Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

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SECÇÃO: Opinião

NO RASTO DOS PASSOS DE CAMILO POR TERRAS DE BASTO

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Camilo não é, dos escritores, o meu favorito. Primeiramente estão Aquilino, Eça e Ferreira de Castro. De Camilo gosto do diálogo, das palavras bem portuguesas, da ironia contundente, do sarcasmo amargo; detesto o romanesco, as divagações filosóficas. Tem páginas maravilhosas ao lado de textos escritos ao correr da pena, pressionado pela necessidade de realizar dinheiro. É magnífica A BRASILEIRA DE PRAZINS que lhe custou três anos, como são magníficos A CORJA e EUSÉBIO MACÁRIO, quanto tenta ridicularizar o realismo de Eça.
No entanto desde muito novo que conheço a obra de Camilo. Como a poderia desconhecer se o seu livro “A BRUXA DE MONTE CÓRDOVA” abre assim:
“O capitão-mor de Cabeceiras de Basto morria por ela.
Dois frades bentos de S. Miguel de Refojos andavam como energúmenos desde que a lobrigavam na sua Igreja.
O juiz ordinário, o alferes de milícias, o juiz dos órfãos, o escrivão das sisas, o boticário e o mestre-escola farejavam-na, tanto à inveja, que a rapariga, quando eles, um por cada vez, se lhe faziam encontradiços, resmoneava, formando com os dedos uma figa oculta:
- Eu tarranego, diabo”.
Compreende-se: sou mesmo de cá, conheço como as minhas mãos todo o mosteiro, foi quase freire bento…
E naquela altura também era um aspirante a escrivão das sisas, que vim a ser.
Não admira assim que tivesses escrito para o jornal da terra, o Jornal de Cabeceiras, injustamente desaparecido, um pequeno artigo sobre Camilo, que despertou a atenção de um ferrenho camilianista, espanhol, Sr. J. Perez, conceituado comerciante do Porto, que me contactou através do Sr. Tenente Gonçalo Meireles, proprietário da Casa de Santo Antonino, ilustre oficial do Exército, a quem, por aquela altura, eu punha em certa ordem a sua vastíssima biblioteca.
Do contacto – fugaz – com aquele camilianista e da razoável camiliana do ilustre oficial – esteve em Monsanto em 1919 – entrei em contacto com a vastíssima obra de Camilo. Impulsionado pela sua desditosa vida e amores desgraçados dei-me em percorrer os seus passos, na estreia da sua sombra. Assim ouvi o retocar dos sinos de S. Salvador da Ribeira, entrei na arruinada casa de Friume, farejei os lobos de Samardã, visitei-o na Cadeia da Relação do Porto, rezei pela sua alma no cemitério da Lapa. Com Camilo percorri trechos da minha terra e de toda a região de Basto. Conheci as poças em que “meu vizinho, de nome José Pacheco de Andrade, filho do antigo capitão-mor de Basto, Serafim dos Anjos Pacheco de Andrade, oito dias antes, mandara demolhar em poças um braçado de paus de carvalho, com o fim de lhes dar elastério, e cingirem-se melhor com as costas da vítima.
Esses paus de carvalho foram utilizados na penumbrosa noite de 23 de Agosto de 1842 na romaria de S. Bartolomeu, na ponte de Cavez, em que os rivais de Cerva e de Mondim se defrontaram pelo amor da Isabelinha do Reguengo, refrega que Camilo imortalizou no conto “COMO ELA O AMAVA”.
Agora, sempre que passo a ponte de Cavez, olho o Tâmega em cujas águas parecem navegar as camisitas das crianças tolhidas levadas ao S. Bartolomeu, ouço as vozes altercadas do Victor de Mondim e do morgado de Cerva e o rumos da fuga dos festeiros fugindo da refrega medonha “que ali parecia que se ia acabar o mundo”.
Convido-o, caro leitor, a reler Camilo. A lembrar a parte da sua vida e das suas obras que se passam nas nossas terras de Basto. A conhecer os lugares que pisou, os solares em que viveram as personagens dos seus dramas, personagens que existiram mesmo, que viveram e amaram os lancinantes dramas camilianos.
Procure-o no convento de Refojos onde diz ter passado excelentes tardes, visite-os em Friume e em Fermil, na botica de Macário, suba com ele o escadório do Bom Jesus do Monte, procure-o atrás de uma pipa de verde na romaria da Senhora Aparecida, dê dois dedos de conversa com o Fístula, um olhar de soslaio para as coxas bem fornidas da Troncha, venha passar a barca de Atei, ali no nosso Tâmega:
“Encaminhou-se para isso ao primeiro ponto de passagem, que era aquele onde eu viera ter à margem oposta, e que me lembra agora chama-se Viela. Estava do lado dalém da barca. Bernardo Pires chamou algumas vezes o barqueiro. Ninguém o ouvia: mas dera por ele uma rapariga. Irmã do dono da barca e da azenha. A corrente do Tâmega ia grossa de mais para pulso de mulher; mas Teresa era atrevida, e o irmão só a desoras viria acudir à ansiedade do passageiro. Desatracou o barco, arremangou a camisa, cuspiu nas mãos áridas do trabalho, travou a vara, sondou com ela o vau, deu o primeiro impulso à barca, e daí até à margem oposta mais três vezes se afigurou a Bernardo Pires que a torrente a ia arrastando ao açude que se despenhava, cem passos abaixo, com fragor medonho. De cada vez que Teresa fincava o peito à ponta da vara, a vara resistia à torrente que a mergulhava, e rebentava para dentro dela em tufos de espuma; depois, apertada entre a onda e a vara, gemia pelas junturas, e a possante barqueira, brincando com a morte ou ignorante do perigo, a cada guinada que a barca dava galgando a corrente, exclamava com alegria:”Salta minha andorinha”.
Na companhia do “Ecos de Basto”, convido-vos a partir de agora a seguir no rasto dos passos de Camilo pelas nossas Terras de Basto.
(continua)

Por: Francisco Vitor Magalhães

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