Associação Dinamizadora dos Interesses de Basto
Edição de 29-09-2014

Arquivo: Edição de 24-03-2008

SECÇÃO: Opinião

VANTAGENS COMPARATIVAS (85)

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O PROTESTO DOS LINCES

Aconteceu no dia dezasseis de Janeiro de 2007, uma quarta-feira, tinha começado a escurecer, havia pouco mais de meia hora. Os habitantes das aldeias serranas do perímetro florestal da serra da Malcata, em particular de aldeias dos concelhos de Penamacor e do Sabugal, preparavam-se para comer a ceia, talvez caldo e pouco mais, e de seguida se meterem na cama. O dia seguinte seria de trabalho duro no campo.
Muitos ficaram com o caldo meio entalado na garganta e fugiram para os pátios das habitações, com a caliça a cair-lhes pela cabeça abaixo e as portadas a saírem dos engonços. Foi um estrondo enorme. «O que será isto?» - interrogavam-se e olhavam para o parceiro da frente, ou do lado, sem jeito, nem energia, para exprimir qualquer outro tipo de palavra, ou reacção.
No dia seguinte, e por força dos protestos manifestados pelas populações junto da Câmara Municipal e dos Bombeiros Voluntários, veio a explicação da Força Aérea, informando que tinha sido um simples exercício nocturno, de largada de armamento, e que fora efectuado por uma esquadrilha de aviões de combate, F-16, portugueses e dinamarqueses, em manobras conjuntas e em voo rasante, à velocidade do som, sobre as terras da serra da Malcata.
Não muito longe da vila de Penamacor, mas já em pleno interior da Reserva Natural da Serra da Malcata, habita um casal de linces. Ele chama-se Tobias, ela chama-se Inês e esperam um casal de filhotes. Serão os primogénitos, têm nascimento marcado para a segunda semana de Março e vão chamar-se: o macho, Bruno e a fêmea, Sónia. Trata-se de um casal perfeito. A Inês tem vindo a ser regularmente assistida pelo Médico Veterinário do Parque, tem feito todos os exames e todos os testes com vista a que nasça um casal de novos linces perfeitos e saudáveis.
Toda a gente sabe que os linces gozam de protecção legal, têm o seu habitat perfeitamente identificado e, ainda, dada a falta de condições para que sobrevivam regularmente à sua própria custa, os serviços florestais distribuem-lhe alimentação suplementar, colocando rações especiais em locais estratégicos. O Tobias está devidamente informado sobre tudo isso e, não obstante gostar de caçar pelos seus próprios meios, coelhos, ratazanas e aves, como perdizes, não dispensa a ida, quase todas as noites, aos locais já seus conhecidos, buscar a reserva alimentar para si e para a sua Inês.
Refira-se que o período de gestação dos linces é de sessenta e três a setenta e quatro dias, e o acasalamento ocorre entre Janeiro e Março, o que significa que o Tobias procedeu em conformidade com todos os trâmites. A fecundação da fêmea ocorreu logo nos primeiros dias de Janeiro, como mandam as normas.
Também ele, no fatídico dia dezasseis de Janeiro passado, quando o escuro da noite já ia em mais ou menos uma hora, se preparava para sair da toca, tendo-se despedido da Inês com um beijo na testa e lhe ter passado a pata direita da frente pela barriga, afagando os rebentos que ainda tinham apenas duas semanas de gestação, e se aproximava da saída da toca que, como sabemos, é o local mais estreito de toda a habitação, foi surpreendido pelo mesmo estrondo que aterrorizara todos os humanos da região.
A entrada da toca desmoronou-se quase por completo. Ficou apenas uma pequena fresta por onde ele ainda conseguiria passar, embora com imenso custo. Mas ele, a primeira coisa com que se preocupou foi com a gravidez da “esposa”, a sua Inês, e voltou para trás a acariciar-lhe a barriga, se estaria tudo bem, que aquilo tinha sido talvez um pequeno abalo de terra, mas que já tinha passado.
Ela, entretanto, olhando-o de frente, reparou que ele tinha uma orelha a sangrar e que lhe faltava um pedaço da mesma, tinha também um hematoma no dorso, ligeiramente à frente do quadril esquerdo, mas, para não o assustar e porventura provocar nele qualquer reacção menos pensada, fez de conta que não viu. Porém, ficou muito preocupada e, a modos como quem não sabia de nada, aconselhou-o a que, no dia seguinte, logo pela manhã, falasse com o Dr. António. O Dr. António é o médico veterinário que se ocupa de todos habitantes do parque natural.
O Tobias, para além de ter uma óptima relação com o médico veterinário, é também uma espécie de porta-voz de toda a bicharada do parque. E, de todos eles, com os que se dá melhor é com a malta do ar. Dá-se muito bem com o chefe dos milhafres, com o chefe dos falcões peregrinos, com a águia mestra, com o chefe dos abutres, entre todos os demais.
Durante a noite, e antes de se encontrar com o Dr. António, contactou todos os chefes dos animais de locomoção aérea e organizou um raid de protesto pela falta de leis que proíbam os homens dos F-16 de efectuarem qualquer tipo de voos seja sobre o Parque, seja mesmo nas suas imediações num raio de pelo menos cinquenta quilómetros.
Seriam quatrocentos milhafres, duzentos falcões peregrinos, cinquenta águias-reais e vinte e cinco abutres. Todos, em formação como a dos patos, fariam uma passagem simbólica sobre os edifícios dos Paços do Concelho de Penamacor e do Sabugal, de seguida rumariam a Lisboa. A viagem, a dois mil metros de altitude, demoraria cerca de uma hora.
O destino, em Lisboa, seria o Palácio de S. Bento, onde reside o Primeiro-Ministro e funciona a Assembleia da República. Depois de efectuados meia dúzia de voos provocatórios, em círculos, sobre a área do Palácio de S. Bento, pousariam todos em cima do telhado, para um descanso de mais ou menos uma hora. Passada esta pausa toda a esquadrilha regressaria à Serra da Malcata.
Haveria uma excepção. Os vinte e cinco abutres ficariam, nos jardins do Palácio, por um período de dois ou três dias, com a incumbência de deixarem pelo menos uma defecação na cabeça de cada um dos Senhores Deputados à Assembleia da República.
Por exiguidade de espaço não transcrevemos o conjunto das conversas havidas entre o Tobias e o Dr. António, sobre a idealização e execução de todo este plano. Referimos apenas que o Dr. António, usando o máximo da sua arte para o diálogo e grande diplomacia, conseguiu demover o Tobias de dar a última palavra, quanto à luz verde, para que a esquadrilha de milhafres, falcões peregrinos, águias-reais e abutres, avançasse sobre Lisboa.
O Dr. António teve que lhe assegurar que estava para muito breve a publicação de legislação especial, que proibia todo e qualquer tipo de exercício de meios da Força Aérea sobre qualquer das zonas nacionais de paisagem e natureza protegidas.

Por: José Costa Oliveira

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