Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-07-2008

SECÇÃO: Opinião

PELA ASSEMBLEIA MUNICIPAL

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A Crónica do Corvo do Mosteiro (2)

Bem posicionado, cá do alto da minha bancada, acompanhei com olhos de corvo e lentes de lupa o desenrolar dos trabalhos que se prolongaram até depois da meia-noite. Houve assim tempo para tudo, desde os momentos de uma sucessão morna de intervenções monocórdicas e monocolores (só falam os do PS), a momentos de maior concentração e seriedade, até de alguma indecisão, como aquele em que a Mesa se afundou em dúvidas, resultantes de mesurados pareceres jurídicos sobre a forma de votar alguns assuntos agendados (se por braço no ar ou por voto secreto). A questão foi ultrapassada pelo Presidente da Mesa que, desta feita, entendeu (bem) dar razão a Júlio Alves e a outros que a ele se seguiram em defesa do voto secreto nas votações que envolviam “juízos de valor” sobre pessoas, como foi o caso da lista de nomeação dos Juízes sociais do Concelho (V. ponto 6).
Sobre tudo o que demais se passou nesta Assembleia não poderá o cronista, por muito isento e equidistante que queira ser, fugir a algumas situações que o condicionam e que, para quem assiste, se tornam por demais evidentes. Referimo-nos, em concreto, à postura e motivação que cada um dos deputados municipais coloca na análise e apreciação das questões ali abordadas. De um lado, uma esmagadora maioria PS, com os seus membros empenhados, bem coordenados e interventivos; do outro, uma oposição esgotada e em debandada Até o elemento da CDU, desta vez, nos pareceu mais passivo e esvaziado no rol das suas divagações…
Mas, o que mais surpreendente se tornou nesta Assembleia, foi a total “UNANIMIDADE” registada em sucessivas votações sobre assuntos tão diversificados. Ao silêncio envergonhado e comprometedor de outrora, que por hábito culminava na apresentação de declarações de voto, onde o PSD justificava por escrito as razões do seu “contra”, aliou-se agora um confrangedor consenso, onde a grande maioria dos assuntos ali apresentados são aprovados por unanimidade, sem que nenhum dos seus membros ouse debatê-los ou questioná-los! Será a resignação total? Ou mera estratégia? Seja como for, já o velho ditado diz, “Se não consegues vencer o inimigo, junta-te a ele”…
A primeira manifestação desse “unanimismo” não surpreendeu ninguém. Tratava-se de um “voto de pesar” pelo falecimento Padre Doutor Joaquim Santos. Foi um momento alto, emocionante, ver toda a Assembleia, logo após a votação, a aplaudir de pé, com o público a associar-se a uma sentida e prolongada aclamação, bem demonstrativa do carinho e consideração que os cabeceirenses tinham e guardam por este ilustre cidadão, sacerdote generoso e afamado compositor musical, nosso conterrâneo recentemente falecido.
A partir daí as intervenções sucederam-se, sempre em estilo monocórdico, até ao último ponto da ordem do dia, em que se apreciou a proposta de Modificação do Orçamento da Autarquia para o corrente ano de 2008.
A importância deste assunto faziam prever alguma animação no debate. Mas não. Os intervenientes foram os mesmos num exercício laudatório à acção do Executivo, desta vez, com mais força e convicção . Com alguns argumentos fortes, diga-se: Em tempos de crise, a Câmara Municipal de Cabeceiras de Basto dá-se ao luxo de apresentar mais obras e mais dinheiro para investimentos no Concelho. Veja-se: A construção dos Centros Escolares de Refojos e de Arco de Baúlhe, a ampliação de Piscina Municipal coberta na Sede do Concelho e o início da construção da Variante Sul (Lamas, Barbeito, Sobreira), são as obras que estão na base desta revisão, com o reforço da receita orçamental em 1.049.005,00€ (cerca de 210 mil contos).
Perante tamanha abastança, houve até quem reclamasse uma melhor repartição do “bolo” : – Porque não, uma variante para Vila Nune? Questionou o Presidente da Junta de Freguesia local. - E se esse dinheiro fosse repartido por todas as freguesias? Insistiu o seu correligionário de Bucos.
Estas intervenções geraram alguma controvérsia entre “galos do mesmo poleiro”, mas foram prontamente moderadas pelos líderes da bancada socialista sem mais consequências que não fosse dar oportunidade ao Presidente da Câmara Municipal para intervir e brilhar, enunciando as obras acima referidas como verdadeiros “troféus” e como o resultado da sua boa governação, “não para o agrado de apenas alguns, mas para benefício de todos os Cabeceirenses”, disse.
Quem não assistiu a esta contenda final foi Júlio Alves, que, de novo se “escapou”, ainda o relógio da torre não dera a meia-noite. Do que, certamente, este conhecido deputado municipal não se livrou foi do olhar crítico e sorriso cáustico de alguns membros, quando este se expôs, ao despedir-se em cochicho do Presidente da Mesa. Se a moda pega!?...

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