Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

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SECÇÃO: Opinião

HISTÓRIAS DE ÁFRICA (11)

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Vasco da Gama na sua primeira viagem à Índia e quando navegava na costa Moçambicana, fundeou a sua armada na baía de Inhambane a fim de ir a terra buscar água doce para reabastecer as suas caravelas e galeões e foi tão bem recebido pelos indígenas que logo apelidou Inhambane «A da boa gente». Esta pequena e bonita cidade que um dia tive o prazer de visitar, situa-se no sul de Moçambique e além de estar ligada à história dos descobrimentos está igualmente ligada à história da canção nacional pois apesar de ter crescido na típica Mouraria, foi mesmo em Inhambane que nasceu a maior fadista da actualidade, obviamente que me refiro a Mariza.
Se o grande Almirante tivesse conhecido genericamente o povo Moçambicano, certamente teria dito “Moçambique a terra da boa gente”.
É verdade que teve um período menos bom da sua recente história, mas também é verdade que chegamos a ter o mundo inteiro contra nós com excepção de dois ou três países e as pressões exteriores chegavam com tanta força que culminou com uma descolonização atabalhoada e desastrosa onde não foram minimamente acautelados os bens dos brancos aí radicados há quinhentos anos.
Mas; o que lá vai, lá vai e não vale a pena chorar sobre o leite derramado.
Na parte que me toca nunca senti qualquer tipo de animosidade, bem pelo contrário foi sempre muito bem tratado pelas populações com quem convivi.
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Os pretos, são gente indolente gostam pouco do trabalho e pouso se importam com o dia seguinte mas quando trabalham por conta dos brancos são trabalhadores normais, gostam muito de bebida seja qual for mas o vinho a que chamavam água de Lisboa quando tinham dinheiro era bebedeira da caixão à cova.
Normalmente as suas habitações são palhotas e não têm mobília, dormem no chão numa esteira e quando o homem tem mais que uma mulher cada mulher tem a sua palhota parta si e para os seus filhos mas quem dá ordens e controla tudo é sempre a primeira mulher (mebuia mekulo).
Normalmente são mulheres quem fazem as culturas (machambas) desmatam o terreno cortando os paus à altura da cinta para não doer a messana (costas) dão uma cavadela no chão deitam lá dois ou três grãos de milho que vêm depois a dar boas espigas… A alimentação deles é quase sempre a mesma coisa, farinha de milho e peixe seco, comem com as mãos fazendo bolinhas que vão molhando no peixe que foi cozinhado com um pingo de óleo. Se há pratos muito bem, se não há a farinha cozida em água (saza) é colocada numa folha de bananeira e nada ficava por comer. Não havia inveja e repartiam facilmente a comida com o seu semelhante e até um cigarro dava por vezes para quatro ou cinco.
Além do peixe normal comiam também com regularidade camarão seco miudinho e ainda peixe seco também muito miúdo a que chamavam (ussimbo e tepué) e com esse tipo de alimentação eram bem rijos e muito raramente se via um preto gordo.
Quando bêbados não se tornavam agressivos nem falavam mal, e nunca vi um preto bater num filho assim como nunca ouvi dizer que algum dia um pai tivesse violado a sua própria filha. As terras produtivas estavam todas nas mãos dos brancos que davam trabalho a muita gente. Se estivessem nas mãos dos nativos seria pior porque eles não as cultivavam conforme se veio a provar depois da independência em que tudo estagnou. Normalmente andavam descalços e o traje de todo o ano era simplesmente um calção e uma camisa de meia manga.
Lá havia um ou outro que tinha rádio a pilhas a até ginga (bicicleta) que tratava muito bem enfeitando-a com fitinhas coloridas. Mas andavam sempre actualizados com as notícias pois o cumprimento deles era sempre canjane massoco (novidades?).
Aparentemente pareciam felizes talvez à sua maneira ou então porque nunca conheceram outra vida devido ao sistema que parecia não gostar que o povo tanto cá como lá abrisse demais os olhos e a vida de todos só começou a melhorar quando Marcelo Caetano ascendeu ao poder e os pretos puderam entrar para a função pública até então reservada quase só a brancos.
Quem mais fazia para que eles aprendessem a ler e a escrever eram precisamente as missões católicas espalhadas por todo o Moçambique.
Confesso que ainda hoje sinto saudades dos anos em que andei misturado com essa gente, porquanto havia neles uma amizade sincera desprovida de artimanhas e artificialismos.
Muito se disse de negativo a respeito dos chamados retornados porque a maioria não tinha conhecimentos dos factos, contudo se me perguntarem se havia maus brancos eu direi que sim porque em parte era o sistema que permitia maus comportamentos e de outro modo era a falta de princípios que faltava a esses maus portugueses pois quem o não foi cá não o podia ser lá.
Agora através de informações que me vão chegando os muitos milhares de portugueses que estão em Moçambique continuam a ser muito respeitados tal como o foram no passado.

Por: Alexandre Teixeira

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