Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 26-05-2008

SECÇÃO: Opinião

BARCO À VELA

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Humberto Delegado & Nós

1. Em 1958, houve em Portugal um homem que desafiou a ditadura salazarista: chamava-se Humberto Delgado e, embora fosse general, com fatais ligações ao regime vigente, representou então o grito de liberdade que outros, menos capazes ou menos corajosos, não foram capazes de assumir.
2. Interrogado, no lançamento da sua candidatura, sobre o que faria ao presidente do conselho (António Oliveira Salazar) caso ganhasse as eleições, foi lapidar: “Obviamente, demito-o.”
3. O regime fascista tratou de, por todos os meios, silenciar este combatente: filtrando as notícias nos jornais e na rádio, censurando opiniões, lançando boatos, mentindo, manipulando, prendendo, agredindo, “excomungando”.
4. Mas deu-se, há cinquenta anos, esse milagre, recorrente na narrativa da humanidade e das civilizações, de o povo vencer o medo e a “verdade oficial”. Pelo país, repetiram-se manifestações de apoio ao general, como se Portugal fosse visitado por um magno vento libertário, ao arrepio de instruções ministeriais ou da repressão policial (fardada ou secreta).
5. Sabe-se que esta história não acabou bem, se vista do lado dos que amam a liberdade. Delgado, recorde-se, foi vítima de uma das maiores vigarices eleitorais da História. Mais tarde, seria obrigado ao exílio. Finalmente, foi assassinado, em território espanhol, muito perto da fronteira portuguesa. Só no dia 25 de Abril de 1974 se cumpriria o sonho do general.
6. Celebrar, hoje, Humberto Delgado e a sua luta significa estar activamente do lado das causas que valem a pena: liberdade, democracia, tolerância, cidadania.
7. Por razões de economia, há em Portugal quem esteja disposto a pactuar com alguns regimes (africanos e asiáticos, sobretudo) onde valores fundamentais da dignidade humana são postos em causa. Nada se lhes aponta ou exige porque política e economicamente não é oportuno.
8. Hoje, como em 1958, é importante que nos perguntemos de que lado estamos. O comodismo é uma forma de paz podre. E a hipocrisia, ainda que elevada a razão de Estado, não deixa de ser o que é: uma prostituta com um livro de cheques no lugar do coração.

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