Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

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SECÇÃO: Opinião

HISTÓRIAS DE ÁFRICA (6)

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Se a memória não me falha, foi a 18 de Janeiro de 1954 que cheguei a Lourenço Marques, hoje Maputo capital de Moçambique.
Logo procurei descobrir o meu pai entre a multidão que se apinhava no cais. Quando foram colocadas as escadas para o desembarque dos passageiros, corri logo a abraçar o meu pai a quem não via há bastantes anos.
Nesse mesmo dia levou-me para a estação do Incomati nas proximidades de Ressano Garcia e fronteira com a África do Sul, onde meu pai era o encarregado duma pedreira dos Caminhos de Ferro de Moçambique – CFM destinada a produzir brita para a balastragem dos vias férreas.
Meu pai antes de optar pela ida para África já estava ligado à pedra pois fez parte da geração dos grandes pedreiros de Cavez e era filho o mestre Manuel Joaquim Teixeira grande apoiante da causa do famoso padre Domingos e também de Paiva Couceiro.
Chegados ao Incomati, apenas vi a estação a casa do meu pai e a do capataz de via. No dia seguinte fui ver a pedreira e fiquei deveras constrangido pois a maior parte dos trabalhadores apresentavam-se completamente nus apenas tinham um atilho à cintura segurando uma cabaça redonda com um buraco ao centro onde escondiam os órgãos genitais. Até aí julguei que tal espectáculo só existia em cenas dos filmes Bíblicos de Cecil B. Mille que eu tinha visto na minha adolescência nos cinemas do Porto.
Na pasmaceira do Incomati lá me entretinha a ver os comboios passar, os pretos a atravessar o rio acompanhados de cães, pois diziam que os jacarés atacavam primeiro os caninos e só depois as pessoas. Achava também estranho ver muitas pretas com as cabeças empastadas com lama vermelha. Nunca soube porquê!...
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Um dia o meu pai foi a Lourenço Marques falar com o Sr. Director Geral na altura o Eng. Pereira Leite natural de Cavez e que sempre o recebia sem qualquer formalidade.
O Director era irmão do Dr. Camilo da casa da Venda e marido da Sr.ª D. Maria Helena de Alvite e felizmente ainda viva.
No regresso já trazia consigo a minha guia de apresentação no Caminho de Ferro da Beira – CFB e também o bilhete de avião.
No dia seguinte lá me encaminhei para o aeroporto e daí para os serviços de Via e Obras já na cidade da Beira. Foi-me dito que ia para Vila de Manica a 300 kms que era terra de bom clima, só que em Manica o chefe de Secção mandou-me para o Garuso a 50 kms e foi aí que comecei a comer o pão que o diabo amassou.
Foi no Garuso que despertei inicialmente para a África ilusória que me polvilhava as ideias, era um lugar onde não havia comércio, apenas a estação e seus funcionários, o capataz de via e o capataz geral de via e eu o maçarico que me vim juntar ao grupo.
Quando me despedi do meu pai, recebi dele alguns conselhos que se vieram a tornar muito úteis pela vida fora e também 600$00 dizendo que não me podia dar mais porque tinha que mandar a mensalidade para a minha mãe e para os meus sete irmãos que tinham ficado no Porto e foi com este dinheiro que iniciei a minha carreira de ferroviário como praticante de via.
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Então, como não havia casa disponível mandaram-me para uma palhota sem janela, sem espaço e pavimento em terra batida. A cobertura era em capim e paus do mato mas tão velhos que eram pasto dos bichos carpinteiros que regaladamente trabalhavam toda a noite para que eu ao levantar estivesse cheio de farinha e com cara de palhaço. A mobília eram latas de petróleo vazias. A cama era um burro, assim se chamava uma armação em madeira com uma lona arredondada onde se dormia em posição muito incómoda e o banho era tomado dentro de uma bacia a chapinar como os gatos, quanto à comida era sempre à base de enlatados ou então pão seco barrado com leite condensado Cruz Azul, porque nem eu sabia cozinhar e mesmo que soubesse não tinha utensílios nem dinheiro para os comprar.
Valeu-me o capataz Filipe dos Santos pessoa que até hoje muito estimo e que visito sempre que posso na sua terra Famalicão da Nazaré, amigo esse que muitas vezes colmatou aquele imenso role de necessidades que tanto me atormentavam. Hoje mais de cinquenta anos depois dá-me muita vontade de rir e cheguei à conclusão que tudo era próprio do sistema em que os portugueses viviam.
Aprendo a suportar as situações sem queixumes ou rebeldia para não ser apontado a dedo pois bem me recordo da famigerada declaração 27003 que nos faziam assinar quando passávamos a efectivos.
Como não há mal que sempre dure uns meses depois fui transferido para Vila de Manica e então aí já tinha outra qualidade de vida e o passado não mais se repetiu.
É por isso que eu digo muitas vezes que para se sentir a verdadeira África é necessário conhecer o seu interior, as suas populações e tudo o que a elas está associada.

Por: Alexandre Teixeira

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