Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 16-06-2008

SECÇÃO: Opinião

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HISTÓRIAS DE ÁFRICA (9)

A vida de capataz de via não era fácil em África. Enquanto não havia filhos em idade escolar, era-lhes dado sempre os piores lugares que tanto podiam ser em pequenos lugarejos, como completamente isolados.
Foi na verdade o que também me aconteceu a mim como é cabido naquele tempo ainda não havia televisão e já era grande sorte ter um rádio que sintonizasse a Emissora Nacional para ouvir os relatos de futebol.
Contudo para quebrar o marasmo lá imã acontecendo umas historinhas de vem enquando e que eu aqui partilho com os eventuais leitores.
1 – Estava eu a trabalhar no apeadeiro de Belas, quando ouvi uma grande restolhada no mato e que vinha na minha direcção, era uma grande gazela que dum salto atravessou a linha para o outro lado e logo em sua perseguição vinham três cães do mato um dos quais só com três patas. Ao ver-me pararam e logo os corri à pedrada. Chamei os trabalhadores e apontei o local onde estava a gazela a descansar. Um deles mais afoito pegou num ferro e foi junto da gazela tentar espetar-lhe a verguinha mas apanhou semelhante marrada que foi de cangalhas pelo mato fora a gazela pôs-se ao fresco e o episódio acabou em gargalhada.
2 – Desta vez a história passa-se com um macaquito que a pouca distância estava em cima de uma árvore e um cachorro teimosamente ladrou toda a manhã não o deixando descer. Foi quando um dos trabalhadores me pediu para matar o macaco porque ele comia carne de macaco. A contrafeito e com o preto a meu lado lá deu um tiro ao bicho mas quando ele cai no chão o cão que por ali estava escondido dum salto pegou nele na boca e ala que se faz tarde. Quanto ao preto que já estava de dente afiado ficou sem almoça.
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3 – Um dia um factor da estação do Garuso ao emitir uma ordem de avanço para um certo comboio fê-lo de forma errada e originou um tremendo choque de comboios na minha área de trabalho. Felizmente não se perderam vidas mas o material circulante ficou muito danificado. Entre os vagões havia um que trazia muitas caixas de chocolate e logo que foi descoberto pelos trabalhadores assaltaram as caixas e foi comer chocolate até chegar com um dedo, mas dada a sofreguidão de comer o mais possível e devido ao calor escaldante, logo começou a produzir efeitos e era tal a diarreia que só se viam pretos por aquele mato fora a pintar à pistola. Como a situação era caricata foi um fartote de gargalhadas.
4 – Estava eu no porto da Beira, quando um guindaste procedia à descarga de barrris de vinho tirados do porão. Acontece que os barris vinham dentro uma rede e eram vários, mas um deles tinha rebentado e a jorrar vinho para o chão e logo a pretalhada ali à volta largaram tudo e correram para debaixo do guindaste a aparar o vinho nas bocas sequiosas, o maquinista parou a descida da lengada enquanto aquela gente tomava banho com vinho e o banho só acabou quando o barril despejou os cem litros que trazia. Foi uma boa cena para registar.
5 – Sempre que eu chegava ao local de trabalho, mandava montar uma tenda sobre a zorra para a hora do almoço. Um dia estava a almoçar quando vi ao longe um tornado que na sua caminhada tudo levava para as alturas. Fiquei parado à espera que ele mudasse de direcção o que não aconteceu, então investe contra mim eu estremeci mas não trazia força para me levantar mas a barraca foi pelos ares e eu fiquei com cara de caso com a panela na mão.
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6 – Por motivos de trabalho, tive um dia que penetrar numa floresta tão densa, tão frondosa que só podia abrir caminho à força de catanas. O meu pessoal estava um pouco adiantado de repente vi-me sozinho cercado por uma bando de macacos que em atitude ameaçadora executavam por cima da minha cabeça saltos rasantes que me deixavam um pouco assustado. Então tive a ideia de pegar num pau a fazer de espingarda e apontei na posição de tiro, os pequenitos fugiram em grandes gritaria, mas os macacos velhos olharam com desprezo e muito lentamente lá se foram afastando atrás dos mais pequenos e eu aliviado pensei que afinal o estratagema tinha resultado.
7 – A história que se segue aconteceu num dia muito claro, mas, quando olhei para o céu, vi que em direcção à vila se deslocava uma grande nuvem escura que por vezes escondia o sol. Quando chegou perto vi que se tratava de uma praga de gafanhotos verdes e que certamente eram aos milhões. Como à volta da vila havia muita verdura os gafanhotos pousaram e há que devorar tudo quanto por ali havia a ponto de ficar apenas os tocos das plantas. Acontece que entretanto surge um comboio de mercadorias que à passagem pisava os gafanhotos que estavam em cima dos carris e tantos milhares pisou que engordurou de tal maneira a mesa de rolamento dos carris que a máquina começou a patinar e mesmo com os areeiros abertos não saía do sítio a ponto de ser tanta a fricção que já saíam faíscas por todo o lado. Para sair dessa situação o maquinista teve que recuar o comboio várias centenas de metros, abriu os areeiros e embalou a todo o vapor e assim conseguiu retomar a marcha.
8 – Em climas quentes há como sabemos muita bicharada. Eu gostava particularmente de matar cobras e metê-las na fornalha das máquinas e por isso fui cuspido duas vezes. Os lacraus rodeava-os de palha chegava-lhe o lume e eles não podendo fugir suicidavam-se antes de ser queimados.
Um dia vi que monte abaixo deslizava uma cobra, peguei na caçadeira dei-lhe um tiro e matei a dita cobra. Como nunca tinha visto outra igual pendurei-a nos canos da espingarda e fui mostrá-la aos trabalhadores, mas estes ao ver que se tratava duma mamba embora morta, largaram as ferramentas e desataram a fugir tal era o pavor que sentiam por essa espécie pois segundo diziam que a mordedura da mamba matava em apenas cinco minutos.

Por: Alexandre Teixeira

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