Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2008

SECÇÃO: Cultura

foto
BARCO À VELA
Literatura & Liberdade

A convite da Dra. Stella, participei na cerimónia de atribuição do nome do Dr. António Carvalho à Biblioteca Municipal de Cabeceiras de Basto. Li, na ocasião, um texto que versava a questão da literatura e da leitura – e a gravidade que atribuo à crise por que passam estas dimensões da sociedade dos nossos dias. É o essencial desse texto que decidi publicar, nesta coluna de opinião. E é por isso que, desta feita, a minha crónica tem um segundo título. Ei-lo:
A Biblioteca com lugar humanista
1. Por motivos académicos, tive de ler recentemente dois livros que punham em questão – cada um a seu modo – o papel e a importância da literatura, nos dias de hoje. Tratou-se de La Littérature en péril [A Literatura em perigo], de Tzvetan Todorov (Ed. Café Voltaire – Flammarion, 2007) e de L’Adieu à la Littérature [O Adeus à Literatura], de William Marx (Ed.Les Éditions Minuit, 2005). Os títulos já falam por si: há, desde há alguns anos, a percepção de que o valor da literatura, na sociedade, é objecto de dúvidas, de interrogações. Já não é indiscutível que valha a pena estudar, conhecer, saber literatura.
2. Eu creio que a ideia da literatura em crise não pode ser dissociada de uma outra ideia: a de que a própria sociedade humana, como nos habituámos a entendê-la, está em crise.
3. São vários os motivos por que a literatura é hoje considerada de duvidosa utilidade e interesse.
3.1. Sob uma perspectiva economicista, é hoje tido por excessivo investimento (em tempo, recursos, dinheiro) o ensino da literatura, o valor dos livros, o estatuto de escritor ou de estudioso do fenómeno literário.
3.2. Do ponto de vista sociológico, a crise da literatura tem muito a ver com a oferta lúdica e cultural que o mundo moderno apresenta aos cidadãos: cinema, televisão, rádio, desporto, viagens, jogos de computador, música, discotecas, internet. O livro debate-se com o pouco tempo que resta – e, pormenor não despiciendo, com a falta de disposição para o dificultoso exercício da leitura.
4. “É o progresso”, dirão os optimistas ou os distraídos. Mas o problema está em que o fim do livro, a existir, significará mais um retrocesso que um progresso.
5. A crise da leitura, como doravante prefiro chamar-lhe, é um problema de cariz civilizacional. Convido os que me lêem a fazer o exercício, simples mas prenhe de consequências, de imaginar um mundo sem leitores. Não é sequer difícil, se pensarmos em boa parte das pessoas que conhecemos.
6. Houve um tempo em que saber literatura conferia prestígio. Isso mudou. Lembro-me de um primeiro-ministro, em visita a uma Escola, se gabar do facto de não saber quantos Cantos tem a obra Os Lusíadas (de Camões); ou de um deputado que, citando os versos de Mensagem (de Fernando Pessoa), “Tudo vale a pena / Se a alma não é pequena”, os atribuía “ao povo”.
7. Não está aqui em causa, sublinho, qualquer tipo de obrigação de os políticos ou governantes serem profundamente cultos, na área da literatura. É apenas a constatação de uma evidência: alguns dos nossos mais altos representantes valorizam pouco, na esfera das suas próprias vidas, essa área do saber e do conhecimento.
8. A leitura de um livro é um exercício superior da inteligência. Ao contrário de outras formas de expressão, em que o receptor se limita (quase) a receber, passivamente, com o livro há a necessidade inelutável de interpretação. O leitor arranca do enunciado sentidos, vozes, vidas, humanidade.
9. Acresce que a literatura – à semelhança de outras artes – é um modo de contactar com o Absoluto. Ora, mesmo os mais ferozes ateus dificilmente refutam a dimensão religiosa do ser humano. Somos mais que esta homeostática circunstância de comer, beber, dormir, cuidar da reprodução. Precisamos de outros mundos. Precisamos de ideais. Precisamos de acreditar. Precisamos de sonhar. E precisamos de aumentar a consciência do que somos e do que, enquanto raça não apenas animal, queremos ser. A literatura, escrita e lida, tem tudo a ver com isso.
10. É curioso o facto de as religiões assentarem sobre livros. Os chamados “livros sagrados”. É na leitura destes livros que os crentes procuram orientações, luzes, consolação, esperança, verdade. Ora, estes livros estão cheios de ambiguidades poéticas, de conotações, de polissemia. Por isso é tão importante a interpretação, idealmente conhecedora, idealmente competente, idealmente autorizada. No caso da Igreja Católica, é função do padre, durante a homilia, iluminar os sentidos essenciais do texto bíblico.
11. Gostaria de extrapolar. Creio que toda a leitura implica este mesmo esforço de reflexão, de atitude inteligente e interessada, de desafio perante o texto. O livro parece dizer, a cada momento: “Atreve-te. Ofereço-te, em troca do teu tempo, revelações. Epifanias. Ofereço-te pedaços de Absoluto. Ofereço-te a divina possibilidade de saberes mais sobre ti.”
12. O livro e a leitura pertencem ao mundo que há entre o chão e o céu. Se lermos, e se formos tocados pelo que lemos, voamos. Do chão ao céu. Isto é: saímos da pobre mediocridade que somos antes de lermos. Entre o nada e a revelação, há aqui um ponte chamada linguagem.
13. A linguagem é, em boa medida, o que nos distingue dos outros animais. Falar de um assunto implica o complexíssimo processo de materializar (em sons, em sinais de escrita, em palavras, em frases) algo que é sobretudo abstracto. E perceber o que alguém nos transmite é talvez ainda mais difícil: obriga o receptor a, pela sinuosa estrada dos signos disponíveis, reconhecer a ideia, a emoção, o pensamento, a voz do emissor. Assim acontece este milagre de conversarmos com Camões, Pessoa, Shakespeare, Eça de Queirós, Ruy Belo, Sophia Andresen, Steinbeck, Garcia Márquez, Saramago. Os vivos e os mortos. Todos vivos, afinal, se os lermos.
14. O objectivo dos escritores, quando escrevem, é exprimirem-se. Mas dessa necessidade resulta o enriquecimento da própria linguagem humana. E do reconhecimento desse enriquecimento resulta que a humanidade se acrescenta, ela também, de linguagem.
15. Quando alguém, em seu ofício de escrita, oferece ao mundo mais versos, mais metáforas, mais histórias, mais dramas, mais comédias – há uma espécie de inauguração incompleta de um tesouro. Incompleta porquê? Porque falta que alguém leia (e, se possível, leia bem) esses textos para que os textos realmente funcionem. Para que os textos realmente existam.
16. A literatura é, por natureza, universal, se for boa literatura. Funda-se na experiência humana e estético-verbal de um escritor, mas ascende a enunciação de um absoluto, que ilumina a própria raça humana. As dores, os sonhos, as razões, as dúvidas, as palavras de Camões – são as dores, os sonhos, as razões, as dúvidas e as palavras do leitor de Camões. De muitos leitores, de muitos séculos. E é por isso, por essa transtemporalidade e por essa universalidade, que ler é uma experiência tão profundamente humanista.
17. Jorge Luís Borges, extraordinário escritor argentino, falou muitas vezes desse lugar mágico que uma biblioteca é. Aqui, onde estamos, há centenas (talvez milhares) de homens e mulheres que reflectiram sobre as glórias e fragilidades da condição humana. Autores, poetas, dramaturgos, romancistas, pensadores. São decerto algumas das mais brilhantes almas que já existiram desde que há mundo. Ouçam-nos. Querem falar connosco. Querem revelar-se (e, revelando-se, ajudar-nos à descoberta de nós próprios). Mas precisam do nosso tempo, da nossa paciência, da nossa entrega.
18. No dia 25 de Abril, completaram-se trinta e quatro anos sobre a data em que o Movimento dos Capitães trouxe a palavra Liberdade para as ruas. Eu defendo que a literatura é mais literatura se entendida à luz do significado profundo de liberdade. Pode viver-se sem liberdade? Pode, mas não seria bem vida. Pode viver-se sem literatura? Talvez, mas não seria bem vida.
19. Ouvi, ainda ontem, o cantor basco Patxi Andion, numa breve entrevista televisiva, a falar sobre liberdade. Dizia ele, recordando o nosso 25 de Abril de 1974, que aquilo fora uma conquista, mas também que se tratava sempre de um começo, de uma tarefa por terminar. Tem razão o basco. Todos os dias é tempo de lutar pela liberdade, de a conquistar, de a merecer.
20. No concelho de Cabeceiras de Basto, há uma bela Biblioteca. (E foi construída no Arco, para minha pessoal satisfação.) A Biblioteca, como atrás se disse da liberdade, é um começo. É, agora, apenas um formoso edifício e uma colecção de materiais de cultura. Crescerá na medida em que consiga atrair mais leitores, mais regulares leitores, mais interessados leitores. Crescerá na medida em que, pela sua dinâmica, se assuma como espaço vivo, polarizador e catalisador de actividades culturais válidas e dignas.
21. Eu acredito no futuro das bibliotecas. Acredito no futuro desta biblioteca.
22. Quando, perante a iminência do fecho de um hospital ou centro de saúde, as pessoas se revoltam, tal significa que as populações sentem o valor da saúde. Pergunto: e se, de súbito, as gentes do concelho de Cabeceiras de Basto soubessem que, por razões de mercearia orçamental, a sua Biblioteca teria de fechar?
23. A minha utopia (humanista) é esta: no futuro, perante essa possibilidade, haveria uma manifestação esmagadora e no “Jornal de Notícias”, na primeira página, ver-se-ia um cartaz veemente: “A Biblioteca é do Povo!”
24. Os autores de La Littérature en Péril e de L’Adieu à la Littérature, que referi no início deste enunciado, têm razão para estar preocupados? Sim. A literatura está em perigo – e, com ela, a civilização humana como a entendemos. À sua preocupação junto a minha (de professor, escrevedor, amante dos livros de agora e do futuro). Mas eu tenho hoje uma boa notícia para nós todos: há uma Biblioteca nova, no Arco. Recebeu o seu baptismo onomástico no mês mais bonito do calendário da liberdade. Foi, nesse dia 26, outra vez 25 de Abril.
25. É minha profunda convicção que uma obra destas é motivo de satisfação e orgulho para todos os munícipes de Cabeceiras de Basto, independentemente de credos político-partidários.
26. A terminar: este meu texto só por impossibilidade física tem esta forma de folha impressa. Se estivesse em meu poder dar-lhe um corpo diferente, haveria a forma de um cravo de Abril. Ou talvez, perdoai, de um cartaz dizendo: “A Biblioteca é nossa! A Biblioteca é do Povo!”

Poema 1

A Biblioteca do Arco
Fica ao cimo da paisagem
Há nela a forma de um barco
E nós somos a viagem.

Cada livro é marinheiro
Do mar que há na leitura
(Marinheiro verdadeiro)
De pescar e de aventura.

Vai-se dos livros ao mundo
Como do cais à viagem
Não há mapa mais profundo
Que o mapa da linguagem.

Livro, veleiro breve
Batel, barca, nau de ser
Caravela que me leva
À Ilha de Conhecer.

Sou mapa, mar e sou nau
Caminheiro voador -
Vou de livro até Macau
Vou de livro ao meu amor!

É tão pertinho Macau!
É tão perto o meu amor!

Arco, 26 de Abril de 2007.


Poema 2

Era uma vez uma menina
Era uma vez um rapaz
Era uma vez uma coisa
Era uma vez tantas vezes
Era uma vez um lugar morto
Onde não valia a pena contar histórias
Era uma vez eu
Era uma vez uma aventura impossível
Era uma vez a minha avó contadora
Era uma vez a minha mãe oferecendo-me
Leite e histórias de crescer
Era uma vez o livro
Era um vez tantos livros
Era uma vez um tesouro
Era uma vez os nossos olhos sedentos
Era uma vez a sede do nosso raciocínio
Era uma vez a urgência de água
Para o coração
Era uma vez um rio de fantasia
Morto se não corresse em nós
Era uma vez a luz
Era uma vez a escuridão
Era uma vez a luz vencendo a escuridão
Era uma vez a palavra
Era uma vez o sentido luminoso das palavras
Era uma vez o açúcar das frases
Era uma vez o aconchego de uma mãe universal
Chamada literatura
Era uma vez a história interminável de ler
Com final feliz por não haver final
Era uma vez uma história com frutos em vez de fim
Era uma vez uma biblioteca
Era uma vez um tesouro de nós
Era uma vez um aconchego de vozes
Era uma vez o passado e o futuro
(era uma vez o presente)
Era uma vez uma menina
Era uma vez um rapaz
Era uma vez uma casa grande como uma avó
Era uma vez um lugar generoso
Como as mãos de minha mãe
Era uma vez um caminho com praia ao fundo
Era uma vez a gente a chegar à praia
Era uma vez o Verão
Era uma vez o Verão todos os dias
Era uma vez um livro
Era uma vez muitos livros
Era uma vez a escrita
Era uma vez hoje.

Arco, 26 de Abril de 2008

JJC: Era uma vez hoje.
Muito obrigado.

Por: Joaquim Jorge Carvalho

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.