Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2008

SECÇÃO: Reportagem

Reviver outros tempos

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A LAVRADA

Há dias, fiquei agradavelmente surpreendida ao tomar conhecimento que no dia 1 de Maio, dia do trabalhador, se iria reproduzir uma lavoura à moda antiga, num campo em Refojos.
Quis saber logo se a dita lavoura se faria exactamente como antigamente, pelo menos na tradição que eu conhecia através das lavradas do meu avô, do meu pai, do Zé de Conselheiros, do Alfredo da Ribeira, da Maria Rosa da Estrada e dos Caseiros do Mosteiro, com todos os usos e costumes.
- Sim senhor! Vai fazer-se tal qual como antigamente – respondeu-me um dos organizadores.
Entusiasmada pela possibilidade de poder registar este acontecimento importante, fui pedir uma informação mais detalhada à Emunibasto, como sempre impulsionadora destes eventos. Perante o meu interesse e sabendo o quanto fui ligada à agricultura durante a minha infância, como sempre revelei através dos meus escritos relacionados com o passado, disseram-me que a ideia do renascer desta tradição tinha sido do “Grupo dos Zés Pereiras de Basto”, a qual foi prontamente apoiada pela Câmara Municipal, pela Emunibasto, pelas Juntas de Freguesia com os seus centros de dia e por outras colectividades.
O local onde ia ser feita a “lavrada” ou “lavoura” como também era conhecida, era a Ponte de Pé, num dos campos da Quinta da Portela, que pertencem ao meu amigo senhor António Duro Magalhães, também dono actual da belíssima Casa da Portela, que eu já descrevi numa crónica anterior.
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Fiquei feliz por ir poder assistir a esta recreação, em local tão bonito e principalmente com boa visibilidade para todos poderem assistir a um costume que o tempo levou consigo há já muitos anos.
Eu sei e, certamente os leitores também sabem, que é grande a preocupação que a nossa Autarquia tem em recuperar as tradições, usos e costumes que fazem parte da nossa história. O passado é o nosso legado que está registado nos anais da história de Cabeceiras de Basto e queremos que os nossos filhos e netos não o deixem esquecer e que continuem a escrever essa história nas páginas em branco que se seguem!
Ainda há muitos instrumentos agrícolas existentes e conservados nalgumas casas particulares e outras no Museu das Terras de Basto. A maior parte ou quase toda a juventude não os conhece, nem sabe para que servem. Também não admira porque há muitos anos, talvez há trinta ou mais, que se trabalha a terra com as máquinas agrícolas, como o tractor, que se, por um lado, vieram facilitar o trabalho, por outro, vieram privar-nos das alegrias que representavam a feitura artesanal dos mesmos e que deixaram saudades naqueles que tiveram a felicidade de participar ou assistir ao desenrolar desses costumes antigos.
O progresso foi avançando, as máquinas foram substituindo as juntas de gado, os arados, a grade presa com o cambão ao gado, para alisar a terra, os homens ou mulheres a puxarem os semeadores, o “mata-bicho”, a merenda a meio da manhã, o almoço, etc.
O tractor guiado por um único homem lavra um campo sozinho e já não é preciso utilizar gado, homens e mulheres para os conduzir, em suma a lavoura é feita em muito menos tempo, menos mão-de-obra utilizada e principalmente tem menos gastos.
Também os campos foram a pouco e pouco ficando abandonados porque algumas famílias foram emigrando à procura de melhor sorte e diga-se com justiça que as condições dos nossos terrenos para a prática da agricultura não dão para amealhar dinheiro, É, como quase sempre foi, uma agricultura de subsistência. Somente os lavradores mais abastados, que lidam com criação de gado, é que conseguiram resistir.
Mas como estava a dizer a Edilidade Cabeceirense, sensível para a conservação do património histórico, para a tradição, e também porque o tempo já não volta para trás, deitou “mãos à obra” conjuntamente com as entidades atrás mencionadas e deram uma “aula” dos usos e costumes dos tempos passados na agricultura tradicional dos nossos pais e avós, e da minha juventude, tentando fazer tudo do modo mais fiel possível.
E foi assim que aguardei com expectativa a manhã do dia 1º de Maio.
Pelas oito da manhã cheguei ao recinto adjacente ao Mosteiro, munida da minha máquina digital para poder registar este “momento histórico”.
No ar pairava um misto de saudade e alegria visível no rosto dos participantes que iriam integrar o cortejo agrícola organizado desde o Mosteiro até ao campo da “lavrada”. À medida que iam chegando “matavam o bicho” (aguardente e broa) ali exposta à disposição, como mandava a tradição. Claro que eu vim já precavida com o pequeno-almoço no estômago.
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Entretanto foram chegando as juntas de gado, puxando carros de bois que transportavam o feno para o gado comer e as alfaias para a dita lavoura como os arados, grades, semeadores, sacholas, gadanhos, forquilhas, cambão e o milho de semente.
Saído o cortejo da Praça da República, atravessou o centro da nossa vila para se dirigir á Ponte de Pé, à Quinta da Portela.
A chiadeira dos carros de bois alertou todas as pessoas da vila e arredores. Este barulho dos carros de bois nos tempos antigos (antes do 25 de Abril) ao atravessar a vila era multa garantida! Tal como andar descalço! Isto já assim era no meu tempo de criança!
As mulheres carregadas com os cestos que levavam a broa, o bacalhau frito e as pataniscas e garrafões de vinho e os homens, devidamente trajados, com as sacholas às costas atrás dos carros de bois, foram qualquer coisa de impressionante, fazendo vir à memória “filmes” de outrora!
Quando chegamos à Casa da Portela, os “agricultores” daquele dia entraram no campo para dar início à “serviçada” até porque a hora já estava avançada! De um dos carros começou-se a tirar, com o gadanho, o estrume que foi caindo aos “montes”. Entretanto os que tinham as forquilhas iam-no espalhando por todo o espaço que ia ser lavrado. A animação era geral! Nunca tinha visto um campo a ser lavrado com tanta gente a trabalhar e a assistir! Houve mesmo alguma euforia a mais, correndo-se o risco de assustar as vacas. Mas tudo correu da melhor maneira.
No meio daquela festa havia gente que já tinha trabalhado na lavoura, e outros que nunca tinham pegado numa sachola mas, naquele dia, todos deram “uma mãozinha”. Fizeram o “cadabulho”, que consiste em rapar os laterais do campo e em volta das videiras onde o arado não chega, enquanto outros iam espalhando o estrume da melhor forma possível.
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As juntas de gado ligadas com o cambão ao arado começaram a fazer os regos “guiados” pelas mãos fortes dos homens, dando ao arado a inclinação necessária de maneira a que a terra ficasse bem “rasgada”.
Outro grupo, depois do arado passar, encarregava-se de “picar as seitas” que são aqueles torrões que ficam mal desfeitos e que convém serem “quebrados” para facilitar o trabalho da grade e para que a terra fique “soltinha” e pronta para a sementeira.
Entretanto os garrafões do vinho e da água iam passando de mão em mão pois o esforço era demasiado, e a maior parte já não estava habituada nem a idade de alguns ajudava muito.
Como o campo era junto a uma das estradas principais, foi chegando gente de todos os lados. Uns ficaram na ponte que ficava por cima do campo, outros entraram para os terrenos onde estavam instaladas as mesas com o bacalhau frito, as pataniscas, muita broa, azeitonas caseiras, vinho tinto da pipa e água para os mais jovens e para os que não podiam beber álcool.
Os tocadores de concertina e um alegre grupo de pessoas iam cantando para animar os que trabalhavam na árdua tarefa. O Grupo dos Zés Pereiras de Basto andava de um lado para o outro tocando ritmadamente, batendo forte nos tambores e dançando à frente dos trabalhadores, dando-lhes também o incentivo necessário!
Como não podia deixar de ser lá apareceu também o “ramo” transportado por tês jovens, que continha cavacas, salpicões e outras coisas de fazer crescer água na boca.
Por volta das dez e meia foi servida a primeira refeição ligeira, o bacalhau frito, as pataniscas, umas azeitoninhas, muita broa e, claro, a pinga do verdinho, porque o trabalho é duro e o apetite já é muito!
Chegou para todos - trabalhadores e assistência. Eu que andava por ali a tentar tirar a melhor fotografia também participei desta refeição a meio da manhã.
A toalha colocada a todo o comprimento de uma “leira” mais pequena serviu para ali ser colocada a comida. Os agricultores e os assistentes, de pé em volta da toalha, iam comendo, sempre com grande animação entre todos!
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Imagine-se agora as postas do bacalhau bem demolhadinho, frito com ovos caseiros, as pataniscas com bastante salsa, nem sal a mais nem a menos, no ponto, e para empurrar o verde maravilhoso da nossa terra. A broa ainda vinha a estalar! Como disse o nosso maior poeta “Julgue-o, quem não poder experimentá-lo!”
Depois desta “pequena” refeição regressou-se ao campo para acabar o trabalho que ia caminhando para o fim.
Depois do arado terminar, gradou-se a terra, e fez-se a sementeira com o semeador.
E no decorrer desta empreitada tão bela e saudosa, ainda ouvi cantar, por umas senhoras muito alegres, estes versos:

“Sachadeiras do meu milho
Sachai o meu milho bem
Não olheis para o portelo
Que a merenda logo vem

Eu no campo era papoila
Tinha o nome de moçoila
Que no campo anda a lidar

Água leva o regadinho
Água leva o regador
Enquanto rega e não rega
Vou falar ao meu amor!”

As concertinas e os tambores dos “Zés Pereiras de Basto”, acompanhados pelas cantadeiras, lá continuaram a animar a festa até ao final.
Certamente esta recreação de tradições, usos e costumes irá ficar na memória das gentes de Cabeceiras de Basto.
Espero que todos que estão longe da sua querida terra, por esse mundo fora, possam matar saudades e não esqueçam as suas origens. Principalmente não devem esquecer que o trabalho que neste dia de Maio foi feito alegremente, era duro antigamente, com pouca fartura, de sol a sol, e na incerteza do que a Mãe Natureza iria dar.
Eu, pessoalmente fico muito agradecida por ter podido regressar ao passado, dirigindo ao céu uma oração por aqueles que já partiram mas que contribuíram com as suas mãos, com o suor dos seus rostos e com as suas lágrimas, para que o nome de Cabeceiras Basto ficasse para sempre lembrado.
Ah! homens valentes e mulheres de fibra da minha terra!


fernandacarneiro52@hotmail.com

Por: Fernanda Carneiro

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