Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 14-04-2008

SECÇÃO: Opinião

O ÚLTIMO CONDE DE BASTO

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Vingança sobre um cadáver

A vingança é um dos mais torpes sentimentos humanos. É muito maior a dignidade de quem respeita um cadáver de que aquele que só sabe respeitar o adversário porque o teme. O último Conde de Basto não teve quem o afrontasse em vida e bem o merecia. Mas era temido pela convicção com que defendia o absolutismo, não duvidando em sacrificar na forca todos aqueles que andassem a proclamar ideias liberais.
O último Conde de Basto, foi José António de Oliveira leite de Barros, natural de S. Geão (Fafe), nascido em 1749, filho legitimado de André de Oliveira Leite de Barros, da Casa da Breia de s. Nicolau e de D. Brígida do Valle. Estudou em Coimbra onde concluiu o curso de Leis em 1780. Quinze anos depois era desembargador ordinário da Casa da Suplicação. Os altos cargos sucederam-se e após a chegada do General Inglês Beresford foi o único chefe da auditoria geral do exército. Os serviços foram tão relevantes que logo recebeu a Comenda da Ordem de Cristo, uma dotação avultada, o senhorio de Rassas, a alcaidaria-mor de Guimarães.
Era inimigo acérrimo do regime parlementar liberal instaurado em 1820 e assim não admira que tivesse participado na Vilafrancada. Com a vitória desta é nomeado Conselheiro de Estado e membro da Comissão incumbida de formular o projecto de Constituição que D. João VI prometera. Envolve-se na Abrilada e durante uns dias é ministro da guerra e depois ministro da justiça. D. Miguel é obrigado a sair do país e José A. O. L. Barros é exonerado do Ministério da Justiça e, uns dias depois, de Secretário de Negócios do Reino e da Marinha.
A Pasta do Reino corresponde hoje à de um primeiro-ministro que só presta contas ao Rei. Era violento contra os prevaricadores liberais. Os promotores da Revolução de 1828, organizado no Porto, foram reprimidos severamente. Leite de Barros forma uma alçada encarregada de condenar sem compaixão os réus dessa traição de lesa-majestade.
D. Miguel, imensamente reconhecido pelos serviços do seu mais que fiel correligionário, concede-lhe a comenda da Torre e Espada e logo a seguir a Grã-Cruz de Cristo. O decreto de 18 de Janeiro de 1829, concede-lhe o título de “Conde de Basto”.
Mas o fim do regime Miguelista está perto. O cerco a Lisboa aperta-se. Em 23 de Julho de 1833 o Conde de Basto abandona a capital e dirige-se a Coimbra onde chega no dia 2 de Agosto. Está doente, muito doente. A morte encontra-o no dia 4 de Agosto de 1833. É sepultado com o hábito da Ordem de Cristo na Igreja do antigo Colégio de S. Tomás.
Mas nem uma no o seu cadáver vai dormir sossegado. Uma no depois, em 1834, é decretada a extinção das ordens religiosas. As igrejas, os mosteiros e os conventos são devassados. Os liberais procuram o seu cadáver. Tiram-no do túmulo. Enxovalham-no com escarros e urinas. É arrastado, no meio de chufos e impropérios, pelas lages do templo. É deixado literalmente dilacerado, com bocados soltos. Era a vingança, a última vingança.

FIM

Por: Francisco Vitor Magalhães

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