Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 07-07-2008

SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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O Fidalgo Mendigo (II)

(continuação)
Quem era então o Fidalgo-Mendigo?

Majestoso na miséria
Tal tu eras, réo sublime
D’uma agonia suprema!
Ainda assim, não resolvias
Da deshonra e da virtude
O lacerante problema.

Camilo revela-o na nota que acompanha a poesia inserta em “Um livro”, cujo texto integral é:

“ Este caracter, ligeiramente esboçado, não é fantástico nos traços essenciaes. O homem, que ahi se pinta, foi, viveu, e conheci-o tal, na primeira luz do quadro, em que os acessórios, o ornato, é o que menos val. Chamava-se José Pacheco de Andrade. Oriundo de uma das mais distinctas famílias de Cabeceiras de Basto, era filho do capitão-mór Serafim Pacheco dos Anjos. Senhor do vasto morgadio de Friume, em Ribeira de Penna, dissipou-o em hypothecas tão ruinosas para elle como para os especuladores, os quaes deixando morrer de fome o senhor do vínculo, viram-se despojados das regalias da fraude e dolo pelo successor immediato.
José Pacheco de Andrade, quando eu o conheci, trazia sobre os hombros uma manta, apontoado de farrapos, uma tigela vermelha debaixo do braço, e dormia no palheiro d’um lavrador, onde creio que morreu. Representava quarenta e quatro annos, quando muito. A fome não podera ainda descompor-lhe o rosto fino e feminil. A expressão torva, pânica, e repulsiva tinha-a nos olhos coruscantes e incovados. No trato era rude e affavel. Tinha ásperas vaidades de fidalgo, que se esquece de que é mendigo, e mansas humilhações de mendigo, que se esquece de que é fidalgo.
A parte da sua casa, não vinculada, andava por mãos de mulheres (donzellas, não…) dotadas umas a cem, outras a duzentos mil reis: era conforme a cara, que tinham. Ás feias dava mais. Mas tudo isto fôra em bom tempo. No fim, como sabem, pedia uma tigela de caldo.
O caso é que, de tal homem, há muito que dizer, e eu prometo dizer muito n’um romance.”
Camilo promete escrever um romance sobre a vida deste homem. Não o fez. Deu mais alguns retoques na sua biografia quando o apresenta em “Cenas da Foz” como um exímio jogador de pau e que vai ensinar este jogo ao Bento de Castro da Gama, natural da Casa de Olho Vivo de Refojos e ao seu amigo João Júnior.
Nos “Mistérios de Fafe” Camilo acrescenta aos dotes do fidalgo a sua condição de capitão de um bando de salteadores que infestaram a serra do Ladário entre 1823 e 1832 e onde numa pequena nota Camilo diz: “Assim o conheceu o autor em 1843. Não deixou descendência que possa doer-se d’estas revelações. Tamanho desgraçado era providencialmente justo que morresse todo consigo, na idade de 42 anos.
Nada mais se conhece de Camilo sobre esta personagem. Deve-se a um grande ribeirapenense – ainda que nascido em Coimbra – António Canavarro de Valladares, (1904-1981), neto dos 2ºs barões de Ribeira de Pena e filho do Dr. Francisco Canavarro de Valladares (que foi notário em Cabeceiras de Basto) a decifração da identidade do “Fidalgo-Mendigo” no seu estudo “Camilo e Ribeira de Pena / O Fidalgo Mendigo”, publicado no “Boletim da Casa de Camilo, 3ª série, nº 6, de Dezembro de 1985” e do qual nos aproveitamos do essencial.
Assim, Camilo conheceu na verdade o “Fidalgo-Mendigo”, durante os 2 anos da sua estadia em Friume (1841-1843). O Fidalgo chamava-se José Pacheco de Andrade e Vasconcelos, teria nascido por volta de 1801, sendo filho do então capitão-mor do concelho de Cabeceiras de Basto, Serafim dos Anjos Pacheco de Andrade, oriundo de famílias abastadas da aristocracia rural de Carrazedo de Basto e de Friume de Ribeiro de Pena. José era o único varão e tinha 5 irmãs. Sabe-se que casou em 26 de Maio de 1834 com Ana Rita, em Friume. Era “um brigão por natureza, mulherengo impenitente, bêbedo contumaz”. Entre 1823 e 1830 tornou-se chefe de um bando de salteadores que infestava a serra do Ladário, bando que se teria desfeito quando o pai de José Pacheco, o capitão-mor Serafim dos Anjos, faleceu em 1830. Da posse de um bom património, o chefe quadrilheiro largou os assaltos aos capitais dos passantes da serra do Ladário e dedicou-se com maior dedicação à caça de mulheres. Daí a afirmação em “Mistérios de Fafe” do dono da locanda que afirma: “Pois, senhores, saibam vocemecês que vindo eu de Traz-os-Montes aqui ha mezes, encontrei o fidalgo de Basto, na terra onde elle tivera uma casa com dez mulheres todas d’elle…”
Camilo conheceu o Fidalgo-Mendigo teria 17 ou 18 anos pois assim o declara expressamente em “Mistérios de Fafe” na nota em que diz: “Assim o conheceu em 1843. Não deixou descendência que possa doer-se d’estas revelações. Tamanho desgraçado era providencialmente justo que morresse todo consigo, na idade de 42 anos”.
São apontadas algumas falhas nesta nota Camiliana, não interessando muito a data em que poderá ter conhecido o Fidalgo, assim como a data exacta da romaria do conto “Como Ela a Amava”, onde já Camilo descreve José Pacheco de Andrade: “Um morgado, meu vizinho, de nome José Pacheco de Andrade, filho do antigo capitão-mor de Basto” e que Camilo diz ter sido em 23 de Agosto de 1842. Mas também diz que só tinha quinze anos, quando, afinal, nasceu em 16 de Março de 1825.
Mas se Camilo não acertou na data em que conheceu o Fidalgo, parece ter acertado na data da sua morte, 1843, que é a mesma que é apontada por António Canavarro Valladares.
Onde Camilo não acerta é quando diz: “Não deixou descendência que possa doer-se destas revelações”. É verdade que não teve filhos legítimos de sua mulher Ana Rita, mas “sobreviveram-lhe muitos parentes, visto que, à face da resenha genealógica que sumariámos, se verifica que as irmãs e sobrinhos eram numerosos e dispersos pela região, desde Vila Real até Cabeceiras de Basto.”
Camilo dá-o como falecido em extrema miséria. Que fez ele à herança que recebeu de seu pai?

(continua)

P.S. – O artigo anterior contém pequenos erros que o leitor fará o favor de emendar. Mas onde se lê “foi quase freire bento…” deve ler-se “fui quase freire bento…”, ainda que Camilo também ainda tenha frequentado aulas do Seminário do Porto; onde se lê, “na estreia da sua sombra”é “na esteira” e, finalmente, onde está “ o rumos da fuga dos festeiros” é “e o rumor…”.

Por: Francisco Vitor Magalhães

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