Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 28-07-2008

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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O Fidalgo Mendigo (III)

O capitão-mor de Cabeceiras de Basto, Serafim dos Anjos Pacheco de Andrade, dá a alma ao criador em 1830 (e não 1832 como diz Camilo). Como único filho varão, José é o morgado; ao morgado pertence tudo pelas leis de então. O morgado comandava na altura um bando de salteadores que infestava a serra do Ladário (que separa as terras de Basto das de Montelongo (Fafe)).Com a morte do pai, abandonou o bando e vai tomar posse do seu relativamente vultuoso morgadio de Friume, em Ribeira de Pena. Mas porque não recebe o ainda mais vultuoso morgadio da Casa de Carrazedo, da freguesia e couto beneditino de S. Miguel de Refojos, onde nascera? Aqui há divergências e falta de documentos mas tudo se deve prender com o testamento do seu avô, também chamado Serafim dos Anjos Pacheco de Andrade e Gouveia, nascido em 23 de Novembro de 1710, licenciado “in utroque jure”, cavaleiro professo da Ordem de Cristo, juiz de fora em Montalegre e em Portalegre, desembargador da Relação da Baía e depois da do Porto, pai de 2 varões, o Dr. Bento António, o morgado, desembargador no Rio de Janeiro e Baía, onde morreu sem ter usado da herança, que passou a seu irmão, Serafim dos Anjos, Capitão-mor de Cabeceiras de Basto, pai do Fidalgo-Mendigo.
Mas o morgadio de Friume seria suficiente para o sustento duma boa família. E, como já dissemos anteriomente, o nosso fidalgo contrai casamento em 26 de Maio de 1834 com Ana Rita, “modesto nome que esconde muito simplesmente uma descendente de António Luís Gonçalves Pipa, esforçado defensor de Vila Pouca de Aguiar, no decurso da campanha transmontana da guerra de 1762, ao qual, por tal-feito, el-rei D. José mandou passar em 1764 carta de brasão de armas, dos apelidos Gonçalves e Costas, constantes dum aparatoso escudo que ainda hoje enobrece o portal daquela sua casa, sita em pleno planalto do Alvão.”
O autor ribeirapenense António Canavarro de Valladares chega à conclusão que “não existia qualquer diferença social entre os nubentes.”
Mas alguma coisa vai correr mal. Mas aqui já é o estro camiliano, e não a realidade, que alimenta “um ultra-romântico romance em verso, de faca e alguidar e sem qualquer espécie de verosimilhança” que dá à luz em “Um Livro” e que o autor contou em 30 páginas de versos de melodramático enredo” e que A. C. Valladares resumiu em 5 curtos parágrafos:
“Cifra-se este na incompatibilidade conjugal de José Pacheco com a esposa, devido às suas extravagâncias e desvaneios amorosos.
Dá-se então uma dramática cena na qual o futuro fidalgo-mendigo tenta assassinar a mulher, propósito de que é impedido por um seu irmão.
Abandona a seguir o domicílio conjugal e mais tarde, instigado por ilusórios ciúmes, acaba por consumar o uxoricídio.
Por último revela ao mencionado irmão o seu crime, acabando por assassinar também este, com receio de ser entregue por ele à justiça.
Lança fogo ao seu solar de Friume, com o imediato intuito de fazer desaparecer todos os vestígios deste seu último e hediondo procedimento.”
É esta figura maldita que Camilo um dia encontrou e lhe vai lançar a sua profecia de desgraça:
“É este o homem que pede,
Nos andrajos da pobreza,
Escassa esmola de pão!...
E me diz: “Eis que um mendigo
O teu futuro prediz!
Vai! Que a dor irá contigo!
Olha…a sombra da desgraça
Caminha a par do infeliz!”
É verdade que o Fidalgo deu cabo de parte do seu morgadio. São conhecidas as escrituras de vendas do seu património. O próprio sogro de Camilo, Sebastião Martins dos Santos, adquiriu-lhe em 1838 “duas propriedades hua chamada a Leira da Veiga e houtra chamada as Ribeirinhas do Relho aberto por tempo de houto anos. Por preço sento e otenta e nove mil res”. Mas também se sabe que a irmã do fidalgo, de seu nome Rosa do Carmo, ainda em 1861 era proprietária do “Monte da Trapa, limites de Friume, freguesia de são Salvador de Ribeira de Pena que foi pertença de um Bíncolo, que ella (…) herdou pelo falecimento de seu irmão José Pacheco de Andrade, que faleceu sem filhos nem legítimos sucessores”.
Precisava o fidalgo no fim da sua vida – e era novo, tinha 42 anos quando faleceu – de mendigar uma tijela de caldo?
Ai, Camilo, grande Camilo!
*
Não se sabe quando se formou a quinta de Carrazedo. Mas o notário de Cabeceiras, Dr. Francisco Canavarro Valladares, anotara nos seus papéis umas notas genealógicas , donde se extrai que “a quinta de Carrazedo é uma das mais antigas propriedades da região de Basto. Encontram-se-lhe referências nos primitivos documentos notariais conhecidos, ou existentes na região e que remontam ao reinado de D. João II. O primeiro possuidor de que temos notícia era pelas funções do alto cargo local que exerceu, uma das pessoas de maior categoria social da sua época em Basto. Chamava-se António da Rocha, que foi Juiz dos Órfãos no concelho de Cabeceiras, como se vê pela respectiva mercê régia, registada na Chancelaria d’El Rei Dom Sebastião e d’El Rei Dom Henrique”.
As gerações sucederam-se com casamentos com nubentes de casas nobres da região: Casa de Bouças (S. Nicolau), Casa de Picanhol (Rª. Pena), Quinta da Cal (Ermelo), Quinta da Vinha Nova (Refojos), Casa da Igreja (Cavez), Morgadio de Friume, Casa da Eira (Riodouro), Casa do Regedouro e Morgadio do Suterrado (Cabeceiras), etc: Uma excepção: o capitão-mor Serafim dos Anjos procura esposa na nobreza do Alto Minho, vindo a consorciar-se com D. Francisca Inácia Pitta Malheiro de Abreu Magalhães, filha do Monteiro-mor de Vila Nova de Cerveira, senhor da quinta de Pantaleão de Cornes, senhora que veio habitar em Carrazedo e foi mãe do nosso Fidalgo-Mendigo e de cinco filhas das quais interessa, para a nossa história, o nome de uma:
D. Leonor Carlota Pacheco Malheiro de Andrade e Vasconcelos, a quem o morgadio de Carrazedo ficou a pertencer e em cuja geração se manteve até 1978, data em que o seu último proprietário, o Dr. Manuel Aires de Abreu, subdelegado na comarca de Cabeceiras de Basto durante alguns anos, alienou a propriedade. Era sobrinho-bisneto do fidalgo-mendigo.
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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