Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-04-2008

SECÇÃO: Opinião

BARCO À VELA

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PAZ

1. Ouvi na TSF, pela manhã, a caminho do trabalho: em Angola, alguém teve a ideia de fazer um concurso de modelos muito diferente do habitual. As concorrentes são vítimas de acidentes com minas: estropiados (sem braços, sem pernas, sem braços nem pernas).
2. A vencedora ganha direito a próteses feitas por medida, com requintes de técnica e de matéria-prima.
3. Toda a notícia era apresentada, na rádio que geralmente prefiro, com um tom laudatório, enternecido, encomiástico. Afinal, dizia-se, tratava-se de chamar a atenção do mundo para as vítimas de uma guerra que não acabou ainda (que não acabará enquanto houver minas espalhadas, traiçoeiras e letais, pelo território angolano).
4. O problema está em que todas as histórias têm o seu reverso. Entre Ribeira de Pena e Arco de Baúlhe, lembrei-me das estropiadas que não vençam o concurso. Não haverá talvez maior crueldade que esta: dizer a uma mulher sem pernas ou braços que perdeu o concurso. E a verdade é que, para haver uma vencedora, fatalmente haverá muitas derrotadas…
5. Num país marcado pela guerra, um concurso de modelos é uma iniciativa solar, alegre, formosa. Uma iniciativa de paz.
6. Mas até aí a presença sombria da guerra é inevitável. Pode dar-se o caso de, numa iniciativa bonita, encontrarmos defeitos terríveis e esquecermos o essencial.
7. É dos livros: a destruição é muito mais rápida que a criação. A morte é muito mais óbvia que a vida. A guerra é muito mais fácil que a paz. O lado bom da existência é menos evidente que o lado mau.
8. Se eu fosse angolano, espectador pontual de um concurso de modelos com vítimas de minas, tentaria concentrar-me na coragem das concorrentes e regozijar-me com a felicidade da (única) vencedora.
9. Sou angolano, enquanto escrevo o que agora escrevo.
10. Portanto: enquanto “vejo” desfilar as concorrentes, decido concentrar-me na dimensão que ali há de criação, de vida, de paz. É uma coisa difícil, eu sei; mas é a coisa certa.

Por: Joaquim Jorge Carvalho

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