecto físico do pretendente que normalmente era um homem bastante mais velho já que os novos não tinham dinheiro, combinado o preço que tanto podia ser em dinheiro, cabritos, porcos ou vacas lá ía a rapariga impandeirada e bico calado.
Contudo na primeira noite era posto um pano branco debaixo dos noivos e uma velha assistia a tudo durante a noite. De manhã se os vestígios mostrassem a virgindade da rapariga tudo estava bem de contrário se nada mostrasse que ela era virgem logo o noivo podia pedir a devolução do libolo. Mais ainda; se a rapariga passados uns tempos não desse filhos, era considerada “ingoma” – estéril e restituído ao noivo uma parte do libolo e não o valor total já que ela agora era mercadoria usada.
Caso houvesse filhos, como todas as outras era sempre a mulher a fazer tudo, tratar dos filhos e muitas tarefas eram feitas com os filhos às costas. Se os seios eram grandes a mama era dada por cima do ombro, se pequenos era dada por baixo do braço mesmo quando estavam no pilão a farinar o milho ou a cuidar das machambas.
Não é que tratar duma palhota desse uma grande trabalheira, mas a verdade era tudo feito pelas mulheres os homens trabalhavam nos seus empregos e até os trabalhos domésticos em casa dos brancos era tudo feito por homens que executavam muito bem esses trabalhos. Fora disso e quando podiam apanhavam umas bebedeiras muito jeitosas pois como já foi dito são muitos os amantes de tudo que contenha álcool. Raramente havia alguém que arranjasse milando quando bêbado nem tão pouco praticavam cenas como as dos javardos que se vêm por cá urinando nas bermas da estrada à vista dos passantes.
Em todo o tempo que convivi com essa gente nunca me constou que entre eles houvesse pedófilos ou que um pai violasse a sua própria filha, assim como nunca vi os pais baterem nos filhos e as zangas entre casais nunca chegavam a vias de facto.
Contava isso sim, que os pretos do norte quando vinham cumprir contratos de trabalho de seis meses no caminho de ferro porque falavam um dialecto diferente e porque as mulheres de cá não os queriam nem por dinheiro eles lá se remediavam uns com os outros satisfazendo as suas necessidades sexuais.
Quanto aos rapazes cresciam normalmente até se fazerem homens, pois como já foi dito as mulheres eram sem dúvidas as grandes sofredoras pela vida fora numa sociedade onde havia tudo para uns e nada para os outros embora e de certo modo fosse isso o que o sistema pretendia aliada à falta de ambição dessa pobre gente.

Por: Alexandre Teixeira

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