Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 05-05-2008

SECÇÃO: Opinião

foto
HISTÓRIAS DE ÁFRICA (7)

Depois do mau começo que passei no Garuso, em Vila de Manica tudo foi diferente.
Esta vila por sinal muito bonita e que antigamente se chamava Macequece, pertenceu em tempos ao Império de Monomotapa e reino de Matavel. Situa-se a poucos kms. Da fronteira do Zimbáue’e e cidade de Untali.
Macequece ou Vila de Manica é uma vila muito antiga pois os primeiros exploradores que por ali passaram remonta à mais de quatrocentos anos e os seus nomes constam no monumento que existe no centro do jardim. Foi aí também que o major Caldas Xavier à frente de um punhado de bravos soldados que partindo da Beira forma abrindo caminho ao longo de trezentos kms. Até atingir Manica onde construíram o forte de Macequece para travar o avanço das tropas de Cecil Rhodes, pois o súbdito de sua majestade a Rainha Victória pretendia abrir caminho até ao porto da Beira para ter acesso ao mar já que o seu país não goza desse privilégio.
Manica era uma terra muito rica em agricultura, o comércio estava quase todo nas mãos de Indianos e por ser uma terra fronteiriça era aos fins de semana muito frequentada por rodesianos que tinham um nível de vida bastante superior ao nosso.
Pouco antes de eu aí chegar, tinha cessado a exploração de ouro de aluvião no rio Revué feito por uma draga de origem inglesa, dizia-se até que no bar Hotel Manica por vezes as bebidas eram pagas com pepitas de ouro. Na serra do Vumba havia uma caverna que continha pinturas rupestres às quais ninguém dava importância.
Mas, o cartaz turístico da vila era sem dúvida as touradas. Inicialmente eram apenas garraiadas e que eram o delírio dos rodesianos tal era o seu entusiasmo pelo bull fight e eram tantas as bebedeiras que aliadas à corpolência dos rodesianos que faziam do touro gato-sapato. A praça de touros era castiça, ficava dentro dum morro de muchem construído por formigas (muchem) e que era tão grande que além da arena ainda tinha bancadas com vedação em capim (palha) e às vezes os rodesianos bêbados ateavam fog causando o pânico.
Uma tertúlia na República do Espreita o Furo
Uma tertúlia na República do Espreita o Furo
Depois, por influência dum Juiz Ribatejano foi construída uma praça grande e por lá passaram os maiores toureiros desse tempo, Manuel dos Santos, Diamantino Viseu, José Trincheira, António Badajoz, Mário Coelho e o nosso amigo Ricardo Chibanga que ao tempo era ainda muito novato.
Mal eu sabia que tantos anos depois viria a encontrar na nossa terra o Trincheira e o Chibanga que nos visita todos os anos com a sua praça desmontável.
Mas além da praça, Manica tinha outras valências, um clube, um pavilhão um campo de tiro, campo de futebol piscina etc.
Era uma terra onde praticamente não havia distinção de classes e cada um era respeitado fosse qual fosse a sua actividade.
Foi-me dada uma casa grande quando lá cheguei e com a devida autorização superior reuni mais seis rapazes mais ou menos da minha idade que por lá andavam desgarrados tal como eu e formamos uma República ao jeito das de Coimbra onde cada um de nós em escala mensal era constituído D. Maria que tinha como dever tratar de tudo que dissesse respeito à casa, refeições e tratamento de roupas e no fim do mês apresentava contas que cada um pagava a sua parte sempre em partes iguais.
Imagine-se as macacadas que nós fazíamos todos os dias ao ponto de todas as noites se juntar a nós alguns ilustres e visitantes, tais como o padre da freguesia a quem pregávamos algumas partidas sempre dentro do devido respeito.
Chegamos mesmo a levar para dentro de casa, um burro, uma gazela, uma macaco e outra bicharada. Desde então a minha empatia com Manica passou a ser total até ao dia em que pesaroso a tive que deixar.
Enquanto solteiro e membro da República do Espreita o Furo aos fins de semana era frequente irmos para a cidade de Umtali que já naquele tempo era uma cidade média e muito bem organizada assim como todo o país liderado por Ian Smith. Hoje ao saber que um tal Robert Mugabe fez em cacos aquela nação, sinto uma grande tristeza, pois a Rodésia era realmente um país modelo para toda a África. Grande produtor de tabaco, cobre, cereais, carne e tantas coisas mais. Pode dizer-se que nesse tempo tudo estava nos seus devidos lugares e com um serviço de saúde exemplar.
E nessas condições por essas terras me fui aguentando com plena satisfação até ao dia em que fui para Lourenço Marques prestar serviço militar.

Por: Alexandre Teixeira

© 2005 Jornal Ecos de Basto - Produzido por ardina.com, um produto da Dom Digital. Comentários sobre o site: webmaster@domdigital.pt.