Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 24-03-2008

SECÇÃO: Opinião

HISTÓRIAS DE ÁFRICA (5)

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A velha estação de Campanha foi o ponto de partida de uma longa viagem de barco, que me havia de levar à África Austral, mais propriamente à cidade de Lourenço Marques, capital de Moçambique. Despedi-me da minha mãe e dos meus irmãos que deixei em Valbom – Gondomar.
Parti num velho comboio que fez toda a viagem de noite e só chegou a Stª. Apolónia no dia seguinte ao romper do dia.
Daí parti para o cais de Alcântara onde fundeado e preso às amarras do cais estava o barco Moçambique. Quando houve ordens para embarcar, subimos a bordo eu e todos os rapazes que viajavam sozinhos, fomos encaminhados para a terceira suplementar lá para o porão do navio, também conhecida por “aldeias dos macacos”, apenas porque o barco ia superlotado e assim aconteceu até Luanda.
Quando tudo ficou pronto o barco soltou aquele apito roufanho anunciando a partida e aos poucos ia-se afastando do cais puxado por um rebocador. O convés apinhado de gente empunhando lenços diziam adeus e aos poucos Lisboa foi desaparecendo dos nossos olhos.
Esquadrão Esquadrão de Cavalaria 1955/1956 Lourenço Marques
Esquadrão Esquadrão de Cavalaria 1955/1956 Lourenço Marques
Não sei quantos nós desenvolvia, mas não demorou muito a chegar ao Funchal, era dia de passagem de ano. Fomos a terra, formamos um grupo e andamos toda a noite na ramboia, já um pouco tolhidos pelos vapores do álcool voltamos para bordo onde nos esperava uma lauta ceia. Ao dar as dozes badaladas tudo era já naquele tempo fogo de artifício. Acabava de entrar o ano de 1954, já lá vão mais de cinco décadas.
No dia seguinte, o barco fez-se novamente ao mar. Sete dias, sete noites sempre, sempre a navegar, o mar tanto estava bonançoso como encapelado, quando por vezes galgava uma onda gigante, logo a quilha mergulhava levantando a ré e fazendo com que a hélice trabalhasse em seco. A vida a bordo era monótona…
Até que surge um certo alvoroço e tal como qualquer Nau Catrineta lá longe na linha do horizonte já se avistava terra… era a encantadora Ilha de São Tomé. Não havia cais, o barco ficou ao largo e quem foi a terra fê-lo numa barcaça escoltada por dezenas de ferozes tubarões.
A cidade de traça colonial era pouco atraente, uma praia linda assim como tudo o que a rodeava em termos de vegetação incluindo obviamente a cultura do cacau. Os habitantes eram gente simpática e acolhedora. Foi assim o meu primeiro contacto com povos africanos.
Aquando da visita a Moçambique do Presidente da República Gen. Craveiro Lopes
Aquando da visita a Moçambique do Presidente da República Gen. Craveiro Lopes
A etapa seguinte era Luanda a capital de Angola. Mas antes tive o meu baptismo a bordo. Quem viajava pela primeira vez de barco era tradição o baptismo ser feito na piscina para onde nos atiravam vestidos e calçados. Esta praxe acontecia ao atravessar a linha do Equador.
Como os dias a bordo eram sempre iguais, um dos meus entretimentos era ver os peixes voadores e assim chegamos a Luanda. Porém; a noite que antecedeu a chegada a Luanda, os rapazes que iam para Moçambique munidos de travesseiras assaltamos os que ficavam em Luanda, dando-lhes tapona brava, enquanto dormiam. O pior foi que no dia seguinte fomos chamados ao Comissário de Bordo por ter rasgado algumas almofadas, apanhamos uma boa reprimenda e nada mais.
Luanda era já uma grande cidade com uma vida muito intensa quer de noite quer de dia. A sua marginal era linda e a vida social dos brancos parecia muito apetecível. Aí ficou a maior parte dos passageiros e depois de efectuadas as cargas e descargas e outras formalidades o Moçambique voltou ao mar desta feita a caminho do Lobito.
Esta pequena cidade era muito bonitinha, com jardins muito bem cuidados e muito planinha. À minha espera estava o meu primo Guilherme que sendo o guitarrista lá do burgo era muito conhecido e montados numa pequena motorizada Solex das que tinha o motos sobre a roda da frente e percorremos toda a cidade em beleza.
A etapa seguinte era o porto de Moçamedes, cidade esta que tendo pouco que ver só serviu para o barco se abastecer de peixe já que essa zona marítima era muito rixa em pescado.
Feito o abastecimento, partimos para a Cidade do Cabo território administrado pelos Ingleses. Chegamos bem, não sofremos tormentas nem vimos o gigante Adamastor. Alugamos um táxi e demos uma volta por toda a cidade que no fundo era igual a tantas outras apenas com a particularidade de se falar o inglês.
E finalmente fomos em direcção à cidade que seria a última dessa longa viagem. Obviamente que em refiro a uma linda cidade que se chamava Lourenço Marques, a capital de Moçambique, hoje Maputo.
Dezoito dias se passaram desde a saída do cais de Alcântara até Lourenço Marques. Logo que o barco acostou aos cais, logo procurei descobrir o meu pai entre muita gente que ansiosamente aguardava o desembarque dos seus familiares ou conhecidos e amigos.
Selei o fim dessa cansativa viagem com um grande abraço que dei a meu pai a quem já não via há bastantes anos.

Por: Alexandre Teixeira

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